Jun 14, 2018 | Artigo, Mediterrâneo, Notícias, Recortes, Refugiados
Uma evocação do Evangelho publicada esta segunda-feira no Twitter pelo presidente do Conselho Pontifício da Cultura, cardeal Gianfranco Ravasi, a propósito do drama vivido pelas pessoas a bordo do barco “Aquarius”, no Mediterrâneo, desencadeou uma onda de reações dirigidas ao prelado italiano e à Igreja.
«Era estrangeiro e não me acolhestes», foi a passagem mencionada, extraída do capítulo 25, versículo 43, do Evangelho segundo S. Mateus, que numa tradução em português europeu se lê: «Era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me».
Gianfranco Ravasi, biblista, aludia ao barco fretado pela organização não-governamental SOS Mediterrané, onde se encontram 629 migrantes recolhidos no mar, e que ontem a Itália e Malta recusaram receber, tendo mais tarde recebido ofertas de acolhimento por parte de Espanha e, mais recentemente, da Córsega.
«Eminência, não podemos acolher todos. Como diz a minha velha mamã: primeiro tu, depois os teus, depois os outros, se puder ser…» é o primeiro dos mais de 1600 comentários ao “tweet” do cardeal.
Entre as respostas menos vulgares incluem-se «Que cuide deles o cardeal no Vaticano», «Eram pedófilos e não os prendestes», «O dinheiro do IOR [entidade bancária da Santa Sé] investi-o todo em África», «Vim para traficar, para violar, para islamizar, para viver à borla e não me acolhestes», «Jesus disse que a verdade vos tornará livres. Basta de negros e árabes que comem de borla».
«Se ao espelho olhamos o nosso rosto, descobrimos nele os traços da humanidade, porque a ela todos pertencemos, para além das diferenças étnicas, culturais, religiosas»
«Abri as portas do Vaticano e colocai lá todos os clandestinos que quiserdes» e «Cardeal vós possuís riquezas imobiliárias superiores à dívida pública italiano, vendei alguns imóveis e ide para África e Médio Oriente para ajudar os pobres; devia estar na primeira linha para cessar o tráfico de escravos», são outros exemplos de comentários.
Há duas horas, o cardeal Ravasi voltou à Bíblia, citando desta vez a primeira carta de S. João (4, 16): «Deus é amor; quem está no amor permanece em Deus e Deus nele», depois de, ontem, ter evocado um autor cristão, Georges Bernanos: «Para encontrar a esperança é preciso ir para lá de todo o desespero. Quando se vai até ao fim da noite, encontra-se uma nova aurora».
«Tempo virá/ em que, exultante,/ te saudarás a ti mesmo chegado/ à tua porta, no teu próprio espelho/ e cada qual sorrirá ante a saudação do outro,/ e dirá: Senta-te aqui. Come./ Amarás de novo o estrangeiro que era o teu Eu./ Dá vinho. Dá pão. Devolve o coração/ a ele próprio, ao estrangeiro que te amou/ toda a tua vida, que ignoraste».
Na coluna que assinava diariamente no jornal italiano “Avvenire”, o P. Ravasi, ainda não criado cardal, citou versos da poesia “Amor após amor”, de Derek Walcott, «o cantor dos mestiços, nascido numa ilha das Caraíbas, Santa Lúcia, em 1939».
«Como se intui, unem-se e sobrepõem-se duas fisionomias diversas, a minha e a do outro, o estrangeiro. Se ao espelho olhamos o nosso rosto, descobrimos nele os traços da humanidade, porque a ela todos pertencemos, para além das diferenças étnicas, culturais, religiosas.
Depois de encorajar «a dar as boas-vindas aos refugiados» nas casas e comunidades, «de maneira que a sua primeira experiência da Europa não seja a traumática de dormir ao frio nas estradas, mas a de um acolhimento quente e humano», Francisco lembrou as palavras agora evocadas pelo cardeal Ravasi
“Amarás o estrangeiro que era o teu Eu”, diz o poeta. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, diz a Bíblia. Neste paralelo há dois amores que se fundem, o espontâneo por si próprio e aquele que o é para os outros, muitas vezes conquistado com algum esforço mas que deverá ser, da mesma maneira, intenso.
Devemos tentar reconduzir o nosso coração “a si mesmo”, isto é, à sua consciência profunda, e aí descobriremos que há o estrangeiro dentro de nós porque ele é semelhante a nós por causa do próprio Deus que o criou, do próprio Cristo que o redimiu, do próprio amor que foi deposto nele e em nós, e do próprio pecado que obscurece a nós e a ele», observou Ravasi.
