Não se trata apenas de migrantes
As migrações fazem parte da nossa História enquanto Humanidade. A circulação de pessoas que ao longo dos tempos, atravessaram montanhas e vales, cruzaram mares e hoje cruzam os céus deveria ser natural, um ato verdadeiro de vontade; mas sabemos que nem sempre foi nem é assim. Infelizmente as migrações forçadas ainda hoje existem e assumem causas diversas, tais como perseguições políticas, étnicas ou religiosas, fugas de guerra, pobreza e catástrofes naturais, o sonho de uma vida melhor, o desejo de levar Deus a povos remotos; diante de cada um destes cenários, a resposta mais humana e edificante é a hospitalidade e não a hostilidade que, temos vindo a assistir em crescendo, expressa em discursos de ódio que revelam a xenofobia latente e resultados eleitorais perigosos para a democracia, em todos os cantos do globo.
O acolhimento exercido por todos aqueles que, em comunidade, em família ou a título pessoal, reconhecem as necessidades de quem passa ou chega constitui-se uma referência de estabilidade, um porto de abrigo, que a qualquer ser humano, deveria ser oferecido, principalmente quando se experimenta o imperativo de recomeçar.
Ser uma pessoa em contexto de mobilidade humana, implica escolher viver e essa opção acarreta o risco da vulnerabilidade e da incompreensão, suportar medos e discriminações, isolamentos e explorações, por vezes, mais difíceis de transpor que alguns muros físicos que ao longo do tempo e do espaço foram construídos, geraram periferias existenciais e refletem desequilíbrios urbanos.
Muito possivelmente por estarmos na era da globalização e da comunicação, assistimos todos os dias a terríveis atrocidades, que nos motivam e interpelam para uma consciência, cada vez maior, de que só trabalhando de forma articulada conseguimos obter resultados mais eficientes e duradouros.
Quem está no terreno e acompanha as pessoas em situação de mobilidade chega à conclusão de que só construindo pontes entre Comunidades, Regiões e Estados é possível fazer a diferença. Ousar a memória, aprender com a história, operacionalizar o que já está consagrado em Leis, Tratados e Convenções, honrar compromissos que colocam no centro a dignidade humana, a justiça e a coesão social, reconhecer os migrantes e refugiados como co-protagonistas do desenvolvimento é o caminho do futuro que precisamos de trilhar, hoje.
Nas Nações Unidas, os Estados têm assumido compromissos importantes que revelam a disponibilidade e vontade política para articular esforços ao nível da cooperação, segurança, hospitalidade, solidariedade, e assim enfrentar os desafios de um fenómeno que é legítimo. Contudo compete também ao cidadão comum reconhecer em quem migra uma pessoa com ou sem família, portadora de direitos, de uma bagagem cultural, valores, crenças, competências; aceitar o migrante como alguém que ajuda a construir a cidade do ponto de vista económico, cultural, social, espiritual, capaz de criar e participar em espaços de diálogo onde se aprende a afirmar que somos pessoas de saberes, hábitos, valores que na promoção do encontro vão amadurecendo. Compete a todos nós aprender a olhar e aceitar com gestos concretos o migrante como detentor de uma cidadania consagrada pela Convenção Universal dos Direitos Humanos e considerá-lo um merecido habitante deste Planeta Terra, nossa Casa Comum.
Partilhamos uma casa comum em pé de desigualdade, diariamente, somos recordados que as circunstâncias e os rostos da mobilidade também são mutáveis. Por isso importa conhecer e difundir os princípios e as leis que nos protegem, promovem a vida humana e ambicionam um desenvolvimento sustentável, como os 17 objetivos da Agenda 2030, assumidos pelos Governos de todo o mundo e Organizações Não-governamentais para o Desenvolvimento – ONGD, e que precisam ser cada vez mais conhecidos e apropriados pelo cidadão comum. Só desta forma tantos milhões de pessoas podem exercer o seu direito a não emigrar e permanecer no seu país de origem em condições dignas.
Importa também conhecer e acompanhar a implementação dos Pactos Globais para Refugiados e para as Migrações Ordenadas, Seguras e Regulares, aprovados em Dezembro do ano passado em Marraquexe, uma vez que estes visam proteger de forma global todas as pessoas que ponderem a necessidade de emigrar exercendo com liberdade esse mesmo direito.
