Out 16, 2015 | Documentos, Recortes
Uma pequena luz pode ser acesa em meio às sombras
De acordo com as observações de alguns jornalistas, o recente fluxo de imigrantes sobre o velho continente europeu representa o maior deslocamento humano de massa depois da Segunda Guerra Mundial. Quatro aspectos (ou atitudes) merecem particular atenção. Em primeiro lugar, por parte dos que chegam, está em jogo uma necessidade urgente que obriga pessoas e famílias inteiras a buscar abrigo em outros países. Os migrantes fogem em massa da guerra aberta e declarada (Síria, Iraque, Afeganistão…), ou de tensões e conflitos armados internos, de origem étnica, política ou religiosa (Nigéria, Líbia, Sudão…). Mas escapam também da pobreza e de carências crônicas, de ordem históricas e estruturais, bem como de calamidades “naturais” (Bangladesh, Eritreia, Somália, Etiópia…). Isso quer dizer que se trata, antes de tudo, de uma questão de vida ou morte, de sobrevivência.
Depois, da parte dos “técnicos”, parece condenada ao fracasso a tentativa de separar nitidamente refugiados, prófugos e migrantes. De fato, se é verdade que, para os refugiados e prófugos, retornar ao país de origem significa, em geral, a perseguição, o cárcere ou até mesmo a morte, também é certo os chamados migrantes socioeconômicos, em sua terra natal, estão igualmente condenados a uma indigência endêmica, sem qualquer possibilidade de futuro. Pior ainda, convivem diariamente com uma morte a conta-gotas e sempre às portas. A desesperada busca de uma saída que leve em conta as condições mínimas para a defesa dos direitos e da dignidade humana não discrimina uns dos outros. Todos procuram um lugar ao sol!
Em terceiro lugar, por parte da população dos países de chegada, em maior ou menor grau, verifica-se um sentimento misto de solidariedade e rechaço, acolhida e preconceito, medo do outro e obrigação moral da hospedagem. Os “valores ocidentais” da cidadania e da convivência plural e pacífica contrastam com uma fobia mais ou menos oculta, difusa e disfarçada. Igual sentimento se reflete na ambiguidade das autoridades do Parlamento Europeu e dos governos dos respectivos países. Ao mesmo tempo que se multiplicam reuniões, encontros e promessas para distribuir os migrantes através de “quotas equitativas”, erguem-se muros fronteiriços (entre Sérvia e Hungria) e se restringe a entrada com uma legislação mais dura (Hungria, Inglaterra…). Não faltam, ainda, os movimentos e partidos de extrema direita, cujo discurso vai na linha da recusa pura e simples, ou de uma seleção dos refugiados “qualificados” (França, Itália…). Por fim, no interior das Igrejas, ONGs (organizações não governamentais), entidades ligadas aos direitos humanos ou instâncias semelhantes, transparece uma amarga e dolorosa sensação de impotência. Diante do afluxo cada vez mais caudaloso e permanente de imigrantes – tanto pela rota do Mediterrâneo quanto pela rota balcânica – qualquer coisa que se faça representará apenas uma gota de água num deserto ressequido.
O campo da mobilidade humana é vasto, variados são seus desafios e as forças sociais e humanitárias mais parecem formiguinhas insignificantes, tentando carregar um fardo maior que suas forças. Certo, de um ponto de vista evangélico, digamos, um sinal, um testemunho, uma pequena luz pode ser acesa em meio às sombras e à escuridão de tanta injustiça e assimetria social, econômica, política e cultural. Mas a sensação de impotência se agrava diante de determinadas imagens chocantes, como aquela criança morta na praia, os cadáveres à deriva nas ondas do mar ou o grande êxodo a pé de Budapest em direção a Viena. Migração é “sinal dos tempos” – dizem as declarações da Igreja – mas esse deslocamento atual, por suas dimensões, reclama uma ação mais ampla, conjunta e planejada entre Estados e sociedade civil.
Por: P. Alfredo Gonçalves, cs
Acontecer Migratório Vol. 38 Nº 9 – setembro 2015
Out 6, 2015 | Notícias, Recortes
Representantes de missionários que trabalham junto de fluxos migratórios em 32 países estiveram em Portugal
O padre Alfredo Gonçalves, vigário geral dos missionários scalabrinianos, afirmou hoje à Agência ECCLESIA que o “maior problema” da Europa diante dos fluxos migratórios é fazer um acolhimento “seletivo” de migrantes e refugiados.
