ROSA DOS DOIS MUNDOS
Lucia Capuzzi
Editora: Paulinas
168 páginas
12,50 euros
“O sudário não tem bolsos”. Estamos em 2013. Em Roma, cerca de 300 mil fiéis enchem a praça de São Pedro para assistir à celebração eucarística de Domingo de Ramos, a primeira missa presidida pelo “Papa do fim do mundo”. A homilia segue a interrogação própria da data – como puderam aqueles que agora O aclamam, condená-lo à morte? -, e já vai longa quando o discurso é interrompido, em jeito de improviso, por esta curiosa frase: “A minha avó dizia-nos, a nós, meninos: «o sudário não tem bolsos»”. Não será tarefa fácil imaginar frase mais franciscana (no duplo sentido) do que este breve e incisivo elogio (em forma de aviso), do desapego às coisas terrenas, dito naquele tom a que nos habituaríamos algures entre o improviso e o artifício esmerado.
E quem é esta “avó Rosa”, de quem o Papa Francisco, num mês de pontificado, já tinha falado, publicamente, mais do que uma vez? A pergunta, naturalmente, vai sendo feita por muitos dos que então acompanham mais de perto o trajeto do novo pontífice. Entre eles conta-se Lucia Capuzzi, uma jornalista italiana, que decide investigar a vida dessa mulher com quem, dizia o próprio, o papa tinha “aprendido a rezar”. Dessa investigação resultou “Rosa de dois mundos”, uma interessante incursão da vida desta militante católica que teve um papel fundamente na educação do mais importante líder espiritual do mundo.
Para reconstituir a história da “avó Rosa” (na obra, quase metonímia para a família Bergoglio ou até a identidade “porteña”), a autora percorreu arquivos dos dois lados do atlântico, entrevistou dezenas de pessoas, mas evita, com sensatez, a ortodoxia do género biográfico. E é com habilidade que, indo do particular para o geral, nos leva a surpreender alguma da experiência criadora do património de inestimável valor que o “Papa do fim do mundo” trouxe ao coração da catolicidade – do florescimento de experiências pastorais nas periferias da sociedade, à opção preferencial pelos pobres (não como escolha de classe em oposição aos ricos, mas como ponto de vista privilegiado sobre a realidade).
António Pereira