Recentemente, em Janeiro deste ano foram publicadas pela Santa Sé as orientações pastorais sobre o tráfico de seres humanos, possíveis de serem consultados no site da Secção Migrantes e Refugiados. Um crime hediondo transnacional, que por assentar na exploração, desumanizar e transformar pessoas em mercadoria, precisa de ser conhecido e combatido.
A cada crente impõe-se o imperativo ético de não explorar, não lucrar, não usar de violência para com o seu semelhante, cuidar do valor da vida humana e proteger as potenciais vítimas da sedução e do engano.
As próximas Jornadas do Migrante e do Refugiado, irão assinalar-se no dia 29 de Setembro de 2019, em todas as paróquias e comunidades cristãs espalhadas pelo mundo e terão como tema: Não se trata apenas de Migrantes.
O Santo Padre confia a toda a Igreja, a partir da Pastoral das Migrações, a sensibilização para estas questões. Não se trata apenas de migrantes. São pessoas. Em Igreja afirmamos – São irmãos, não apenas migrantes. E ainda em Igreja recordamos que foi o próprio Cristo que se quis configurar com os mais pequeninos, isto é, os mais vulneráveis da mobilidade humana, deixando-nos como mandato o Acolhimento.
Em Cristo reafirmamos que a Hospitalidade faz parte do nosso ADN e colocamos os migrantes e refugiados no coração da Igreja, isto é, Papa, bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, leigos e leigas, que deixando-se conduzir por Deus se constituem em comunidades de fé.
Deus visita o seu Povo nos migrantes que chegam até nós, Deus faz-se companheiro de caminho através dos missionários e agentes pastorais que vão ao encontro de outros povos, e no fim, a missão é só uma constituir uma só família humana, apesar da diversidade cultural que constitui os povos. Através da hospitalidade Deus fala ao seu povo reunido de todas partes, unidos pela fé, pela gramática do amor que gera comunhão. Deus quer através daqueles que se apresentam como forasteiros, revelar-se como bom Samaritano, que quer curar-nos do egoísmo, da indiferença, do isolamento, da xenofobia.
Se nos deixarmos conduzir por Cristo, através dos migrantes, descobriremos terrenos novos e novas atitudes a semear. Encontrar e acompanhar a via-sacra dos migrantes e refugiados, confronta-nos com as injustiças da lei ou de quem as aplica, isso interpela-nos a uma nova cultura.
O conflito, o confronto sem violência, faz parte desta exigência de crescimento, a mudança interior é inevitável. Em Deus, nasce a fraternidade, apesar das diferenças.
Para prosseguirmos juntos temos que ousar reconciliar a memória, isso implica tratar as feridas e as mágoas do passado, para construirmos um futuro juntos como uma só família humana. Este sonho de Deus, atravessa o pessoal, o comunitário, o nacional até chegar ao global.
Cresce a consciência de que só de forma interligada podemos responder aos desafios, só contando com os migrantes e refugiados como co-protagonistas do desenvolvimento teremos sociedades mais justas e fraternas. Seremos mais Igreja, na medida em que soubermos trabalhar em conjunto, e por consequência mais eficazes.
Deus através do seu filho Jesus Cristo, que se revela nos mais vulneráveis e desprotegidos, aponta-nos o caminho, da misericórdia e da justiça. Quer gerar comunidades verdadeiramente abertas que afirmam a sua identidade, sendo porta que escuta e acolhe a diversidade daqueles que procuram Cristo; derrubando os muros que nos impedem de ser Igreja Católica, mãe de todos sem fronteiras.
EUGÉNIA QUARESMA
DIRECTORA DA OBRA CATÓLICA PORTUGUESA DE MIGRAÇÕES
Mulheres portuguesas no Luxemburgo, para lá do estigma da empregada de limpeza
São sete exemplos de mulheres portuguesas no Grão-Ducado, longe do estereótipo da empregada de limpeza. Os testemunhos foram recolhidos no livro “Olhares sobre a história e o quotidiano das mulheres no Luxemburgo desde 1940”, que dedica um capítulo à imigração portuguesa no feminino e vai ser apresentado este domingo em Dudelange.
Aline Schiltz é provavelmente a luxemburguesa mais portuguesa do Grão-Ducado. A geógrafa luxemburguesa vive há anos entre o Luxemburgo e Lisboa, fala fluentemente português, tal como as duas filhas, e é uma das especialistas na imigração lusa no país. Começou com uma tese sobre o Fiolhoso, a aldeia mais luxemburguesa de Portugal, e é autora de vários estudos sobre os portugueses, incluindo uma tese de doutoramento em que analisa a mobilidade entre os dois países. É ela que assina o capítulo sobre as mulheres portuguesas no Grão-Ducado, que integra o livro “Olhares sobre a história e o quotidiano das mulheres no Luxemburgo desde 1940”, uma iniciativa da associação CID-Femmes, com a coordenação da historiadora Sonja Kmec, professora na Universidade do Luxemburgo.