Numa das múltiplas ocasiões em que se referiu aos migrantes, o papa Francisco lembrou que «tragicamente, no mundo há hoje mais de 65 milhões de pessoas que foram obrigadas a abandonar os seus locais de residência. Este número sem precedentes vai além de toda a imaginação».
«Se formos além da mera estatística, descobriremos que os refugiados são mulheres e homens, rapazes e raparigas que não são diferentes dos membros das nossas famílias e dos nossos amigos. Cada um deles tem um nome, um rosto e uma história, como o inalienável direito de viver em paz e de aspirar a um futuro melhor para os seus filhos», sublinhou em setembro de 2016.
Depois de encorajar «a dar as boas-vindas aos refugiados» nas casas e comunidades, «de maneira que a sua primeira experiência da Europa não seja a traumática de dormir ao frio nas estradas, mas a de um acolhimento quente e humano», Francisco lembrou as palavras evocadas agora pelo cardeal Ravasi, «tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era estrangeiro e acolhestes-me», e lançou um desafio: «Levai estas palavras e os gestos convosco, hoje. Que possam servir de encorajamento e de consolação».
Na segunda-feira, o arcebispo de Madrid, cardeal Carlos Osoro Sierra, também se exprimiu no Twitter: «O mandato é claro: “Fui forasteiro e hospedastes-me”. Para além de considerações políticas e legais, ao ler a vida desde o Evangelho, um vai em busca do outro. #Aquarius é um chamamento de Cristo à Europa».
SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 12.06.2018
http://www.snpcultura.org/aquarius_cardeal_ravasi_evoca_evangelho_sobre_acolhimento_e_desencadeia_reacoes_internet.html
Abr 16, 2018 | Recortes, Refugiados, Santa Sé
Genebra, 12 abr 2018 (Ecclesia) – O Vaticano destacou a necessidade de os países adotarem “políticas inclusivas e não-discriminatórias” relativamente aos refugiados, que garantam soluções rápidas a quem busca asilo e ajuda, e a segurança dos cidadãos.
D. Ivan Jurkovic, observador permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, abordou a questão num conjunto de sessões em Genebra sobre o Pacto Global para os Refugiados.
Na intervenção, enviada hoje à Agência ECCLESIA, o responsável frisou que “a segurança das fronteiras e o bem-estar dos refugiados ou daqueles que pedem asilo não devem ser vistas como algo inconciliável”, mas como “dois pilares” da mesma política migratória.
O arcebispo esloveno lembrou sobretudo a indefinição que rodeia o futuro de muitos refugiados que “fugiram de conflitos armados, de situações de perseguição e violência”.
Homens, mulheres e crianças, famílias que merecem respostas “rápidas” e um processo mais eficaz de “triagem e admissão”.
“Um plano migratório exclusivamente orientado para a questão da segurança deixa de lado as tragédias que obrigam as pessoas a procurar proteção fora dos seus países”, salientou o representante da Santa Sé, que pede “um programa de ação mais abrangente e humano”.
“É fundamental assegurar que este documento (ndr: Pacto Global) contribua verdadeiramente para a melhoria da vida dos milhões de refugiados que continuamente procuram proteção internacional”, referiu D. Ivan Jurkovic.
Numa perspetiva mais específica, o arcebispo sublinhou duas áreas urgentes na definição das políticas de apoio aos refugiados: o acesso à educação e aos cuidados de saúde.
Para o observador permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, além de essencial na integração dos refugiados, a educação é uma ferramenta fulcral no que diz respeito à “proteção” das crianças de fenómenos como “o tráfico humano, a exploração laboral e outras formas de escravatura”.
Os cuidados de saúde inscrevem-se, por sua vez, no “direito à vida” e à “dignidade” que cabe a cada ser humano.
“O acesso à educação e aos cuidados de saúde inspiram esperança entre os refugiados e contribuem em muito para restaurar a sua dignidade”, sustentou.
Na delineação do Pacto Global, o Vaticano diz que importa também não esquecer “a assistência às comunidades locais que tão generosamente acolhem” os refugiados, numa visão necessariamente “holística”.
O Pacto Global para os Refugiados teve origem numa declaração assinada por todos os 193 Estados-membros da ONU em 2016, em Nova Iorque.
A intenção das Nações Unidas é estabelecer um conjunto de regras internacionais que facilite o processo de acolhimento e de integração dos refugiados.
