A arte de contar histórias

Dias positivos 1. Quem está habituado a falar para grupos sabe o poder que contar uma história tem. Numa assembleia adormecida, de imediato muitas cabeças se erguem. “Aconteceu-me um dia que…” é o melhor antídoto para o sono e a moleza. Os rostos levantam-se, os olhos brilham, os sorrisos iluminam as faces e, se a história for bem contada, pode bem surgir um suspiro aprovador.

2. O cinema é uma das melhores formas de contar histórias. Actualmente estão em exibição dois filmes que por razões completamente diferentes são histórias que fazem pensar. Em “21 Gramas” (de González Iñárritu) vemos um criminoso convertido ao cristianismo, numa fé sincera, quase fundamentalista (como por vezes é a dos adultos convertidos), mas com a sua vida a entrar numa espiral de sofrimento que o leva a desejar a morte como forma de expiação. Depois da conversão, numa altura em que se empenhava na paróquia, perde o emprego, atropela mortalmente um pai e duas meninas, é preso, e abandona a família depois de sair da prisão por se sentir incapaz de acompanhar a mulher e os filhos. Acontece que o coração do pai atropelado vai servir para um outro homem que estava a separar-se da sua mulher. Esta apoia-o durante a hospitalização e o casal parece recompor-se. Com o coração novo, a personagem de Sean Penn quer saber quem é que lho deu e acaba por conhecer a viúva do dador e mãe desesperada das duas meninas mortas no acidente. É um mundo de desencontros o que vemos, genialmente transmitido pelo modo como o filme está realizado: começa a meio e ora avança ora recua. Nos primeiros minutos o espectador fica confuso, mas depois percebe que está perante uma história em puzzle e tem ele próprio que montar o filme na sua cabeça. Do filme ficam interrogações sobre a dor, a culpa, o amor, a fé e a morte. Quando tudo apela à distracção, encontrar uma filme com tantas interrogação é um achado.

3. A outra história são as muitas histórias de O Grande Peixe (de Tim Burton). Aí o tema central é precisamente a capacidade de contar histórias. Quando o pai está a morrer, o filho, que tinha saído dos Estados Unidos e emigrado para França, finalmente aproxima-se do pai e deseja descobrir se as histórias que ouvia na infância têm algum fundo de verdade. O filho, de certo modo “pródigo”, acaba por converter-se e conta ao pai a história da sua morte. É uma história de reconciliação, portanto, num filme cheio de histórias (como a “Alice no País das Maravilhas”) sobre a capacidade de encantar com palavras.

4. Estes dois filmes fazem-me pensar que é preciso rea-prender a contar histórias. Jesus foi mestre nessa arte. Há uma história judaica que diz que um rabi, coxo, certo dia ficou tão empolgado a contar uma história que se levantou e saltou como uma gazela. Jesus, o Rabi, fez muitos paralíticos dançarem porque sabia contar histórias, não como um ilusionista mas como quem ajuda a descobrir a história divina de cada um. Foi assim que fez os cegos verem, os surdos ouvirem, os pescadores apanharem muitos peixes ou caminharem sobre as águas. Na teologia há um corrente chamada Teologia Narrativa que defende que, mais do que clarificação filosófica de dogmas, precisamos de histórias que nos empolguem. O vigor do cristianismo, hoje como sempre, passa por saber recontar a história de Jesus como Ele soube contar as histórias do Reino.