“É verdade que o refugiado não pode voltar a atrás porque é perseguido, mas também é verdade que o migrante que foge da pobreza também não pode voltar a atrás porque está condenado à morte, a conta-gotas, porque não tem condições de sobrevivência no seu país”, afirmou
“Essa separação muito nítida entre refugiado e migrante é perigosa é uma armadilha”, afirmou o vigário geral dos missionários scalabrinianos no fim de uma reunião que decorreu no Turcifal, na Diocese de Lisboa, com representantes de sacerdotes que trabalham com migrantes e refugiados em 32 países.
Para o sacerdote madeirense, que integra o Governo-geral da Congregação cuja prioridade é trabalhar junto das populações migrantes, a Europa tem de “construir pontes, não muros” e admitir que vai precisar de “milhões de imigrantes”.
“A Europa, para continuar no nível em que está hoje, vai precisar dentro de alguns anos de milhões de imigrantes para continuar a manter o nível de vida que tem. Os países que vêm coisas a longo prazo acolhem imigrantes e tentam dar uma oportunidade de trabalho porque sabem que esse é o futuro. Os países que os afastam vão ter problemas consigo mesmos”, sublinhou.
O Encontro Internacional dos Missionários Scalabrinianos reuniu em Portugal os responsáveis pela formação de cerca de 500 candidatos ao sacerdócio na congregação, concluindo que é necessário “conhecer mais a sério” os fluxos migratórios.
“É um dos temas emergentes em toda a sociedade, particularmente na Europa. Ela emergiu com muita força e os formadores assumiram a responsabilidade de levar mais a sério o conhecimento atualizado do fenómeno das migrações: fluxos, tendências, causas e consequências das migrações no mundo inteiro”, adiantou.
A preparação “mais sólida” dos formadores de candidatos ao sacerdócio foi uma determinação deste encontro internacional, que iniciou no dia 20 de setembro.
PR
Out 6, 2015 | Notícias, Recortes
De uma forma muito mais ecológica — e digo-o porque com menos mortes de árvores, mas também porque mais eficaz para com os problemas das comunidades humanas onde essas questões cada vez se colocam de forma mais premente —, quem está no terreno, junto das comunidades, sabe muito bem que é no equilíbrio, no matiz entre o multi e o inter, que tudo se joga, num tabuleiro onde, mais que saberes teóricos, é com sensibilidades, com confiança e com compromissos que se constrói comunidade.
E o equilíbrio resulta daquilo que, mais uma vez, quem está no terreno muito bem sabe: um grupo precisa de definir identidade para manter amarras e coesão, trazendo o multicultural para o todo, muitas vezes como uma imposição, mas o colectivo mais largo que o grupo necessita que, para que haja diálogo, esse multi, em que cada parte se afirma pela diferença, se encontre no espaço comum, na ágora, na praça pública da cidadania onde se dá o intercultural, que resulta em choque, em confronto, e em mudança e adaptação de cada uma das partes, mas enriquece a todos.
Sem o multicultural não temos identidades e cada indivíduo poderá ser um órfão se a sua raiz for destruída, e o colectivo precisa que cada individualidade dê espaço aos indivíduos para tocarem no semelhante que é diferente, criando a interculturalidade. Pode parecer simples, mas a Europa anda com esta equação, este verdadeiro enigma matemático, há muito tempo sem conseguir chegar a uma solução minimamente satisfatória. A riqueza da diferença encontra-se nesse fio-de-prumo que nos indica um meio-termo imaginário entre a manutenção do específico através da afirmação da diferença e o comunitário que obriga, logicamente, a fazer concessões e abdicar de absolutos.
Foi com alguma apreensão que nos últimos dias fui para um debate na Apelação, Loures, que reunia um grupo de religiosos de várias tradições com implantação na freguesia, em torno da ideia Amar é cuidar. Era um debate centrado no lugar dos idosos na sociedade.
E ia com alguma apreensão porque os mais normais encontros de lideranças religiosas têm duas características fundamentais. Por um lado, são sempre os mesmos actores, os “presidentes”, o topo das hierarquias; por outro, esses debates são quase sempre em torno de ideias muito vagas, direccionadas para conceitos fundamentais como a Paz, mas libertos de qualquer amarra ao mundo das pessoas e dos colectivos que ouvem tão doutos líderes. O meu papel, que também se repete, é o do académico, a pessoa conhecedora e isenta que pode ser um garante de diálogo e respeito — a minha tarefa é sempre muito fácil de cumprir.