Para o fazer, Aline Schiltz ouviu sete mulheres que têm em comum a experiência de serem imigrantes portuguesas no Luxemburgo. No mais, tudo as distingue: a mais nova tem 37 anos, a mais velha 67; há quem tenha chegado ao Luxemburgo em 1967 e quem só cá viva desde 2015; e quem tenha chegado com três anos, mas também com 55.
Para a geógrafa, o perfil das mulheres portuguesas no país está longe de ser homogéneo. “Pelo menos 50.000 mulheres e raparigas de origem portuguesa vivem atualmente no Luxemburgo. Por isso, haveria pelo menos 50.000 histórias para contar”, aponta Aline Schiltz no livro, que vai ser apresentado este domingo no Centro de Documentação sobre as Migrações Humanas, em Dudelange.
A investigadora é avessa a clichés. Para ela, a expressão “portuguesas do Luxemburgo” evoca “estereótipos sociais ancorados na sociedade luxemburguesa há décadas”, incluindo “a imagem da empregada de limpeza”. E se admite que grande parte das mulheres portuguesas no país ainda hoje “trabalha nos serviços de limpeza”, considera o termo redutor. “Cada vida é única. Por detrás de cada ‘empregada de limpeza’, esconde-se uma realidade muito mais complexa”, aponta.
Aline Schiltz não esconde que o objetivo do seu contributo para o livro é “quebrar os ‘clichés’ associados à ‘portuguesa’, mostrando a diversidade de histórias de vida” e “a singularidade de cada experiência migratória”, mas “expondo ao mesmo tempo os pontos comuns que as ‘portuguesas’ partilham”, explica.
O texto explora sobretudo as barreiras que as mulheres portuguesas tiveram de enfrentar, entre a condição feminina – a exemplo da severidade do pai de uma das mulheres ouvidas, de “mentalidade portuguesa à antiga” – e o estigma de ser estrangeira no país. Para uma das mulheres, que chegou ao Luxemburgo em criança, ser imigrante trouxe consigo a dura “aprendizagem de ser diferente”: chorava por não ser convidada para as festas de aniversário dos meninos luxemburgueses e ouviu termos pejorativos na infância.
Aline Schiltz: “O Luxemburgo sofreu um processo de lusificação”, diz investigadora
Que os estereótipos têm vida longa, atestam-no duas lusodescendentes ouvidas no livro, que cresceram no Luxemburgo e falam luxemburguês, além das outras línguas no país. Ambas fizeram estudos superiores (como de resto todas as mulheres ouvidas), mas continuam a “bater-se por ser plenamente reconhecidas”. “Tenho de me justificar no quotidiano: sim, eu sei, sou uma mulher de origem portuguesa; não, não gosto de fazer limpezas”, conta uma das mulheres citadas, ironizando: “Às vezes tenho má consciência: trabalho em part-time, dedico tempo aos meus tempos livres, e tenho uma empregada de limpeza!”.
Como um fio condutor, a questão da discriminação das mulheres e as barreiras associadas à emigração atravessa o capítulo dedicado às portuguesas do Luxemburgo. O que pesou mais na construção da identidade, ser mulher – para mais oriundas de um país tradicionalmente machista, como Portugal – ou estrangeira? São luxemburguesas ou portuguesas, ou “estrangeiras em todo o lado”? A resposta é diferente para cada uma das sete mulheres ouvidas: tudo depende da época em que chegaram ao país, da evolução dos costumes e da sua própria história.
Apesar disso, a geógrafa aponta que “os estereótipos que qualificam os portugueses parecem ser a maior barreira social”: as mulheres são “julgadas com base em imagens sociais que lhes são associadas”, “em vez de pela sua personalidade”. E recorda um caso anedótico contado por uma das mulheres, casada com um luxemburguês, diplomada e habituada a “ler imenso”. Apesar disso, numa festa de Natal, a “avó luxemburguesa” ofereceu livros a todas as mulheres da família, exceto a ela. Para sua surpresa, a portuguesa recebeu luvas de cozinha.
