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Somos todos irmãos

Somos todos irmãos

Mensagem de Natal

Conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós Se fez pobre, para vos enriquecer com a Sua pobreza (2Cor.8,9). Sim, nós cristãos podemos fazer nossas estas palavras de S. Paulo, sobretudo no contexto deste Ano Jubilar e das celebrações natalícias, palavras reveladoras da misericórdia de Deus que vem ao nosso encontro para que, também nós, saiamos ao encontro dos pobres e necessitados, e não apenas para dar, mas também para receber. Longe de nós o paternalismo de quem dá coisas aos pobres apenas para que nos fiquem obrigados e presos a nós, como se também nós não precisássemos de receber deles. A misericórdia de Deus tem o poder de nos irmanar e de tornar possível a alegria profunda da comunhão e da festa que desapareceu da vida de quem vive para si mesmo.

Isto mesmo experimentou o Papa nos bairros pobres e degradados da África, na sua recente viagem apostólica. Impressionou-o a efusão de alegria dos seus habitantes, ao contrário daqueles que idolatram o deus dinheiro e desprezam os valores do Espírito. Por causa dele vendem a alegria e os valores humanos ao diabo. Estes vivem para si mesmos, para o seu prazer e estão mergulhados numa tristeza profunda. Aqueles vivem uns para os outros e têm estampada nos seus rostos, apesar da sua pobreza, a alegria de fazer bem ao seu semelhante.

Os simples, os pastores, os buscadores do sentido das suas vidas alegraram-se quando encontraram, envolto nas palhas da mangedoura, o Menino em quem reconheceram a manifestação da vida de Deus, o Messias Salvador. Também nós hoje O podemos encontrar não nos palácios, nos banquetes dos ricos, mas nas choupanas ou barracas dos pobres e nas mesas das famílias onde há mais amor que pão ou presentes caros de jogos egoístas.

Como alguém se expressou, o melhor presente de Natal é a presença de toda a família junto dos membros mais débeis, crianças, doentes e idosos. Onde dois ou três estiverem reunidos no amor aí nasce Jesus, aí está Deus.

Em quase todas as aldeias há lares ou unidades residenciais de idosos. Como é belo nesta altura de Natal vermos crianças, grupos de catequese, jovens e grupos corais cantar o Menino! Mas como seria ainda mais belo se os membros de cada família se juntassem e, onde isso for viável, os levassem para os seus próprios lares, passar esta quadra festiva nos ambientes em que decorreu a sua vida. Celebrando o Natal de Jesus, aconteceria também o fortalecimento da alegria da comunhão, sabendo-nos verdadeiramente irmãos e filhos de Deus e trazendo para as nossas vidas quem as marcou.

Nesta quadra muitos sentem mais fortemente a ausência e a distância física dos entes queridos e das aldeias natais, sobretudo os emigrantes e os refugiados. Como seria bom se cada família convidasse os imigrantes separados das suas famílias e que passam esta quadra longe das suas terras e famílias, para cear e conviver connosco! Uma grande oportunidade de, vencendo barreiras e ultrapassando preconceitos, fortalecer e testemunhar a verdade de que todos somos irmãos.

Assim acontece Natal na celebração do nascimento de Jesus e de uma vigorosa fraternidade, que nos faz verdadeira família humana de irmãos. E, para quem anda de ânimo abatido e acredita no amor de Deus por nós, oportunidade de se aproximar do Sacramento da Reconciliação, para acolher a misericórdia de Deus neste Ano Jubilar a ela dedicado e para depois a praticar junto daqueles de quem se anda mais afastado, renovando assim os laços da família humana e cristã.

Alegres festas de Natal e Ano de 2016 promissor de uma nova família humana mais fraterna, vencendo a indiferença de uns para com os outros, criando novos laços e construindo a paz na verdade e justiça.

Eis o desejo expresso deste vosso amigo, também em nome dos colegas bispos da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana em Portugal

 

† António Vitalino, Bispo de Beja

 

Misericordiosos como o Pai

Misericordiosos como o Pai

A misericórdia do Pai, a paz de Jesus Cristo Nosso Senhor, e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco!

Queremos convidar-vos, queridos irmãos e irmãs, a celebrar e a viver intensamente, com toda a Igreja, o Ano Jubilar da Misericórdia promulgado pelo Papa Francisco, para comemorar os 50 anos da conclusão do Segundo Concílio do Vaticano. Inaugurado por S. João XXIII e concluído pelo beato Paulo VI, o último Concílio Ecuménico preparou a Igreja para estes novos tempos, em que devemos anunciar o mesmo Evangelho de sempre em contextos muito diferentes daqueles que foram os da cristandade. O tempo da cristandade passou e o Papa Francisco não se cansa de nos lembrar a urgência de recentrar a vida e a ação da Igreja no essencial, para que possamos revelar e oferecer ao mundo, com mais eficácia, o tesouro da misericórdia de Deus. Essa renovação profunda deve começar, necessariamente, por cada um de nós. Por isso vos pedimos: abri os corações à misericórdia do Senhor para vos tornardes, em Cristo, misericordiosos como o Pai.