Nos últimos dois anos têm-se sucedido os encontros entre responsáveis dos países, com a participação do Vaticano, no sentido de dar uma forma mais específica a esta declaração de intenções.
Têm também sido registadas algumas baixas, em termos dos países que inicialmente subscreveram este Pacto, com destaque para a saída dos Estados Unidos da América.
JCP
Refugiados: Vaticano pede Pacto Global que apoie «verdadeiramente» quem procura apoio internacional
Abr 12, 2018 | Artigo, Recortes
A Conferência Episcopal Portuguesa publicou hoje uma mensagem sobre a crise dos migrantes e refugiados, onde alerta para os atentados que subsistem em Portugal e em vários países contra a dignidade humana destas pessoas.
Neste documento, saído da assembleia plenária da CEP que terminou esta quinta-feira em Fátima, os bispos portugueses apoiam a definição de um Pacto Global para responder à atual crise migratória, um plano que tem estado a ser desenvolvido em sede das Nações Unidas e que conta com o apoio de Portugal.
E frisam a urgência de “desenvolver uma ação clara em prol dos migrantes, refugiados e vítimas de tráfico humano”, tal como já foi defendido pelo Papa Francisco.
“É necessário admitir o princípio da mobilidade como uma das características das sociedades modernas e integrá-la na legislação de cada país, para que isso aconteça de modo ordenado, legal e seguro”, pode ler-se.
Os responsáveis católicos portugueses lembram que subsistem vários “atropelos” à dignidade humana, no que diz respeito à situação dos migrantes e refugiados.
A começar na origem, desde que estes saem dos seus respetivos países, sujeitos a “máfias sem escrúpulos, a quem unicamente interessa o dinheiro”, ou obrigados a percorrer “mares, desertos e montanhas”, sem qualquer tipo de “amparo humano”.
Pessoas e famílias que chegam “esfomeadas, violadas e feridas, depois de um longo e penoso caminho”; crianças que têm o direito a ser “protegidas e defendidas”, e de aceder a “cuidados de saúde e educação, de modo a que possam crescer”, frisam os bispos portugueses.
Os membros da assembleia plenária da CEP pedem mais empenho político no desenvolvimento de “legislação adequada para o acolhimento justo e digno” dos migrantes e refugiados, e também na abertura de “corredores humanitários seguros”.
Em vez do que acontece atualmente em vários países da Europa, mais preocupados segundo os bispos, em “fechar as fronteiras” e em “devolver estas pessoas a países terceiros que, por sua vez, os repatriam para os seus países de origem, pobres e muitas vezes atingidos pela corrupção e pela guerra”.
Nesta mensagem saída da assembleia plenária da CEP, que decorreu desde segunda-feira na Casa de Nossa Senhora das Dores em Fátima, os bispos portugueses defendem a importância de acolher e integrar bem os migrantes e refugiados.
De modo a que estas pessoas tenham reais oportunidades de emprego e desenvolvimento, de “participação ativa na vida local”, nos países de acolhimento, em vez de serem “empurradas para guetos” ou para as periferias sociais.
Neste ponto, os bispos denunciam as irregularidades que se verificam no setor laboral, tanto em Portugal como no estrangeiro, relativamente às condições de trabalho atribuídas a quem vem de fora em busca de um futuro melhor e vê as suas expetativas defraudadas.
Apesar de reconhecerem que “em Portugal muitas empresas cumprem as suas obrigações sociais com trabalhadores estrangeiros”, os responsáveis católicos sublinham que ainda subsistem casos de trabalho precário em vários setores de atividade mais “sazonal”, como na “agricultura”.
Onde frequentemente não é reconhecido o direito “a remuneração justa, habitação digna, alimentação capaz, segurança social e saúde pública”, aponta a mesma nota.
“Ainda pior”, acrescentam os bispos, são os casos em que os migrantes “são vítimas de intermediários sem consciência, que lhes confiscam os documentos, parte do salário e ameaçam os seus familiares nos países de proveniência”.
Situação “semelhante à das empresas que recrutam mão de obra em Portugal para trabalhar no estrangeiro, prometendo condições vantajosas que depois não se verificam”.
Os bispos enaltecem na sua mensagem “o esforço que tem sido desenvolvido em Portugal”, em particular pela PAR – Plataforma de Apoio aos Refugiados, em prol do reforço da “capacidade de acolhimento”.
Desde que começou o programa de emergência da União Europeia, relativamente a esta crise de refugiados, Portugal já acolheu cerca de 1500 pessoas e já se disponibilizou a receber mais mil até 2019.
