Jul 9, 2019 | Artigo, espiritualidade, Migrantes, Notícias, Recortes, Refugiados, Santa Sé

Homilia 8.7.2019 – Tradução Portuguesa Mário Almeida, Secção Migrantes e Refugiados
Hoje, a Palavra de Deus fala-nos de salvação e libertação.
Salvação. Durante a sua viagem de Bersabé para Harã, Jacob decide parar e descansar num lugar solitário. Em sonho, vê uma escada cujo pé assenta na terra e o topo toca o céu (cf. Gn 28, 10-22a). A escada, pela qual sobem e descem os anjos de Deus, representa a ligação entre o divino e o humano, que se realiza historicamente na encarnação de Cristo (cf. Jo 1, 51), amorosa oferta de revelação e salvação por parte do Pai. A escada é alegoria da iniciativa divina que antecede todo e qualquer movimento humano. É a antítese da torre de Babel, construída pelos homens que queriam, com as suas forças, chegar ao céu para se tornarem deuses. Neste caso, ao contrário, é Deus que «desce», é o Senhor que Se revela, é Deus que salva. E o Emanuel, o Deus-connosco, realiza a promessa de pertença mútua entre o Senhor e a humanidade, no sinal dum amor encarnado e misericordioso que dá a vida em abundância.
À vista desta revelação, Jacob realiza um ato de entrega ao Senhor, que se traduz num compromisso de reconhecimento e adoração que marca um momento essencial na história da salvação. Pede ao Senhor que o proteja ao longo do caminho difícil que está a fazer e diz: «O Senhor será o meu Deus» (Gn 28, 21).
Dando eco às palavras do Patriarca, repetimos no Salmo: «Meu Deus, em Vós confio». Ele é o nosso refúgio e nossa fortaleza, escudo e couraça, âncora nos momentos de prova. O Senhor é abrigo para os fiéis que O invocam na tribulação. Aliás, é precisamente nestes momentos que a nossa oração se torna mais pura, isto é, quando nos damos conta de que as certezas oferecidas pelo mundo pouco valem, e nada mais nos resta senão Deus: só Deus abre de par em par o Céu a quem vive na terra; só Deus salva.
E esta entrega total e extrema é precisamente o elemento comum entre o chefe da sinagoga e a mulher hemorroíssa, no Evangelho (cf. Mt 9, 18-26). São episódios de libertação. Ambos se aproximam de Jesus para obter d’Ele o que mais ninguém lhes pode dar: libertação da doença e da morte. Dum lado, temos a filha duma das autoridades da cidade; do outro, uma mulher atribulada por uma doença que faz dela uma excluída, uma marginalizada, uma pessoa impura. Mas Jesus não faz distinções: a libertação é concedida generosamente em ambos os casos. A necessidade coloca a ambas – a mulher e a menina – entre os «últimos» que devemos amar e levantar.
Jesus revela aos seus discípulos a necessidade duma opção preferencial pelos últimos, que hão de ocupar o primeiro lugar no exercício da caridade. São tantas as pobrezas de hoje! Como escreveu São João Paulo II, «“pobres”, nas várias aceções da pobreza, são os oprimidos, os marginalizados, os idosos, os doentes, as crianças, todos aqueles que são considerados e tratados como “últimos” na sociedade» (Exort. ap. Vita consecrata, 82).

Neste sexto aniversário da visita a Lampedusa, penso nos «últimos» que diariamente clamam ao Senhor, pedindo para ser libertados dos males que os afligem. São os últimos enganados e abandonados a morrer no deserto; são os últimos torturados, abusados e violentados nos campos de detenção; são os últimos que desafiam as ondas dum mar impiedoso; são os últimos deixados em acampamentos de acolhimento (demasiado longo, para ser chamado de temporário). Estes são apenas alguns dos últimos que Jesus nos pede para amar e levantar. Infelizmente, as periferias existenciais das nossas cidades estão densamente povoadas de pessoas que foram descartadas, marginalizadas, oprimidas, discriminadas, abusadas, exploradas, abandonadas, de pessoas pobres e sofredoras. No espírito das Bem-aventuranças, somos chamados a acudir misericordiosamente às suas aflições; saciar a sua fome e sede de justiça; fazer-lhes sentir a solícita paternidade de Deus; mostrar-lhes o caminho para o Reino dos Céus. São pessoas; não se trata apenas de questões sociais ou migratórias! «Não se trata apenas de migrantes!», no duplo sentido de que os migrantes são, antes de mais nada, pessoas humanas e que, hoje, são o símbolo de todos os descartados da sociedade globalizada.
