Calendário pastoral

Querubim Silva Padre. Diretor
Querubim Silva
Padre. Diretor

1 . O ensino profissional reclama uma atenção permanente à realidade do caminho dos formandos, implicando com frequência o refazer do cronograma e o trabalho de recuperação. Diria que a realidade a pastorear reclama a mesma atenção: um serviço de atendimento permanente, “equipas” em permanente prevenção. Como dizia há dias um colega: “Se me chamam às três da manhã para ir sacramentar um doente, não fico a pensar «vou de manhã»; a resposta é ir de imediato”.

O calendário pastoral é o da vida das pessoas e das comunidades. Toda a programação deve estar sensível à surpresa do quotidiano. É importante a planificação, o ordenamento cronológico, mas sempre aberto à emergência. Um hospital de campanha é uma entrada franqueada a toda a hora, uma disponibilidade 24 horas por dia, sempre apta aos cuidados primários, atenta a estabilizar os “feridos” que chegam.
As decisões na Igreja, salvaguardadas a conveniente discrição e a ponderação necessária, são para responder à realidade das pessoas e das comunidades. E, sendo assim, a flexibilidade do cronograma é-lhes inerente. Não é a estrutura, o institucional que tem a prioridade; mas a vida que aguarda o pastoreio. Também na nomeação dos Bispos! Sob pena de se cercearem fluxos de esperança e entusiasmo, tolhendo o dinamismo do Espírito.

2 . E, a propósito disto, valeria a pena fazermos um momento de oásis, para mergulhar nos documentos do Concílio Vaticano II e nos refrescarmos com a água destas duas ou três correntes: a corresponsabilidade laical, a sinodalidade e a colegialidade episcopal.
Os leigos, agentes imprescindíveis na missão da Igreja, onde são tidos e achados para a escolha dos seus pastores? São competentes apenas como executores ou a sua graça batismal confere-lhes também a capacidade do “sentido das coisas da fé”?
O Senhor Jesus quis que fôssemos salvos não isoladamente, mas como um povo que caminha em sintonia. E o rebanho tem, muitas vezes, o cheiro do caminho, como diz o Papa Francisco. Confiamos ou não no Espírito dado à Igreja?
A colegialidade episcopal é refletida profundamente nos textos conciliares. A sua operacionalidade, concretamente na ação das Conferências Episcopais, por onde anda? O exercício do ministério petrino, indiscutível, passa pelo enquadramento nesta riqueza de comunhão. Mas que formas reais toma a colegialidade? Não seria um momento privilegiado para isso este da designação dos pastores para as Igrejas locais? E não apenas com as formais consultas, mas com o diálogo franco…
O monopólio do poder e da verdade, o juridicismo, o clericalismo não são os caminhos da Igreja autêntica. Se outras tivessem sido as práticas e disposições, talvez não tivesse existido a divisão entre Oriente e Ocidente no século XI, entre católicos e protestantes no século XVI e entre catolicismo romano e mundo ilustrado moderno nos séculos XVIII e XIX. Não será o caso, seguramente, de novos cismas. Mas poderíamos ser testemunho para o mundo de verdadeira vida de transparência e comunhão fraternas, de corresponsabilidade prática na missão da Igreja!