“Confiamos na boa vontade e no sentido de justiça dos nossos legisladores e fazemos apelo aos responsáveis do Governo a que continuem a desenvolver medidas de acolhimento e integração dos migrantes, dos refugiados e das vítimas do tráfico humano”, escrevem os responsáveis católicos portugueses.
Que deixam ainda um apelo às “dioceses” e às “instituições e comunidades cristãs”, para que continuem a participar com “amor generoso”, na resposta a esta problemática.
JCP
Igreja/CEP: Bispos portugueses denunciam «atropelos» à dignidade dos migrantes e refugiados
Mar 15, 2018 | Artigo, Recortes, Santa Sé
Mais do que um simples “aniversário de eleição do Papa Francisco à cátedra de Pedro”, neste 13 de março comemora-se na Igreja Católica a reemergência da pessoa e da Boa Nova de Jesus Cristo. E junto com o “profeta itinerante de Nazaré”, reemerge igualmente uma dupla centralidade: o Reino de Deus como centro da mensagem do Mestre, de um lado, e, de outro, os pobres como centro do Reino. Esse retorno ao núcleo kerygmático dos escritos neotestamentários vem à tona desde as primeiras palavras e os primeiros gestos do Pontífice, para consolidar-se em seus breves discursos, suas Cartas Encíclicas (Lumen Fidei, 2013 e Laudato Si’, 2015) e sua Exortação Apostólica (Evangelii Gaudium, 2013).
A centralidade do Reino de Deus vem atestada com força profética e veemente em todas as páginas do Novo Testamento, mas de modo particular nos capítulos sobre as parábolas de Jesus. O Papa Francisco retoma, de forma complementar, seja a linguagem de tais narrações alegóricas, seja o seu conteúdo oculto. Quanto e este último, convém notar como Jorge Bergoglio tem insistido – e venha insistindo – sobre o fato de que a esperança escatológica do Reino tem primazia sobre os bens e riquezas deste mundo. Mas não é só isso! Enquanto os poderosos dominam as nações através de uma “política econômica que exclui, descarta e mata”, o Senhor chama para si o serviço aos mais necessitados. Os primeiros se dispõem a construir muros mediante uma “globalização da indiferença”. Jesus, além da ponte entre o céu e a terra, convida a estabelecer novas pontes que liguem pessoas, culturas e nações. A “cultura da solidariedade” constitui o alicerce para a preservação da “nossa casa comum” (Laudato Si’).
Não é diferente com a forma de comunicação. Em lugar de uma linguagem retórica e sofisticada, acadêmica e até mesmo hermética, não raro auto-referente, o Pontífice concede prioridade às expressões do dia-a-dia. A imagem da metáfora e a forma simbólica lhe são extremamente caras. Aprendeu a ser popular sem cair na banalização do uso da língua. Simples e profundo ao mesmo tempo, consegue extrair pérolas novas de um tesouro velho de dois séculos. Sabe que um “bongiorno”, “buonasera” ou “buon pranzo”, do ponto de vista da presença divina entre nós, por vezes vale tanto quanto um tratado teológico ou doutrinário. Isso não significa que não conheça a teologia e a doutrina. Ao contrário, conhece-as tão bem que é capaz de traduzi-las em palavras e gestos ligados à comunicação cotidiana e transparente.
No interior da centralidade do Reino, distingue-se claramente a centralidade dos pobres. Aqui corremos o perigo de repetir o óbvio. Bastaria um rápido sobrevoo pelos cinco anos de seu pontificado para dar-se conta de que os pobres ocupam parte central de sua solicitude pastoral do Papa Francisco. Ou ainda ter em conta, sempre no mesmo período de cinco anos, o contato vivo e caloroso com a “ovelha perdida” do Evangelho (Lc 15.3-7): povo da rua, prisioneiros e menores abandonados; pessoas com necessidades especiais; migrantes, refugiados e prófugos; crianças e mulheres vítimas da violência; trabalhadores sem terra, sem tecto e sem trabalho… Enfim, pessoas doentes e indefesas, oprimidas e marginalizadas, excluídas e descartáveis no sistema da economia globalizada.