Retorna espontaneamente à mente a imagem da escada de Jacob. Em Jesus Cristo, está assegurada e é acessível a todos a ligação entre a terra e o Céu. Mas subir os degraus desta escada requer empenho, esforço e graça. Os mais frágeis e vulneráveis devem ser ajudados. Apraz-me pensar que poderíamos ser, nós, aqueles anjos que sobem e descem, pegando ao colo os pequenos, os coxos, os doentes, os excluídos: os últimos, que caso contrário ficariam para trás e veriam apenas as misérias da terra, sem vislumbrar já desde agora algum clarão do Céu.
Trata-se, irmãos e irmãs, duma grande responsabilidade, da qual ninguém se pode eximir, se quiser levar a cabo a missão de salvação e libertação na qual fomos chamados a colaborar pelo próprio Senhor. Sei que muitos de vós, chegados apenas há alguns meses, já estais a ajudar irmãos e irmãs que chegaram depois. Quero agradecer-vos por este estupendo sinal de humanidade, gratidão e solidariedade.
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Mário Almeida
Area Africa and Madagascar
Migrants & Refugees Section
Integral Human Development
Jul 3, 2019 | Artigo, Recortes, Refugiados
Por Ana Varela – https://pontosj.pt/opiniao/o-bom-combate/
Numa reportagem recente da revista “Time”, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, alerta para as consequências devastadoras das alterações climáticas provocadas pela ação humana, afirmando que estamos perante a “batalha das nossas vidas”. Este alerta é indissociável da batalha pela sobrevivência que milhares e milhares de pessoas deslocadas por força dessas alterações do clima enfrentam todos os dias. No discurso proferido no Fórum das Ilhas do Pacífico, lembrou que: “Em 2016, mais de 24 milhões de pessoas, em 118 países e territórios, foram deslocadas por causa de desastres naturais, três vezes mais do que o número de deslocados por conflitos”.
Mas as implicações das alterações do clima vão muito para além do impacto na mobilidade humana e no aumento da sua escala e complexidade. António Guterres, que foi também Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, tem alertado para este facto. Estamos perante um desafio que interage e reforça outras megatendências globais, como o crescimento populacional, a urbanização e a crescente insegurança alimentar, hídrica e energética. Um desafio com implicações importantes para a manutenção da paz e segurança internacionais.

A mudança climática lança as sementes do conflito e o deslocamento das populações agrava-se quando o conflito eclode. A guerra na Síria é disso um exemplo. A Primavera Árabe é vista geralmente como a causa que levou à guerra. No entanto, uma seca de cinco anos no nordeste da Síria, precedeu o conflito e causou o deslocamento de cerca de 1,5 milhões de pessoas. Também as caravanas de migrantes rumo aos Estados Unidos integram grupos da Guatemala, Honduras e de El Salvador, que fogem da pobreza, da violência e da insegurança alimentar. Estes três países constituem o chamado “corredor seco” centro-americano, um dos mais vulneráveis do mundo a fenómenos extremos ligados ao El Niño. A imprevisibilidade dos ciclos da chuva e temporadas de seca mais longas, ameaçam plantações de subsistência que são a fonte de alimento de pequenos produtores rurais e indígenas.
Existem países com seca extrema, enquanto outros estão a afundar-se devido à subida do nível do mar e deixarão de existir. No mundo, não há regiões imunes às mudanças climáticas, embora haja regiões mais afetadas. O risco de deslocamento é superior em países com maior exposição a desastres naturais e elevada densidade populacional, sobretudo em áreas sem capacidade ou recursos suficientes para se prepararem adequadamente. A Ásia enfrenta mais riscos do que qualquer outra região: em 2015, uma percentagem de 85% das pessoas deslocadas por desastres naturais repentinos encontravam-se no sul e leste da Ásia. Em 2100, estima-se que 1/5 da população mundial, 2 mil milhões de pessoas, se possam tornar refugiadas, em virtude de alterações climáticas. Alguns países do sul da Europa têm sido sinalizados como regiões de risco, incluindo a Grécia, Espanha e Portugal.
Perante a vulnerabilidade de milhões de pessoas afetadas pelas alterações do clima, o desafio é também jurídico. Embora se utilize habitualmente o termo “refugiado climático” no direito internacional o conceito de “refugiado” aplica-se a pessoas que fogem da guerra ou de perseguição individual por razões de raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política e atravessaram uma fronteira internacional.
