Colectivismo ultraliberal

Questões Sociais 1. Em Portugal criou-se um sistema económico e social que seria patusco, se não fosse trágico. Poderemos designá-lo por colectivismo ultraliberal.

É colectivista, na medida em que os cidadãos exigem do estado a solução de todos os problemas do país. Exigem que o Estado seja um verdadeiro deus na terra. Mas, como ele é um deus falhado, contestam-no sistematicamente.

O sistema é também ultraliberal, na medida em que alimenta a experiência e a reivindicação de todas as liberdades e o seu abuso: tanto as liberdades previstas na Constituição da República Portuguesa com as suas perversões. Entre estas figuram, por exemplo: o não cumprimento da lei; a exploração do trabalho humano; a negligência no trabalho; a falta de respeito por outrem; o tráfico humano (através da prostituição e de situações de verdadeira escravatura); a fuga aos deveres familiares e outros; o consumo de drogas…

2. Não se sabe quantas pessoas se deixaram dominar pelo colectivismo ultraliberal, ou por algumas das suas componentes. Sabe-se apenas que ele prevalece no “pensamento dominante” e se encontra muito difundido nos movimentos sociais e políticos, bem como em elevado número de empresas (ou pseudo-empresas) e suas organizações.

Quase se pode afirmar que o colectivismo ultraliberal luta para que, no limite, os cidadãos tenham asseguradas todas as condições de bem-estar, mesmo sem pagarem impostos nem cumprirem outros deveres.

3. Acossado pelos cidadãos e pelos movimentos políticos e sociais contestatários, o Estado encontra-se num beco sem saída. Ultimamente, optou pela empresarialização de alguns dos seus serviços, e parecem estar no horizonte algumas privatizações. Apesar disto, não se liberta da pressão que se exerce sobre ele, podendo caminhar eventualmente para a situação de “Estado mínimo”.

Os cidadãos vivem alheados, em geral, da crise do Estado, embora o discurso sobre ela se encontre na ordem do dia. É que o discurso oscila entre dois pólos e não chega ao âmago do problema: um dos pólos é a reivindicação, colectivista, de mais direitos que implicam mais recusos financeiros; o outro pólo é o incumprimento da lei, a fraude e evasão fiscais e o crime, organizado ou não, que se saldam pela diminuição da receita pública e pelo aumento da despesa em serviços policiais, de justiça, de prevenção e de reinserção.

4. Existe uma percentagem desconhecida, mas relativamente elevada, de cidadãos responsáveis que procuram cumprir os seus deveres e rejeitam o sistema colectivista ultraliberal. O número desses cidadãos até poderia aumentar se os outros, menos conscientes, vissem que o sentido de responsabilidade e a honestidade valem a pena.

A experiência, no entanto, parece demonstrar o contrário: a desorientação do Estado levou-o a menosprezar os ci-dadãos cumpridores, e quase a persegui-los, até porque eles são mais controláveis.