Seguindo de perto as intuições do Concílio Vaticano II, desde cedo o Pontífice fez questão de desfazer-se de solenidades demasiadamente pomposas e ostentatórias, como também de costumes e indumentária herdados de uma Igreja principesca e majestosa. Tampouco se apegou aos benefícios de uma aliança com o poder e riqueza. O ritualismo liturgístico também lhe é alheio. No seu modo de ser e de agir, a eclesiologia do Povo de Deus se sobrepõe à eclesiologia hierárquica. E isso não somente em discursos e promessas, mas na prática de uma opção evangélica firme e determinada. Evidente que semelhante postura lhe acarretou inimizade e mesmo perseguição, seja no interior como no exterior da Igreja. Mas trouxe-lhe igualmente o carinho do povo e o reconhecimento de não poucas autoridades e meios de comunicação. Não que o Papa Francisco tenha reinventado a roda ou o Evangelho. Nada disso! Apenas fez da Boa Nova de Jesus seu lema, traduzindo-o em gestos, acções e visitas concretas. Reavivou uma luz que, através dos séculos, e mesmo depois do já citado Concílio, andava meio esquecida e sepultada por um grande punhado de cinza.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma 12 de março de 2018
Mar 6, 2018 | Notícias, Recortes, Santa Sé
Encontro será aberto esta terça-feira (06/03) em Roma pelo secretário de Estado vaticano, cardeal Pietro Parolin, e pelo prefeito do Dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral, cardeal Peter Turkson.
Cidade do Vaticano
A resposta da Igreja católica às necessidades dos migrantes e dos refugiados estará no centro do encontro da Comissão internacional católica para migração, que se realizará em Roma de 6 a 8 de março (desta terça até a próxima quinta-feira).
Presente em 50 países no mundo inteiro
Fundada em 1951, a Comissão é um organismo internacional que reúne os representantes das Conferências episcopais e das agências católicas que se ocupam de migrantes e refugiados e está presente em 50 países no mundo inteiro. Os participantes serão recebidos pelo Papa Francisco na próxima quinta-feira, 8 de março, às 10h locais.
O encontro será aberto esta terça-feira pelo secretário de Estado vaticano, cardeal Pietro Parolin, e pelo prefeito do Dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral, cardeal Peter Turkson.
“O encontro realiza-se a cada 4 anos e terá um impacto significativo sobre como as organizações católicas do mundo inteiro respondem às necessidades de migrantes e refugiados.”
O encontro deste ano propõe-se a adotar um quadro estratégico para 2019-2022, “buscando ser dinâmicos e capazes de responder às necessidades de refugiados e migrantes, radicado na doutrina da Igreja católica e na forte liderança do Papa Francisco, que nos convida a proteger, promover e integrar refugiados e migrantes”, explica o secretário-geral do organismo internacional, Mons. Robert J. Vitillo.
Ocasião de diálogo e de partilha
Também se discutirá acerca de dois pactos globais da ONU sobre migrantes e refugiados a serem adotados ainda este ano. O encontro será ocasião de diálogo, partilha de boas práticas, de preocupações e desafios.
http://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2018-03/migrantes-refugiados-desafio-igreja-catolica-roma-papa-francisco.html
Fev 26, 2018 | Notícias, Recortes
O padre Dâmaso Lambers morreu esta quinta-feira 22-02.2018, no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa. O homem que levou Jesus para a cadeia tinha 87 anos. Durante anos a Renascença foi como a sua segunda paróquia.
O corpo do padre Dâmaso esteve em câmara ardente na Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica, desde as 16h00 de sexta-feira, dia em que houve duas missas de corpo presente: às 17h30 e às 19h15. No sábado, houve missa às 9h00 e, às 10h30, houve nova missa presidida pelo cardeal patriarca de Lisboa. D. Manuel Clemente.
A seguir, o corpo saiu da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica para a casa mortuária de Alcabideche. As 16h30 foi à prisão do Linhó. Pelas 18h00, foi cremado no cemitério de Alcabideche.
Hermano Nicolau Maria Lambers nasceu no dia 9 de junho de 1930 numa Holanda ainda a viver a Primavera depois da Primeira Guerra Mundial. Nada fazia prever as nuvens negras que em breve viriam estragar os bons tempos, semeando morte e destruição. Nada fazia prever que um dia seria conhecido como Dâmaso e que passaria grande parte da vida atrás das grades, pregando numa língua estranha, num país desconhecido.
Tinha 10 anos quando os nazis invadiram o seu país. O resto da infância e princípio da adolescência foram-lhe roubados pelos soldados alemães, os mesmos que apareciam de vez em quando na igreja onde os Lambers iam à missa. Na igreja estavam lado-a-lado com o inimigo, eram irmãos na fé, mas depois não havia misturas.
