Direitos Humanos Surpresa! Eis como muitos sectores da vida social e política portuguesa reagiram e qualificaram a última Carta Pastoral dos Bispos portugueses.
De um lado a surpresa e a alegria dos diversos movimentos sociais, sindicais e políticos que se regozijaram com a atitude do episcopado de não virar costas ao presente momento e alertar contra “os pecados sociais” que, infelizmente, grassam na sociedade portuguesa actual. Pena foi que esse apoio tenha sido esboçado, por alguns, timidamente. Parece que há quem não se canse de lembrar o passado obscuro da Igreja — que é pejado, como todos sabemos, de diversos momentos de incoerência com a mensagem de Jesus — mas depois se contém na hora de esboçar um aplauso a estas intervenções sociais da mesma Igreja.
Por outro lado assistimos a outros sectores, dos politicamente conservadores aos economicamente neoliberais que não disfarçaram o seu embaraço, incrédulos, talvez, com a ousadia das críticas dos nossos bispos. Parece que muitos se sentiram chocados, quase traídos, com o facto deste pronunciamento ter surgido na vigência de um Governo formado por partidos, tradicionalmente, “afectos” à Igreja. E aqui pergunto, porquê tanta surpresa? Não é verdade que a gravidade do momento que vivemos exige uma tomada de posição da nossa Igreja. Que ela ficasse calada, isso sim, seria uma preocupante omissão.
Denunciar o que está mal é uma questão de cidadania. Cidadania que é pilar fundamental na construção da democracia e uma das maiores conquistas do 25 Abril! Não quero exagerar ao ponto de dizer que esta Carta Pastoral dos bispos portugueses é a mais importante desde as tomadas de posição de D. António Ferreira Gomes ou D. Manuel Vieira Pinto nos tempos da ditadura salazarista. Porém, é importante observar como os quase 30 anos de cidadania, passados sobre a Revolução dos Cravos, deram ao episcopado português uma tal clarividência!
Defender a Paz e a Verdade é um imperativo evangélico. Temos que ser dignos de grandes figuras que, ao longo de 2000 anos, foram lutadores incansáveis pela justiça e fraternidade universais: de São Francisco de Assis a D. Óscar Romero, passando por São Thomas More, pelo Papa João XXIII, madre Teresa de Calcutá ou o ainda (felizmente) vivo Pedro Casaldáliga. A todos eles, e tantos outros, se devem os momentos mais bonitos de fidelidade à Extraordinária Mensagem de Jesus Cristo.
Como poderemos nós, em Portugal, esquecer também os ensinamentos das vozes proféticas, e consequentemente incómodas, de São João de Deus, D. António Ferreira Gomes, do Pe. Abel Varzim ou da sempre actual Maria de Lurdes Pintasilgo?
É nesta linha que deve ser aplaudida a Carta Pastoral dos bispos portugueses. Porque a fidelidade ao Evangelho é anúncio mas também denúncia. Assim o esperam todos os pobres e injustiçados deste mundo e assim o esperamos todos os Cristãos para quem a construção de um Mundo Novo está intrinsecamente ligada à mensagem de Jesus. O Caminho é não parar, até que todos tomemos consciência “da responsabilidade solidária pelo bem comum” e a concretizemos no nosso dia-a-dia.