As mudanças climáticas afetam as pessoas no seu próprio país e estas tornam-se “deslocadas internas”, antes de a gravidade da crise as obrigar a transpor fronteiras. Assim, enquanto a Convenção de Genebra de 1951, relativa ao estatuto de refugiado, e respetivo Protocolo Adicional, fornecem um quadro jurídico internacional sólido para a proteção dos refugiados, não existe ainda um instrumento paralelo para as pessoas deslocadas em contexto de catástrofes e mudanças climáticas. Não obstante, o sistema internacional de Direitos Humanos protege também estas pessoas. Por exemplo, não devem ser devolvidas para um lugar onde as suas vidas sejam colocadas em risco ou onde possam sofrer tratamento desumano ou degradante.
Existem países com seca extrema, enquanto outros estão a afundar-se devido à subida do nível do mar e deixarão de existir. No mundo, não há regiões imunes às mudanças climáticas, embora haja regiões mais afetadas.
O enquadramento legal desta categoria de pessoas em busca de refúgio devido a alterações do clima poderá ser feito através da modificação dos instrumentos internacionais já existentes, como a referida Convenção de Genebra, ou através da criação de uma convenção internacional específica. Nesse sentido, existe já um texto regional, elaborado pela União Africana, que adotou uma convenção sobre a proteção e a assistência às pessoas deslocadas, embora apenas no plano interno dos países. Seria muito importante a consagração de um estatuto jurídico para os deslocados climáticos num documento internacional de âmbito universal, abrangendo o deslocamento interno e externo, bem como o reconhecimento específico de direitos fundamentais das pessoas, famílias e grupos forçados a migrar. Entre os direitos fundamentais a serem garantidos a deslocados ambientais, incluem-se o direito de não ser recusado pelo país de acolhimento, de satisfação de necessidades básicas e o direito ao reagrupamento familiar.
Acima de tudo, são necessárias vontade e coragem políticas para estabelecer um quadro legal claro que proteja as pessoas afetadas pelas mudanças do clima. Temos visto como muitos países se têm recusado a assumir responsabilidades e obrigações já previstas no direito internacional para com os migrantes e refugiados, adotando uma postura securitária. Face a estas e outras resistências, os avanços têm sido muito lentos. O Pacto Global das Nações Unidas para as Migrações Seguras, Ordenadas e Regulares, aprovado em dezembro de 2018, é o primeiro acordo global a apelar a uma abordagem comum para lidar com esta questão.
Será interessante ver quais os países que irão introduzir nas suas leis nacionais soluções de proteção para estas pessoas vulneráveis. Atentos os valores fundamentais consagrados na Constituição da República Portuguesa, alargado consenso político e tradicional visão humanista dos fenómenos migratórios, o nosso país tem aqui importantes responsabilidades.
Na verdade, “a batalha das nossas vidas” está a travar-se há já algum tempo e quase sem darmos por isso. Apesar dos repetidos alertas e evidências científicas, na falta de uma resposta global adequada as alterações climáticas provocadas pela ação humana e suas consequências catastróficas foram-se agravando, sendo muitas delas irreversíveis. O atentado à vida de pessoas, plantas, animais e a degradação do planeta onde vivemos está a ocorrer rapidamente e a uma escala sem precedentes na história da humanidade. Neste contexto, milhões de pessoas foram já obrigadas a deslocar-se das suas casas e o número tenderá a aumentar. Apesar de não terem ainda um estatuto reconhecido pelo direito internacional, estas pessoas necessitam de proteção e solidariedade urgentes. Ignorar o seu sofrimento e as suas necessidades de proteção constitui um erro, que apenas agravará tensões e gerará mais conflitos. Mas será que ainda vamos a tempo de vencer esta batalha? Será que a geração dos atuais decisores, seguindo o exemplo dos mais jovens, está disposta sequer a tentar? Só atuando poderemos dizer, como Paulo de Tarso, “combati o bom combate”.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
Mai 7, 2019 | Artigo, Recortes
A fotografia não é atual, mas não está desatualizada! A ponte de Mostar (Bósnia-Herzegovina) que, desde o século XVI, unia as comunidades cristãs e muçulmanas da cidade, durante a guerra civil da antiga Jugoslávia, em 1993, foi alvo de bombardeamento e ficou destruída.
Era o símbolo do diálogo e do respeito de culturas e religiões diferentes, que viviam em paz, no conhecimento e no acolhimento mútuo. Felizmente, passados poucos anos, em 2004, foi reconstruída e aberta ao público. Porém, não sabemos se a ferida que a destruição provocou no ânimo das pessoas das duas comunidades terá ficado totalmente sarada; porque, se para destruir basta um instante, para reconstruir é preciso muito mais tempo e, no caso de relações humanas, é preciso um tempo ainda maior.
