Contava-me, aqui há dias, uma dessas almas simples pela grandeza e boas pela simplicidade, dessas que transportam as misérias do mundo em cada olhar e em cada gesto e fazem da vida um hino à alegria, uma história que, se não fosse verdade podia ser inventada: na aldeia pobre em que viviam, uma criança, antes de ir para a escola parava junto à casa, batia à porta das Irmãs e pedia um copo de água. A princípio nada de anormal, apenas admiração e suspeita: “um copo de água!” E veio a pergunta: “Então, mas tu não tens água em casa?” Tenho, mas a vossa é melhor, é água de Deus. E, passados dias, veio a explicação: a água era um simples pretexto para um beijo que aquela criança queria em cada dia antes de entrar no espaço da escola. Depois dela vieram outras e mais outras e instituíram a hora do beijo de tal modo que as Irmãs tiveram de explicar que em cada dia, àquela hora, só a Irmã que estivesse em casa é que poderia receber e dar tanto beijo. E instituiu-se a hora do beijo.
Achei piada à história — que é um facto — e recordei todas as peripécias de um ano escolar que começou e um sem-número de dificuldades vindas dos mais diversos quadrantes onde cada um exige aquilo que pensa que é o melhor sem olhar àquilo que é o bem de todos. Foram portões fechados pelos pais porque o Governo devia construir aqui outra escola e nós não temos rendimentos para mandar os filhos para outro lado… mesmo que o outro lado não seja muito longe desta aldeia; vimos crianças do sétimo ano transformadas em professores porque a nossa escola é a melhor, o nosso projecto reconhecido e o senhor ministro tem de vir cá… se não, as crianças vão continuar assim; vimos pais sem dinheiro para comprarem tantos livros, que mudam em cada ano e são às dezenas em cada disciplina; vimos ministros e secretários para quem tudo se vai resolver e à última hora cortam no orçamento que antes tinha sido aprovado com as escolas particulares; vimos reitores que não assumem as propinas porque não se querem comprometer. Vimos, enfim, crianças com discursos de adultos e pais a falarem como crianças num país onde toda a gente sabe de tudo, fala de tudo, tudo critica e todos em nome da competência que a seus olhos julgam possuir.
O mundo da escola é o mundo dos sonhos e da utopia que se realiza em cada ano e se transporta em cada sacola e se abre para a vida quando um professor a desperta e descobre em cada letra, número ou experiência. Nunca está feito porque é projecto; nunca é perfeito porque é construção; nunca é meu porque é um espaço de confronto entre o passado e o futuro num hoje que é o presente.
Se houve tempos em que o ensino se centrou na figura do professor que do alto da sua cátedra tudo comandava, outros houve (e há) em que os alunos imperavam e em nome deles e dos possíveis traumatismos, muitas ofensas ficaram sem desculpas e muita ignorância ganhou foros de esperteza. Hoje, os tempos estão mais calmos e chegou a hora de centrarmos a escola no ensino – como dizia, há dias, um professor – sem esquecer o aluno como centro e razão de ser da Escola, mas também o professor e o auxiliar como agentes de um processo que se faz em cada dia e em cada ano com a participação de todos e também dos pais.
Da pena dos nossos Bispos surgiu, há dias, um documento dirigido à sociedade portuguesa onde definem os sete pecados sociais e falam de egoísmos, consumismos, corrupção, desarmonia do sistema fiscal, irresponsabilidade na estrada, comercialização do fenómeno desportivo e exclusão social. Sem querer comentar o documento, nem era este o espaço ou o momento, penso faltar-lhe um oitavo pecado: a ausência da hora do beijo. Ele é, sem dúvida, o motor duma escola em que a pessoa da criança ou do adulto é o centro, mas uma pessoa que queremos ver feliz e esse é o segredo da escola.
