FÁTIMA. GRAÇAS, SEGREDOS, MISTÉRIOS
Antero de Figueiredo
Paulus
192 páginas
12,90 euros
“Fátima. Graças, Segredos, Mistérios” apareceu pela primeira vez em 1936 – vivia a vidente Lúcia com as irmãs doroteias, em Tui (Espanha), dando pelo nome de Irmã Dores – e teve 17 edições até 1949. Foi um sucesso na altura. Agora temos a 18.ª, no início da coleção “Clássicos da Literatura Espiritual” da editora Paulus.
O padre estarrejense Donaciano de Abreu Freire, poucos meses depois da primeira edição, escreveu na revista do episcopado português uma nota muito positiva sobre o livro: “Literariamente, não pode «Fátima» ser catalogado, mesmo como legenda prima, entre as vulgares crónicas do grande acontecimento religioso português. Haverá, antes, de ter-se, salvo melhor opinião, como poema em prosa, de poesia heroica, quero dizer, mítica… A personagem é Lúcia; o herói é a alma católica de Portugal com a tradicional devoção mariana a individuá-la. O maravilhoso incendia todo o livro de relâmpagos celestes, desde a iluminura branca das aparições e as coruscações de oiro fosco e púrpura viva da liturgia, até à presença ideal de Lúcia e a presença real de Jesus-Hóstia entre peregrinos e doentes” (“Lumen” 1, 1937, citado por Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, no Prefácio).
A obra de Antero de Figueiredo não é uma história das aparições, nem tem “propósitos apologéticos, teológicos ou filosófico”, como escreve o próprio autor (pág. 12). É uma peça literária, cheia de poesia, que quer dar a conhecer Fátima e que contou com conversas diretas com Lúcia. O autor, como revela nas primeiras páginas de “esclarecimento”, deslocou-se ao Colégio de Nuestra Señora de los Dolores, em Tui, e interrogou Lúcia, que respondeu “com aquele seu modo, muito seu, natural, calmo e simples, de se expressar, mas não sem que, por vezes, sorrisse nela um fio de ironia piedosa, a franzir-lhes os cantos da boca larga e leal”.
Lúcia respondeu, por obediência aos superiores, mas não responderia, conta a própria, “se, ainda que compelida, a interrogassem acerca de certo Segredo Divino…” Sobre os encontros com o escritor, Lúcia afirmou (segundo conta Antero de Figueiredo): “Foi esta a primeira vez que me interrogaram a respeito de certas particularidades da minha vida e da minha alma religiosa. Há perto de vinte anos que, por obediência, tenho estado calada, e calada ficaria toda a vida, se uma nova obediência me não mandasse falar – e agora não fosse interrogada” (pág. 12). Antero de Figueiredo sabia como elevar expectativas. Com estas notas, logo nos apetece mergulhar no livro.
Por outro lado, Antero de Figueiredo dizia que estava “certíssimo de que ela [Lúcia] jamais” leria o seu livro. Mas leu. Escreve o P.e Cabecinhas que “a Irmã Lúcia não só leu o livro como o anotou”. Sobre essas notas, nada sabemos, embora a vidente fale do encontro com Antero de Figueiredo na “Quarta Memória”. Realce-se, sim, a oportunidade da nova edição deste livro. Foi publicado originalmente há 80 anos, mas mantém uma vivacidade que muitos livros recentes querem alcançar e não conseguem.
O autor
Antero de Figueiredo nasceu em Lourosa (Oliveira do Hospital), em 1866, e morreu na Foz do Douro (Porto), em 1953. Estudou Medicina em Coimbra, mas deixou o curso e formou-se em Letras pela Universidade de Lisboa. Escreveu teatro, novela, romance, viagens, tendo ficado associado à “renascença católica” da primeira metade do século XX. Das suas obras destacam-se “D. Pedro e D. Inês” (1913), “D. Sebastião: rei de Portugal, 1554-1578” (1925) e principalmente “Miradouro” (1934), que ganhou um importante prémio literário da altura. De inspiração católica, além do livro que apresentamos, destacam-se “O último olhar de Jesus” (1928), “Non sum dignus” (1948) e “Traição à arte” (1952).