Nestes dias, assistimos a um autêntico “folhetim” que passa pelo nome de “Brexit”. É a imagem de uma Europa confusa, atordoada, irritada e em risco de um ataque de nervos. Nesta situação, as posições extremistas ganham vantagem e podem conduzir a soluções violentas e dramáticas.
A História – diziam os latinos – é “Mestra da vida”. Todavia, parece que os homens não acatam as lições da história; porquê? Das duas, uma: ou têm memória curta ou não sabem tirar dela a lição certa. Não acreditamos na primeira hipótese, pois se a memória falhar, há muitos meios que ajudam a recordar; por isso, achamos que o problema está na diversidade de interpretação da história que assenta, fundamentalmente, nos critérios dos mestres de manipulação de massas.
Estamos a celebrar o acontecimento “Páscoa”, isto é, a mudança radical da história que, em vez de acabar na morte, acaba na plenitude da Vida. Como é isto possível? Graças à força do amor do Filho do Homem – Deus, Jesus Cristo, que “de dois povos fez um só e destruiu o muro de separação, a inimizade, na sua carne; anulou a lei, que contém os mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e do pagão, criar em si próprio um só homem novo, fazendo a paz, e para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz, matando assim a inimizade” (Ef 2, 14-16).
A Europa precisa urgentemente de reencontrar a sua alma, isto é, a fonte dos valores do acolhimento e da integração, que só podem ser alcançados pelo diálogo, pelo conhecimento mútuo e pelo apreço das diversidades, que não devem ser motivo de conflito, mas de enriquecimento mútuo. Precisamos de construtores de pontes e não de muros ou de barreiras com arame farpado!
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Abr 24, 2019 | Artigo, Dioceses, Migrantes, Notícias, Recortes, Refugiados
As migrações fazem parte da nossa História enquanto Humanidade. A circulação de pessoas que ao longo dos tempos, atravessaram montanhas e vales, cruzaram mares e hoje cruzam os céus deveria ser natural, um ato verdadeiro de vontade; mas sabemos que nem sempre foi nem é assim. Infelizmente as migrações forçadas ainda hoje existem e assumem causas diversas, tais como perseguições políticas, étnicas ou religiosas, fugas de guerra, pobreza e catástrofes naturais, o sonho de uma vida melhor, o desejo de levar Deus a povos remotos; diante de cada um destes cenários, a resposta mais humana e edificante é a hospitalidade e não a hostilidade que, temos vindo a assistir em crescendo, expressa em discursos de ódio que revelam a xenofobia latente e resultados eleitorais perigosos para a democracia, em todos os cantos do globo.
O acolhimento exercido por todos aqueles que, em comunidade, em família ou a título pessoal, reconhecem as necessidades de quem passa ou chega constitui-se uma referência de estabilidade, um porto de abrigo, que a qualquer ser humano, deveria ser oferecido, principalmente quando se experimenta o imperativo de recomeçar.
Ser uma pessoa em contexto de mobilidade humana, implica escolher viver e essa opção acarreta o risco da vulnerabilidade e da incompreensão, suportar medos e discriminações, isolamentos e explorações, por vezes, mais difíceis de transpor que alguns muros físicos que ao longo do tempo e do espaço foram construídos, geraram periferias existenciais e refletem desequilíbrios urbanos.
Muito possivelmente por estarmos na era da globalização e da comunicação, assistimos todos os dias a terríveis atrocidades, que nos motivam e interpelam para uma consciência, cada vez maior, de que só trabalhando de forma articulada conseguimos obter resultados mais eficientes e duradouros.
Quem está no terreno e acompanha as pessoas em situação de mobilidade chega à conclusão de que só construindo pontes entre Comunidades, Regiões e Estados é possível fazer a diferença. Ousar a memória, aprender com a história, operacionalizar o que já está consagrado em Leis, Tratados e Convenções, honrar compromissos que colocam no centro a dignidade humana, a justiça e a coesão social, reconhecer os migrantes e refugiados como co-protagonistas do desenvolvimento é o caminho do futuro que precisamos de trilhar, hoje.
Nas Nações Unidas, os Estados têm assumido compromissos importantes que revelam a disponibilidade e vontade política para articular esforços ao nível da cooperação, segurança, hospitalidade, solidariedade, e assim enfrentar os desafios de um fenómeno que é legítimo. Contudo compete também ao cidadão comum reconhecer em quem migra uma pessoa com ou sem família, portadora de direitos, de uma bagagem cultural, valores, crenças, competências; aceitar o migrante como alguém que ajuda a construir a cidade do ponto de vista económico, cultural, social, espiritual, capaz de criar e participar em espaços de diálogo onde se aprende a afirmar que somos pessoas de saberes, hábitos, valores que na promoção do encontro vão amadurecendo. Compete a todos nós aprender a olhar e aceitar com gestos concretos o migrante como detentor de uma cidadania consagrada pela Convenção Universal dos Direitos Humanos e considerá-lo um merecido habitante deste Planeta Terra, nossa Casa Comum.