A fábrica de ’maçons’ e empregadas de limpeza
O caso inspirou o título do capítulo assinado por Aline Schiltz. “Luvas de cozinha para o Natal – As ‘portuguesas’ no Luxemburgo contam as suas vidas” vai ser analisado e discutido numa conferência que tira as mulheres portuguesas da cozinha para as pôr em primeiro plano. Uma iniciativa importante, quando se sabe que os estudos sobre a emigração deixaram muito anos as mulheres na sombra. “Apesar de as mulheres terem a maioria das vezes uma posição passiva quanto à decisão migratória, atribui-se-lhes no entanto uma grande responsabilidade no desenrolar deste projeto de vida”, aponta Aline Schiltz. E são elas, segundo vários estudos citados no livro, que parecem ser “mais abertas aos modos de vida ‘mais modernos’ dos países de acolhimento”, mas também “mais ágeis a interagir com a sociedade de acolhimento, a aprender a língua do país, a tratar dos assuntos correntes e a adotar novas formas de vida”.
Paula Telo Alves
CICLONE IDAI – Um choro que nos faz acordar
As inundações devastadoras em Moçambique vieram revelar de forma aguda a contemplação proposta pelo Papa Francisco para esta Quaresma: o choro e a impaciência da criação, aguardando a nossa participação.
Nos últimos dias chega-nos o desespero de Moçambique, Malawi e Zimbabwe com a devastação do ciclone Idai. Só em Moçambique o número de mortos supera os 400 e 350 mil pessoas estão em risco, devido aos efeitos das cheias nas bacias dos rios Buzi e Pungoe. O choro agudo de Moçambique, devastado pelas águas, faz-nos sentir o choro da Terra e da Humanidade, ao ponto de nos detonar por dentro rebentando os nossos diques, as nossas seguranças, os nossos hábitos, fazendo-nos desejar transpor este imenso oceano para estar lá, fazer alguma coisa. As inúmeras manifestações de solidariedade que chegam de todo o mundo revelam este nosso desejo.
De acordo com o Banco Mundial e as Nações Unidas, Moçambique é o terceiro país africano mais vulnerável a desastres relacionados com fenómenos meteorológicos extremos, um dos impactos das alterações climáticas. As condições no terreno, com grandes índices de pobreza e desordenamento territorial, acabam por agravar ainda mais esta realidade. Como é injusto que os que menos contribuem para a emissão de gases com efeito de estufa, sejam quem mais sofre os impactos dos desequilíbrios ambientais a eles associados! Não dispõem de qualquer seguro, qualquer segurança… As suas vidas simples, despojadas, no limiar da pobreza, vão-nos desafiando à comunhão, ao despojamento, à conversão a um outro paradigma de sociedade, a outro estilo de vida.
Como é injusto que os que menos contribuem para a emissão de gases com efeito de estufa, sejam quem mais sofre os impactos dos desequilíbrios ambientais a eles associados! Não dispõem de qualquer seguro, qualquer segurança…
Se “acordarmos por dentro”, são tantas as formas de nos comprometermos diariamente por um estilo de vida que cuide do planeta e das pessoas, em especial das mais vulneráveis. “O choro da terra é o choro dos mais pobres”.De visita a Portugal há um mês atrás, onde, entre outras iniciativas, participou no “ACORDA! – Da conversão ecológica à transformação social”, Pedro Walpole sj (jesuíta irlandês há 40 anos nas Filipinas, onde acompanha comunidades vulneráveis às inundações) apontava a necessidade de trabalhar em conjunto estes dois campos. No entanto, num tempo tão marcado por catástrofes naturais, não se cansou de insistir na confiança e no que podemos fazer de bem. Como é que este choro faz germinar em mim a humildade dos pequenos passos de mudança? Ouvir e acordar com este choro, faz-nos sentir interdependentes, implicados num destino comum. Faz-nos mais conscientes do tanto que temos, mais agradecidos pela vida, mais responsáveis com o que com ela fazemos, como a vivemos. Só a partir desta consciência, será possível mudar exteriormente e lutar por uma mudança que se concretiza em escolhas e políticas mais justas e sustentáveis.