  1. A misericórdia revela Deus

De facto, para sermos cristãos, não nos basta saber coisas acerca de Deus, de Cristo e da Igreja; cada um de nós precisa de viver a experiência concreta da Sua misericórdia que nos liberta do poder das trevas e nos faz passar para o Reino de Seu Filho muito amado (Cl 1,13). A nós, que estávamos mortos em nossos pecados, Deus, que é rico em misericórdia, vivificou-nos juntamente com Cristo e com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus (Ef 2,1.4-6). Se nestas palavras de S. Paulo reconheces a tua história e o programa da tua vida futura, feliz de ti que alcançaste misericórdia! Sê misericordioso, porque, segundo a promessa do Senhor, sempre alcançarás misericórdia (cf Mt 5,7).

Para podermos alcançar misericórdia e testemunhá-la ao mundo, serve precisamente este Ano Jubilar. Por meio dele, Cristo Bom Pastor vem à procura das suas ovelhas transviadas. Deixa-te encontrar por Ele, sai dos esquemas egocêntricos e mesquinhos em que te resguardas, abre-te à largueza da Sua graça, deixa-te apascentar e conduzir por Ele até à casa do Pai, que te espera transbordante de amor e de perdão, para te abraçar e te revestir da dignidade própria dos seus filhos, tal como vemos na parábola do filho pródigo.

  1. A Igreja, estalagem da misericórdia

Constituída por pecadores que acolheram o Evangelho e estão a caminho da Terra Prometida, a Igreja é, no dizer do Papa Francisco, como um hospital de campanha ou como a estalagem da parábola do Bom Samaritano, onde o Senhor nos recebe misericordiosamente e cura as nossas feridas. A Igreja é o lugar de encontro de Deus com o homem e do homem com Deus, o lugar da graça e da misericórdia. Nela, Jesus é o rosto do Pai misericordioso que nos atrai, e, como Ele próprio afirmou, a porta pela qual entramos para ser salvos. Por Ele entramos na comunhão da Igreja ao sermos batizados e ao renovarmos o Batismo no sacramento da Reconciliação. Por Ele, impelidos pelo Seu Espírito, saímos como Igreja enviada ao mundo para dar testemunho da Sua misericórdia e anunciar o Evangelho.

A propósito, transcrevemos aqui o que diz o Santo Padre na bula de proclamação do Jubileu: a arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo.

Citando a encíclica Dives in Misericordia de S. João Paulo II, continua o Papa: «A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora».

Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia. (Cf Bula O Rosto da Misericórdia nn. 10 ss)

3 – Acolher, cultivar e testemunhar

Para que estas palavras se tornem realidade nas nossas paróquias e na nossa diocese procure cada um acolher a misericórdia, cultivar a misericórdia sobretudo na igreja e na família, e dar testemunho da misericórdia.

Convertamo-nos à misericórdia de Deus que nos revela a nossa miséria, nos põe na humildade e nos mostra a necessidade absoluta de sermos salvos desta ilusão hoje tão propagada de que não precisamos d’Ele para ser felizes. Reconciliemo-nos com Deus confessando os nossos pecados e recebendo o Seu perdão no Sacramento da Reconciliação.

Cultivemos no seio de cada comunidade cristã a misericórdia pois não tem condições para se desenvolver fora dela. A ácida atmosfera do mundo em que vivemos é adversa à cultura da misericórdia, mas o mundo precisa dos seus frutos para subsistir. A árvore da misericórdia dá frutos na terra, mas tem no céu as suas raízes e alimenta-se do Espírito que nos é dado gratuitamente por Jesus Cristo. A Igreja é a estufa, o ambiente propício onde esta frágil planta pode desenvolver-se, florescer e frutificar. É nela que recebemos o Espírito Santo e aprendemos a não julgar, a perdoar, a orar em comum, a praticar a correção fraterna. É em comunidade que aprendemos a ser solícitos pelo bem dos outros, aceitando-os como são, ajudando-os e servindo-os, esquecendo-nos de nós mesmos, é lá que aprendemos a amar os inimigos e a dar a própria vida imitando o Senhor Jesus.

Convidamos-vos a aprender de cor e a praticar as catorze obras de misericórdia, corporais e espirituais. As corporais são: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos, sepultar os mortos. E as espirituais são estas: dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, rogar a Deus por vivos e defuntos. Podemos resumi-las em catorze verbos: alimentar, dessedentar, agasalhar, albergar, curar, visitar e sepultar; aconselhar, ensinar, corrigir, consolar, perdoar, suportar e orar.