Partilhamos uma casa comum em pé de desigualdade, diariamente, somos recordados que as circunstâncias e os rostos da mobilidade também são mutáveis. Por isso importa conhecer e difundir os princípios e as leis que nos protegem, promovem a vida humana e ambicionam um desenvolvimento sustentável, como os 17 objetivos da Agenda 2030, assumidos pelos Governos de todo o mundo e Organizações Não-governamentais para o Desenvolvimento – ONGD, e que precisam ser cada vez mais conhecidos e apropriados pelo cidadão comum. Só desta forma tantos milhões de pessoas podem exercer o seu direito a não emigrar e permanecer no seu país de origem em condições dignas.
Importa também conhecer e acompanhar a implementação dos Pactos Globais para Refugiados e para as Migrações Ordenadas, Seguras e Regulares, aprovados em Dezembro do ano passado em Marraquexe, uma vez que estes visam proteger de forma global todas as pessoas que ponderem a necessidade de emigrar exercendo com liberdade esse mesmo direito.
Recentemente, em Janeiro deste ano foram publicadas pela Santa Sé as orientações pastorais sobre o tráfico de seres humanos, possíveis de serem consultados no site da Secção Migrantes e Refugiados. Um crime hediondo transnacional, que por assentar na exploração, desumanizar e transformar pessoas em mercadoria, precisa de ser conhecido e combatido.
A cada crente impõe-se o imperativo ético de não explorar, não lucrar, não usar de violência para com o seu semelhante, cuidar do valor da vida humana e proteger as potenciais vítimas da sedução e do engano.
As próximas Jornadas do Migrante e do Refugiado, irão assinalar-se no dia 29 de Setembro de 2019, em todas as paróquias e comunidades cristãs espalhadas pelo mundo e terão como tema: Não se trata apenas de Migrantes.
O Santo Padre confia a toda a Igreja, a partir da Pastoral das Migrações, a sensibilização para estas questões. Não se trata apenas de migrantes. São pessoas. Em Igreja afirmamos – São irmãos, não apenas migrantes. E ainda em Igreja recordamos que foi o próprio Cristo que se quis configurar com os mais pequeninos, isto é, os mais vulneráveis da mobilidade humana, deixando-nos como mandato o Acolhimento.
Em Cristo reafirmamos que a Hospitalidade faz parte do nosso ADN e colocamos os migrantes e refugiados no coração da Igreja, isto é, Papa, bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, leigos e leigas, que deixando-se conduzir por Deus se constituem em comunidades de fé.
Deus visita o seu Povo nos migrantes que chegam até nós, Deus faz-se companheiro de caminho através dos missionários e agentes pastorais que vão ao encontro de outros povos, e no fim, a missão é só uma constituir uma só família humana, apesar da diversidade cultural que constitui os povos. Através da hospitalidade Deus fala ao seu povo reunido de todas partes, unidos pela fé, pela gramática do amor que gera comunhão. Deus quer através daqueles que se apresentam como forasteiros, revelar-se como bom Samaritano, que quer curar-nos do egoísmo, da indiferença, do isolamento, da xenofobia.
Se nos deixarmos conduzir por Cristo, através dos migrantes, descobriremos terrenos novos e novas atitudes a semear. Encontrar e acompanhar a via-sacra dos migrantes e refugiados, confronta-nos com as injustiças da lei ou de quem as aplica, isso interpela-nos a uma nova cultura.
O conflito, o confronto sem violência, faz parte desta exigência de crescimento, a mudança interior é inevitável. Em Deus, nasce a fraternidade, apesar das diferenças.
Para prosseguirmos juntos temos que ousar reconciliar a memória, isso implica tratar as feridas e as mágoas do passado, para construirmos um futuro juntos como uma só família humana. Este sonho de Deus, atravessa o pessoal, o comunitário, o nacional até chegar ao global.
Cresce a consciência de que só de forma interligada podemos responder aos desafios, só contando com os migrantes e refugiados como co-protagonistas do desenvolvimento teremos sociedades mais justas e fraternas. Seremos mais Igreja, na medida em que soubermos trabalhar em conjunto, e por consequência mais eficazes.