Como é que este choro faz germinar em mim a humildade dos pequenos passos de mudança? Ouvir e acordar com este choro, faz-nos sentir interdependentes, implicados num destino comum
Temos ao longo deste ano, oportunidades políticas concretas para acordar, no contexto das eleições europeias em maio e eleições legislativas em outubro. E como é urgente não desperdiçar estas oportunidades. Depois de décadas de construção da Paz e União no pós segunda guerra mundial, atravessamos um período de grande fragmentação, presente a todos os níveis, desde nas nossas vidas pessoais, às sociedades que integramos e à geopolítica global. “O mundo contemporâneo, aparentemente interligado, experimenta uma crescente, consistente e contínua fragmentação social que põe em perigo todo o fundamento da vida social e assim acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses” (Encíclica Laudato si’, 229). Como promover e testemunhar espaços de reconciliação que promovam o sentido do cuidado e da comunhão? É importante tomar consciência de que um dos efeitos das alterações climáticas na Europa, para as quais nós europeus contribuímos em larga escala com o nosso estilo de vida, são precisamente as migrações, de milhares de refugiados e deslocados climáticos.
Nos últimos dias, quase que como num diálogo profundo que ultrapassa o tempo e o espaço, assistimos a várias iniciativas que mostram como mobilizar o Bem.
É o sofrimento da maior parte que paga os luxos de alguns poucos. Precisamos de deixar os combustíveis fósseis no subsolo, e temos de pôr a tónica na equidade. (Greta Thunberg)
Greta Thunberg, jovem sueca de 16 anos, abre-nos caminho nesse sentido, ao mobilizar milhares de jovens de mais de 100 países para uma greve pelo clima a 15 de março. Ouve e reage ao choro da Terra e da Humanidade, convocando uma grande mobilização conjunta, uma paragem, um tempo e um espaço que nos permite sentir juntos este grito. Numa primeira reação, podemos achar inconsequente uma “greve pelo clima”. A verdade é que a sua impaciência gerou um pequeno passo catalisador de uma grande e ampla sede de mudança assente na esperança, refletida nas muitas campanhas de mobilização pela justiça climática que vão germinando. A calma e clareza que apresenta no discurso que fez na Cimeira do Clima em Katowice, em dezembro passado, revela a forma como se sente entranhada no sacrifício e no sofrimento da Criação: “A nossa biosfera está a ser sacrificada para dar oportunidade a um número muito pequeno de pessoas de continuarem a obter enormes somas de dinheiro. A nossa biosfera está a ser sacrificada para que pessoas ricas em países como o meu possam viver no luxo. É o sofrimento da maior parte que paga os luxos de alguns poucos. Precisamos de deixar os combustíveis fósseis no subsolo, e temos de pôr a tónica na equidade“.
Por outro lado, entre 19 e 21 março, decorreu em Washington o encontro “Ecologia Integral: uma resposta sinodal da Amazónia e outros territórios essenciais para o cuidado de nossa casa comum”, com a presença de povos indígenas, autoridades eclesiais, organizações internacionais dos cinco continentes. Este foi um encontro preparatório do sínodo “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” que o Papa Francisco iniciou na Amazónia peruana em janeiro de 2018 e que culminará em Roma em outubro.
Como me posso unir a estas mesas, acordos, manifestações? Como é que este choro me acorda? Que a minha impaciência por agir se junte à impaciência da criação, na expetativa ansiosa de que entremos decididamente neste “parto” que é a conversão (mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2019).ç
Um médico ao encontro de Cristo
Lesbos, Tessalónica (Grécia) e Bangladesh são os três campos de refugiados onde António Lourenço, um jovem médico de Lisboa, trabalhou como voluntário. Partiu com o intuito de perceber como servir Deus através da sua profissão. Por lá, encontrou Cristo crucificado em cada história que ouviu, em cada rosto que o procurou. Voltou de coração agradecido e aberto ao reencontro.
De 23 a 29 de abril, o Ponto SJ e a Rede Mundial de Oração do Papa divulgam sete testemunhos deste jovem médico que lidou diretamente com pessoas vítimas da guerra. Uma iniciativa que surge no contexto da intenção do Papa para o mês de abril: os médicos e seus colaboradores em zonas de guerra.
António Lourenço é natural de Santarém, terminou o curso de Medicina em 2018, vive e trabalha em Lisboa. Integra, enquanto voluntário, o JRS – Serviço Jesuíta aos Refugiados, em Portugal, é membro da Comunidade de Vida Cristã e fez parte de vários projetos de ação social a nível nacional.
Os seus testemunhos mostram os efeitos da guerra, da perseguição, tortura e violência em milhares de pessoas que tiveram de fugir dos países de origem para salvaguardar a própria vida.