Testemunhemos a misericórdia! Ao longo dos tempos, conforme as circunstâncias, para além da prática individual e discreta que só Deus conhece, os cristãos encontraram formas organizadas e públicas de praticar as obras de misericórdia. Desde o século XVI as Santas Casas da Misericórdia, fundadas por todo o lado em Portugal, tornaram-se expressões eficientes da caridade cristã para com os necessitados. E agora, quanta assistência se faz nos Centros Sociais e em muitas instituições cristãs de solidariedade cujo único objetivo é fazer o bem a quem precisa, dentro e fora da Igreja, em Portugal e no mundo! Quantos Institutos e Congregações Religiosas, quantas organizações da Igreja Católica auxiliam os pobres e necessitados e são, em todo o mundo, sinais da misericórdia de Deus e da solicitude da Mãe Igreja para com os pobres? Hoje, entre nós, talvez não seja preciso multiplicar as Instituições que se dedicam à prática da Caridade, mas é necessário que sejam revitalizadas pela seiva do Espírito, para que a sua ação não fique reduzida a mero altruísmo. É por amor a Cristo presente nos pobres e necessitados que nós cristãos praticamos as obras de misericórdia. Sem isso, seríamos erradamente louvados pelos homens que, ao ver as nossas boas obras, devem glorificar o Pai que está nos céus, e não a nós.

  1. Peregrinações do Ano Jubilar

Vivamos os breves meses deste Ano Jubilar em conversão sincera. Façamos uma peregrinação jubilar e atravessemos a Porta da Misericórdia para recebermos o dom da indulgência plenária, importantíssima não apenas para nos fazer progredir na comunhão com o Senhor, mas também para edificar a comunhão nas nossas comunidades cristãs.

Para recebermos a graça da indulgência plenária que nos liberta de qualquer resíduo das consequências do pecado e nos habilita para agirmos com caridade, cultivando a comunhão fraterna, além de uma confissão bem-feita, detestando o pecado e com firme propósito de emenda e de participar na Eucaristia e comungar sacramentalmente, é necessário também proclamar o Credo e rezar pelas intenções do Papa.

Os párocos terão o cuidado de preparar convenientemente estas peregrinações, para que os fiéis possam receber abundantemente as graças deste jubileu.

(…)

A Virgem Santa Maria, Mãe de misericórdia, que na sua imagem peregrina nos está visitando como que a preparar-nos para o início do Ano Jubilar, interceda por todos nós e abençoe as famílias, as paróquias e todas as comunidades da nossa diocese.

† António Vitalino e † J. Marcos

Cinzas…

Rasguemos as vestes…

Do orgulho e da indiferença,

Da vaidade e do preconceito

Rasguemos as vestes…

Do simplesmente acomodado

Na poltrona do egoísmo e da cegueira

Rasguemos as vestes…

De tanta omissão e injustiça,

Do comodismo disfarçado

Rasguemos as vestes…

Abramos os olhos,

olhemos à volta

para os caminhos tortuosos

e os corpos despedaçados

Rasguemos as vestes…

Abramos corações endurecidos

Ao amor que é eterno,

Que não tem fronteiras

Nem espaços definidos

Nem recompensas humanas

Rasguemos as vestes…

Rasguemos o coração

Até às Cinzas!…

TE Viterbo – 2012

Deus acontece-nos na passagem

Há transformações silenciosas que fazem o seu caminho em nós, que se infiltram, e deixam indeléveis marcas da sua passagem.

Assim é a passagem de Deus por nós. Deus acontece-nos na passagem, mostra-se ao nosso presente nos múltiplos trânsitos do existir.Há um poema de Alberto Caeiro que, creio, problematiza isso:
“Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!”
Caeiro cria uma espécie de dialéctica entre a ave e o animal que avança sobre a terra. O deixar rasto é prolongar uma marca no chão, um vestígio fixo, imóvel, que já não serve, porque só lembra o que foi; e, como ele explica, “a recordação é uma traição”. Prende-nos a um determinado momento do passado e impede-nos de perceber que a verdadeira compreensão é a dinâmica da ponte, o fluir permanente que não se interrompe, a vida de margem para margem.
O escritor Italo Calvino, nas suas “Seis propostas para o próximo milénio”, num conjunto de conferências que funcionam como o seu testamento cultural e espiritual, diz que o primeiro valor que teremos de redescobrir no próximo milénio (este precisamente em que estamos), é o valor da leveza.
E a leveza para ele é a possibilidade de deslocar-se, procurando outro ponto de observação.
É considerar o mundo sob outro ângulo, buscando meios alternativos de conhecimento. E Calvino cita Paul Válery num verso que traz muita luz:
“Ser leve como um pássaro, mas não leve como uma pluma”. Não se trata de ligeireza ou superficialidade. Este “viver entre” não é um truque para, no fundo, não estar em parte nenhuma, não ser de nenhum lado, nem se comprometer com nenhum aspecto da realidade. Ser leve não é ser pluma. Ser leve é ser como o pássaro que vive na passagem, que vive o esforço e a fadiga de ser, no próprio acto de passar.
Esta deslocação, para nós crentes, é a condição de peregrinos e buscadores. Deus só o acolhemos num viver que é ele próprio ‘passagem’.

artigo de opinião, in Página 1. Jornal online de 14/07/2011

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