Deus através do seu filho Jesus Cristo, que se revela nos mais vulneráveis e desprotegidos, aponta-nos o caminho, da misericórdia e da justiça. Quer gerar comunidades verdadeiramente abertas que afirmam a sua identidade, sendo porta que escuta e acolhe a diversidade daqueles que procuram Cristo; derrubando os muros que nos impedem de ser Igreja Católica, mãe de todos sem fronteiras.
EUGÉNIA QUARESMA
DIRECTORA DA OBRA CATÓLICA PORTUGUESA DE MIGRAÇÕES
Publicado in Diário do Minho, 4 de abril 2019
Abr 24, 2019 | Artigo, Migrantes, Recortes
São sete exemplos de mulheres portuguesas no Grão-Ducado, longe do estereótipo da empregada de limpeza. Os testemunhos foram recolhidos no livro “Olhares sobre a história e o quotidiano das mulheres no Luxemburgo desde 1940”, que dedica um capítulo à imigração portuguesa no feminino e vai ser apresentado este domingo em Dudelange.
Aline Schiltz é provavelmente a luxemburguesa mais portuguesa do Grão-Ducado. A geógrafa luxemburguesa vive há anos entre o Luxemburgo e Lisboa, fala fluentemente português, tal como as duas filhas, e é uma das especialistas na imigração lusa no país. Começou com uma tese sobre o Fiolhoso, a aldeia mais luxemburguesa de Portugal, e é autora de vários estudos sobre os portugueses, incluindo uma tese de doutoramento em que analisa a mobilidade entre os dois países. É ela que assina o capítulo sobre as mulheres portuguesas no Grão-Ducado, que integra o livro “Olhares sobre a história e o quotidiano das mulheres no Luxemburgo desde 1940”, uma iniciativa da associação CID-Femmes, com a coordenação da historiadora Sonja Kmec, professora na Universidade do Luxemburgo.
Para o fazer, Aline Schiltz ouviu sete mulheres que têm em comum a experiência de serem imigrantes portuguesas no Luxemburgo. No mais, tudo as distingue: a mais nova tem 37 anos, a mais velha 67; há quem tenha chegado ao Luxemburgo em 1967 e quem só cá viva desde 2015; e quem tenha chegado com três anos, mas também com 55.
Para a geógrafa, o perfil das mulheres portuguesas no país está longe de ser homogéneo. “Pelo menos 50.000 mulheres e raparigas de origem portuguesa vivem atualmente no Luxemburgo. Por isso, haveria pelo menos 50.000 histórias para contar”, aponta Aline Schiltz no livro, que vai ser apresentado este domingo no Centro de Documentação sobre as Migrações Humanas, em Dudelange.
A investigadora é avessa a clichés. Para ela, a expressão “portuguesas do Luxemburgo” evoca “estereótipos sociais ancorados na sociedade luxemburguesa há décadas”, incluindo “a imagem da empregada de limpeza”. E se admite que grande parte das mulheres portuguesas no país ainda hoje “trabalha nos serviços de limpeza”, considera o termo redutor. “Cada vida é única. Por detrás de cada ‘empregada de limpeza’, esconde-se uma realidade muito mais complexa”, aponta.
Aline Schiltz não esconde que o objetivo do seu contributo para o livro é “quebrar os ‘clichés’ associados à ‘portuguesa’, mostrando a diversidade de histórias de vida” e “a singularidade de cada experiência migratória”, mas “expondo ao mesmo tempo os pontos comuns que as ‘portuguesas’ partilham”, explica.
O texto explora sobretudo as barreiras que as mulheres portuguesas tiveram de enfrentar, entre a condição feminina – a exemplo da severidade do pai de uma das mulheres ouvidas, de “mentalidade portuguesa à antiga” – e o estigma de ser estrangeira no país. Para uma das mulheres, que chegou ao Luxemburgo em criança, ser imigrante trouxe consigo a dura “aprendizagem de ser diferente”: chorava por não ser convidada para as festas de aniversário dos meninos luxemburgueses e ouviu termos pejorativos na infância.
Aline Schiltz: “O Luxemburgo sofreu um processo de lusificação”, diz investigadora
Que os estereótipos têm vida longa, atestam-no duas lusodescendentes ouvidas no livro, que cresceram no Luxemburgo e falam luxemburguês, além das outras línguas no país. Ambas fizeram estudos superiores (como de resto todas as mulheres ouvidas), mas continuam a “bater-se por ser plenamente reconhecidas”. “Tenho de me justificar no quotidiano: sim, eu sei, sou uma mulher de origem portuguesa; não, não gosto de fazer limpezas”, conta uma das mulheres citadas, ironizando: “Às vezes tenho má consciência: trabalho em part-time, dedico tempo aos meus tempos livres, e tenho uma empregada de limpeza!”.