Nas linhas e entrelinhas dos textos, António Lourenço fala ainda da importância de se combater a indiferença perante os imigrantes e os refugiados e de se estar disponível para o encontro com Deus, através dos que mais sofrem.
As ilustrações são da designer Ana Miranda.
Braga: Arcebispo assinala que «ninguém pode ficar indiferente» aos refugiados ou migrantes que pedem proteção
Conferência «Olhares sobre as Migrações»; Fotografia Ana Pinheiro em jornal Diário do Minho
Braga, 06 abr 2019 (Ecclesia) – O arcebispo de Braga disse que só “uma verdadeira ação concertada dos Governos” responde à crise migratória, esta sexta-feira, na abertura da conferência ‘Olhares sobre as Migrações’, a última sessão do Ciclo Nova Ágora 2019, no Auditório Vita.
“Nenhum país resolverá o problema sozinho, só uma solução intergovernamental onde a solidariedade entre os Estados se torna efetiva e duradoura resolverá este terrível problema que envergonha os países desenvolvidos”, disse D. Jorge Ortiga.
O arcebispo de Braga, na abertura da conferência ‘Olhares sobre as Migrações’, assinalou que “só uma verdadeira ação concertada” dos Governos da Europa, referindo-se ao “Velho Continente”, vai ser capaz de responder à crise migratória e “poderá defender com humanismo os migrantes dos traficantes ou da morte do Mediterrâneo”.
“E criará como algo imprescindível e prioritário as condições para que possam permanecer nos seus países de origem terminando com os conflitos bélicos”, acrescentou.
Para D. Jorge Ortiga “ninguém pode ficar indiferente” aos milhões de refugiados ou migrantes forçados que pedem “proteção internacional” e às vítimas do tráfico e das novas formas de escravidão nas mãos de organizações criminosas.
Aos participantes da última sessão do Ciclo de Conferências ‘Nova Ágora’ 2019, lembrou que o Papa “desafia” as comunidades cristãs “a conjugarem quatro verbos – acolher, proteger, promover e integrar” – e cada um “encerra um programa” que diz que “não basta fazer de conta que problema não existe e solução diz respeito a outros”.
Para apresentarem os seus ‘Olhares sobre as Migrações’ a Arquidiocese de Braga convidou o diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, António Vitorino, o Alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, e José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
“O que faz falta são vozes razoáveis, ponderadas a discutir este tema. O Papa Francisco tem sido das poucas vozes que se tem levantado a defender valores que são católicos mas não são exclusivos: Dignidade da pessoa humana, obrigação da proteção internacional, respeito pelos Direitos Humanos dos migrantes”, disse António Vitorino.
Segundo o diretor-geral da OIM, o número de pessoas que tentam atravessar o Mediterrâneo da Líbia para a Europa “diminuiu no último ano cerca de 80%” mas as políticas dirigidas às causas das migrações “são de longo prazo”, “exigem sustentabilidade no tempo”, e não se podem criar “expectativas infundadas”.
“Não há arame farpado que detenha o desespero humano; É preciso olhar para as migrações de uma maneira completamente diferente”, acrescentou, observando que “é uma agenda difícil”.
António Vitorino explicou que “às causas tradicionais” – pobreza, doença, fuga dos conflitos – a mobilidade humana é originada, cada vez mais, motivos “ligados aos desequilíbrios demográficos, as epidemias e as alterações climáticas”.
“O ritmo das migrações vai no sentido crescente e reside um paradoxo, vai crescendo a rejeição das migrações, em muitos países de destino; A realidade dos números mostram que as migrações sul-sul, entre países em via de desenvolvimento no sul global, superam em número as migrações sul-norte”, observou, dando como exemplo a que “apenas 20%” dosa africanos migra para fora do próprio continente.
Sobre o ciclo de conferências, o arcebispo de Braga explicou quando deram início “à experiência de Nova Ágora”, há cinco anos”, foi para “ouvir”, saindo dos espaços eclesiásticos, “o que o mundo sussurra com ténues gemidos ou através de gritos humanitários”.
“Caminhamos juntos para construir uma cidade dos homens mais aberta aos valores universais, aos direitos fundamentais e à dignidade de todos”, destacou D. Jorge Ortiga.
Para além das “Migrações”, ‘Poder e Corrupção’ e ‘Populismos’ foram outros temas em análise no ‘Nova Ágora’ 2019 que se descentralizou e as primeiras sessões foram em Guimarães, Vila Nova de Famalicão.
CB