Foram tempos difíceis, passou-se fome, os jovens passavam os dias a procurar lenha para os idosos e os doentes, porque os invasores ficavam com o carvão todo. Numa mostra de generosidade, os alemães ofereciam sopa aos holandeses. “Era 99.9% água. Não alimentava nada, era ridículo”, recorda.
Morreram conhecidos, vizinhos foram fuzilados por ligação à resistência, mas nada abalou a fé do pequeno Hermano que ainda muito novo era dado a desaparecer de ao pé dos irmãos, sendo encontrado mais tarde ajoelhado no quarto a rezar.
Ainda decorria a guerra quando manifestou interesse em ser padre, mas os seminários tinham sido bombardeados depois de ocupados pelos alemães. Foi orientado por alguns padres da congregação a que mais tarde se juntou, os Sacerdotes da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, tendo sido ordenado em 1955, aos 25 anos. Adotou o nome Dâmaso e foi assim que passou a ser conhecido o resto da vida.
Queria ser missionário, queria ir para terras exóticas pregar a Boa Nova, dar a conhecer Cristo, e foi com desagrado que em 1957 recebeu ordens para rumar a Portugal, onde o cardeal Cerejeira pedia mais padres holandeses para as missões populares. Mas obedeceu, como toda a vida faria com os seus superiores, incluindo com o cardeal Cerejeira, a pedido de quem até se naturalizou português em 1962, uma decisão que foi mal recebida pelo seu pai, que o encarou e início como uma renúncia à sua identidade holandesa.
Este país para onde veio contrariado acabaria por o conquistar. Conheceu e tornou-se amigo de Monsenhor Lopes da Cruz, fundador da Renascença, e a sua colaboração com a Emissora Católica durou o resto da sua vida.

Amar os reclusos
Mas a sua grande vocação ainda estava para se revelar. Em 1959 deu uma conferência na prisão feminina de Tires e correu tão bem que o convidaram para dar mais, noutras prisões. Acabou por perceber que para poder ajudar os reclusos teria de se identificar totalmente com eles, oferecer-se totalmente a eles. “Para se meter no mundo dos presos é preciso renunciar a nós mesmos”. Primeiro como visitador, depois como capelão, ficou conhecido como o padre das prisões.
Ajudou incontáveis homens e mulheres, amava-os a todos plenamente. Não lhe chegava levar-lhes Cristo à prisão, ajudá-los com bens ou até com o dinheiro que tinha com ele – pois como recordou mais tarde um ex-recluso, havia muitos que se aproveitavam da sua bondade – e por isso fundou “O Companheiro” com a ajuda de alguns amigos, em 1987. A organização ainda existe e dedica-se a ajudar ex-reclusos a reintegrar-se na sociedade. Até ao fim da vida acontecia irem ter com ele na rua homens de quem já não se lembrava, a querer agradecer-lhe tudo o que tinha feito por eles.
O seu trabalho de capelania levou-o a Roma, foi recebido em audiência por João Paulo II, com quem falou alguns minutos. O que ouviu tocou-o profundamente, nunca o esqueceu, mas também garantiu que nunca o partilharia com ninguém.
Fundou a Associação Confiar e foi um dos fundadores das Aldeias SOS.
Costuma-se dizer que as homenagens chegam tarde, frequentemente depois da morte do homenageado, mas o padre Dâmaso foi exceção à regra. Em 2009 foi condecorado por Cavaco Silva com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito; em 2011 recebeu uma homenagem da Prison Fellowship International, uma organização mundial de inspiração cristã que se dedica à pastoral prisional e em 2016 foi a vez da “sua” Renascença inaugurar uma sala com o seu nome e prestar-lhe um tributo público.

A mensagem que deixou nesse dia foi quase idêntica à que repetia todas as semanas, nas missas semanais que celebrava na emissora. Uma insistência no carácter cristão da Renascença. Podiam estar só dois ou três na capela, mas era ali, no sacrário ou no altar que estava o coração daquela organização e ninguém que lá trabalhava o devia esquecer.
Dava o exemplo. Era também esse o seu centro, o seu tudo. O seu Jesus “fantástico” que nunca se cansou de servir, que amava perdidamente. Fez a primeira comunhão aos sete anos e desde essa altura foram poucos os dias em que não comungou. “Eu vivo de manhã para a consagração e o resto do dia vivo a partir da consagração”, chegou a dizer.
A comunhão com Jesus agora é plena, face-a-face, e quem o conheceu pode adivinhar as suas primeiras palavras ao entrar no Céu. “Isto é fantástico”.

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