Como um fio condutor, a questão da discriminação das mulheres e as barreiras associadas à emigração atravessa o capítulo dedicado às portuguesas do Luxemburgo. O que pesou mais na construção da identidade, ser mulher – para mais oriundas de um país tradicionalmente machista, como Portugal – ou estrangeira? São luxemburguesas ou portuguesas, ou “estrangeiras em todo o lado”? A resposta é diferente para cada uma das sete mulheres ouvidas: tudo depende da época em que chegaram ao país, da evolução dos costumes e da sua própria história.
Apesar disso, a geógrafa aponta que “os estereótipos que qualificam os portugueses parecem ser a maior barreira social”: as mulheres são “julgadas com base em imagens sociais que lhes são associadas”, “em vez de pela sua personalidade”. E recorda um caso anedótico contado por uma das mulheres, casada com um luxemburguês, diplomada e habituada a “ler imenso”. Apesar disso, numa festa de Natal, a “avó luxemburguesa” ofereceu livros a todas as mulheres da família, exceto a ela. Para sua surpresa, a portuguesa recebeu luvas de cozinha.
A fábrica de ’maçons’ e empregadas de limpeza
O caso inspirou o título do capítulo assinado por Aline Schiltz. “Luvas de cozinha para o Natal – As ‘portuguesas’ no Luxemburgo contam as suas vidas” vai ser analisado e discutido numa conferência que tira as mulheres portuguesas da cozinha para as pôr em primeiro plano. Uma iniciativa importante, quando se sabe que os estudos sobre a emigração deixaram muito anos as mulheres na sombra. “Apesar de as mulheres terem a maioria das vezes uma posição passiva quanto à decisão migratória, atribui-se-lhes no entanto uma grande responsabilidade no desenrolar deste projeto de vida”, aponta Aline Schiltz. E são elas, segundo vários estudos citados no livro, que parecem ser “mais abertas aos modos de vida ‘mais modernos’ dos países de acolhimento”, mas também “mais ágeis a interagir com a sociedade de acolhimento, a aprender a língua do país, a tratar dos assuntos correntes e a adotar novas formas de vida”.
Paula Telo Alves
Abr 24, 2019 | Artigo, Migrantes, Recortes, Refugiados
https://pontosj.pt/opiniao/um-choro-que-nos-faz-acordar/?fbclid=IwAR3z5ki7chZ2VLb5Er-2BqfdcCo3kqF8oQ5Dw4ReEwxFSVqMs9Kw5VNu5KM
As inundações devastadoras em Moçambique vieram revelar de forma aguda a contemplação proposta pelo Papa Francisco para esta Quaresma: o choro e a impaciência da criação, aguardando a nossa participação.
Nos últimos dias chega-nos o desespero de Moçambique, Malawi e Zimbabwe com a devastação do ciclone Idai. Só em Moçambique o número de mortos supera os 400 e 350 mil pessoas estão em risco, devido aos efeitos das cheias nas bacias dos rios Buzi e Pungoe. O choro agudo de Moçambique, devastado pelas águas, faz-nos sentir o choro da Terra e da Humanidade, ao ponto de nos detonar por dentro rebentando os nossos diques, as nossas seguranças, os nossos hábitos, fazendo-nos desejar transpor este imenso oceano para estar lá, fazer alguma coisa. As inúmeras manifestações de solidariedade que chegam de todo o mundo revelam este nosso desejo.
De acordo com o Banco Mundial e as Nações Unidas, Moçambique é o terceiro país africano mais vulnerável a desastres relacionados com fenómenos meteorológicos extremos, um dos impactos das alterações climáticas. As condições no terreno, com grandes índices de pobreza e desordenamento territorial, acabam por agravar ainda mais esta realidade. Como é injusto que os que menos contribuem para a emissão de gases com efeito de estufa, sejam quem mais sofre os impactos dos desequilíbrios ambientais a eles associados! Não dispõem de qualquer seguro, qualquer segurança… As suas vidas simples, despojadas, no limiar da pobreza, vão-nos desafiando à comunhão, ao despojamento, à conversão a um outro paradigma de sociedade, a outro estilo de vida.
