Deficiências A epilepsia ocorre com maior frequência na criança e no adolescente – cerca de 50 por cento das crises epilépticas aparecem antes dos 10 anos e 70 por cento antes dos 20. Esta incidência nestas faixas etárias significa que alguns sujeitos obtêm a cura.
A epilepsia caracteriza-se pela ocorrência de crises repetitivas, de aspecto clínico e eléctrico variável – ausências (perda de contacto com o real, retomando a actividade no ponto onde a interrompeu), perda de consciência, com ou sem grito; crises motoras, (convulsões, perda de força muscular, perda de movimentos, automatismos).
Actualmente descrevem-se três tipos de epilepsias (generalizadas primárias; secundárias generalizadas; parciais ou focais).
O diagnóstico é clínico, (avaliação clínica e por electroencefalograma) e o tratamento tem indicação medicamentosa. Por vezes são indicadas reeducação psicomotora e estratégias de relaxação, bem como intervenção educacional e psicoterapêutica.
As crises epilépticas, sobretudo as mais aparatosas, conduzem a uma fantasmática social muito rica, afectando a criança e a sua família.
Apesar de não podermos considerar uma personalidade própria da pessoa com epilepsia, torna-se óbvio que uma doença em que o curso do pensamento é bruscamente interrompido, com um grande impacto social, obrigando a medicação e outros cuidados médicos, por vezes com perturbações associadas, conduz a algumas especificidades. Muitas das características registadas podem ser com-preendidas como defesas. Estas crianças sentem-se fragilizadas pelas crises, com uma auto-imagem corporal ameaçada e com sentimentos de perda (de consciência, de controle, de relação). Surgem então alguns traços de personalidade, nomeadamente a imaturidade, a irritabilidade, a impulsividade, a variabilidade de humor, a agressividade social e a forte ligação ao concreto.
As famílias das crianças com epilepsia apresentam frequentemente algumas perturbações, desde uma excessiva superprotecção até à rejeição, à depressão, ao medo e vergonha de uma causa hereditária quando existem antecedentes familiares.
A excessiva protecção conduz muitas vezes ao impedimento da criança praticar diversas actividades, nomeadamente desportivas, pelo medo do perigo associado às crises.
Para além de diminuir as oportunidades de lazer, a criança vê limitadas as suas possibilidades de desenvolvimento social, aumentado o seu nível de dependência e a sensação de criança doente.
É importante existir apoio para as famílias com o objectivo de que estas se sintam acolhidas nos seus medos e angústias (as crises são muitas vezes assustadoras). Após o choque inicial, precisam de ser devidamente informadas e orientadas para se organizarem no sentido de cuidar da criança com epilepsia, em função de construir um futuro o mais normalizado possível e não em torno da doença. Poderão ser fundamentais associações ou grupos de apoio e auto-ajuda, preferencialmente com o recurso de técnicos especializados.
O rendimento escolar destas crianças muitas vezes é afectado, devido a distúrbios associados ou a efeitos secundários da medicação (por exemplo, instabilidade e excitação ou lentificação), pelo que merecem uma intervenção específica, adequada à sua problemática, que lhes permita ultrapassar as dificuldades.