Como é injusto que os que menos contribuem para a emissão de gases com efeito de estufa, sejam quem mais sofre os impactos dos desequilíbrios ambientais a eles associados! Não dispõem de qualquer seguro, qualquer segurança…
Se “acordarmos por dentro”, são tantas as formas de nos comprometermos diariamente por um estilo de vida que cuide do planeta e das pessoas, em especial das mais vulneráveis. “O choro da terra é o choro dos mais pobres”.De visita a Portugal há um mês atrás, onde, entre outras iniciativas, participou no “ACORDA! – Da conversão ecológica à transformação social”, Pedro Walpole sj (jesuíta irlandês há 40 anos nas Filipinas, onde acompanha comunidades vulneráveis às inundações) apontava a necessidade de trabalhar em conjunto estes dois campos. No entanto, num tempo tão marcado por catástrofes naturais, não se cansou de insistir na confiança e no que podemos fazer de bem. Como é que este choro faz germinar em mim a humildade dos pequenos passos de mudança? Ouvir e acordar com este choro, faz-nos sentir interdependentes, implicados num destino comum. Faz-nos mais conscientes do tanto que temos, mais agradecidos pela vida, mais responsáveis com o que com ela fazemos, como a vivemos. Só a partir desta consciência, será possível mudar exteriormente e lutar por uma mudança que se concretiza em escolhas e políticas mais justas e sustentáveis.
Como é que este choro faz germinar em mim a humildade dos pequenos passos de mudança? Ouvir e acordar com este choro, faz-nos sentir interdependentes, implicados num destino comum
Temos ao longo deste ano, oportunidades políticas concretas para acordar, no contexto das eleições europeias em maio e eleições legislativas em outubro. E como é urgente não desperdiçar estas oportunidades. Depois de décadas de construção da Paz e União no pós segunda guerra mundial, atravessamos um período de grande fragmentação, presente a todos os níveis, desde nas nossas vidas pessoais, às sociedades que integramos e à geopolítica global. “O mundo contemporâneo, aparentemente interligado, experimenta uma crescente, consistente e contínua fragmentação social que põe em perigo todo o fundamento da vida social e assim acaba por colocar-nos uns contra os outros na defesa dos próprios interesses” (Encíclica Laudato si’, 229). Como promover e testemunhar espaços de reconciliação que promovam o sentido do cuidado e da comunhão? É importante tomar consciência de que um dos efeitos das alterações climáticas na Europa, para as quais nós europeus contribuímos em larga escala com o nosso estilo de vida, são precisamente as migrações, de milhares de refugiados e deslocados climáticos.
Nos últimos dias, quase que como num diálogo profundo que ultrapassa o tempo e o espaço, assistimos a várias iniciativas que mostram como mobilizar o Bem.
É o sofrimento da maior parte que paga os luxos de alguns poucos. Precisamos de deixar os combustíveis fósseis no subsolo, e temos de pôr a tónica na equidade. (Greta Thunberg)
Greta Thunberg, jovem sueca de 16 anos, abre-nos caminho nesse sentido, ao mobilizar milhares de jovens de mais de 100 países para uma greve pelo clima a 15 de março. Ouve e reage ao choro da Terra e da Humanidade, convocando uma grande mobilização conjunta, uma paragem, um tempo e um espaço que nos permite sentir juntos este grito. Numa primeira reação, podemos achar inconsequente uma “greve pelo clima”. A verdade é que a sua impaciência gerou um pequeno passo catalisador de uma grande e ampla sede de mudança assente na esperança, refletida nas muitas campanhas de mobilização pela justiça climática que vão germinando. A calma e clareza que apresenta no discurso que fez na Cimeira do Clima em Katowice, em dezembro passado, revela a forma como se sente entranhada no sacrifício e no sofrimento da Criação: “A nossa biosfera está a ser sacrificada para dar oportunidade a um número muito pequeno de pessoas de continuarem a obter enormes somas de dinheiro. A nossa biosfera está a ser sacrificada para que pessoas ricas em países como o meu possam viver no luxo. É o sofrimento da maior parte que paga os luxos de alguns poucos. Precisamos de deixar os combustíveis fósseis no subsolo, e temos de pôr a tónica na equidade“.
Por outro lado, entre 19 e 21 março, decorreu em Washington o encontro “Ecologia Integral: uma resposta sinodal da Amazónia e outros territórios essenciais para o cuidado de nossa casa comum”, com a presença de povos indígenas, autoridades eclesiais, organizações internacionais dos cinco continentes. Este foi um encontro preparatório do sínodo “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” que o Papa Francisco iniciou na Amazónia peruana em janeiro de 2018 e que culminará em Roma em outubro.
Como me posso unir a estas mesas, acordos, manifestações? Como é que este choro me acorda? Que a minha impaciência por agir se junte à impaciência da criação, na expetativa ansiosa de que entremos decididamente neste “parto” que é a conversão (mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2019).ç