Mas no fim-de-semana passado, na Apelação, o desafio era o de nos amarrar ao concreto, a questões que importunavam os ouvintes: os idosos maltratados, os idosos abandonados, vigarizados, ostracizados. A organização da autarquia de Loures tudo tinha articulado para nos conduzir para respostas e não para ideias vagas, começando pelo primeiro momento desse evento: uma peça de teatro apresentada por um punhado de jovens do bairro, um bairro complicado e problemático, o Teatro Ibisco, que nos mostrou, de forma muito directa, a violência sobre os idosos. O mote estava lançado. O debate seria sobre o concreto.
E fez-se multiculturalidade porque cada grupo, cada líder religioso, levou a sua experiencia, a sua forma de lidar com as situações; mas também se fez interculturalidade porque o grande apelo transversal todo foi o do comum, da comunidade, dos gestos e das práticas que salvaguardam os direitos dos idosos no seu geral.
Nos tempos que correm em que a família alargada que herdámos de séculos e séculos de vida em comunidade já quase não existe, foi especialmente significativo ouvir a experiencia da comunidade cigana através da Igreja Cigana Filadélfia. Com tantas diferenças encerradas em muros que erguemos em torno da imagem de “cigano”, ali todos percebemos que, para as comunidades ciganas, os idosos ainda são os anciãos, os que são ouvidos e respeitados, os que são procurados para conselho. Não há abandono de idosos, dando a todos nós uma lição de dignidade que nos obriga a quebrar os referidos muros.
Mas o evento não se esgotava neste debate. No dia seguinte, domingo, enquadrada nas Festas da Sra. da Fonte, católica, voltou-se a fazer o multi e o inter cultural. A procissão deixou de ser normal e juntou-se a uma marcha cívica em que se misturavam cânticos religiosos, com frases emblemáticas de cidadania, empunhadas como se uma manifestação silenciosa fosse. Os principais actores, na sua coragem, foram as crianças.
No fim, ao bom gosto mediterrânico, regressando à frase de Homero no final do Canto I da Ilíada, ouve uma refeição comunitária, onde todos são iguais. A comunidade cigana, a guineense, a cabo-verdiana, entre outras, partilharam a cozinha e serviram mais de 700 refeições marcadas pelas suas gastronomias. Todos comeram a um preço simbólico do prato e dos sabores do vizinho do lado. Um vizinho tantas vezes olhado com desconfiança, mas aqui alguém que alimentou.
Tudo foi possível graças às comunidades religiosas do bairro, à Pastoral dos Ciganos, à autarquia de Loures e à Junta de Freguesia da Apelação, e a tantos como eu que, com as suas especificidades, passaram umas boas horas de forma diferente, a olhar para um rol imenso de “outros”, percebendo melhor o que é a multiculturalidade e a interculturalidade.
Um oikos é isso, a reunião das individualidades numa dimensão de comum. É assim que se faz Comunidade.
02.10.2015 – Paulo Mendes Pinto, in lifestyle.publico.pt/religiaonacidade
Set 21, 2015 | Recortes, Refugiados
O papa denuncia: “As atrocidades na Síria e no Iraque estão debaixo do nariz de todos. Ninguém pode fingir que não sabe!”
Na reunião do Cor Unum, o papa denuncia a falta de resposta para os dramas internacionais no Médio Oriente: “Enquanto isso, os traficantes de armas continuam lucrando”
Por Salvatore Cernuzio
Cidade do Vaticano, 17 de Setembro de 2015 (ZENIT.org)
Um “oceano de dor” inunda hoje a Síria e o Iraque, onde as “terríveis consequências” do conflito estão destruindo as populações civis e o patrimônio cultural enquanto a comunidade internacional “não consegue encontrar respostas adequadas” para essas tragédias e “os traficantes de armas – armas banhadas em sangue inocente – continuam lucrando”.
As palavras vigorosas do papa ressoaram diante dos participantes do encontro organizado pelo Pontifício Conselho Cor Unum sobre a crise humanitária na Síria e no Iraque. A cúpula reúne em especial as organizações caritativas católicas que atuam no Oriente Médio, bem como os bispos da região.
O papa vai direto ao ponto e denuncia o “preocupante estado de necessidade urgente” que oprime milhões de pessoas “forçadas a deixar suas terras de origem”. Países como Líbano, Jordânia e Turquia “carregam hoje o peso dos milhões de refugiados” generosamente acolhidos. O cenário trágico se estende “perturbando o equilíbrio interno e regional”.
Mesmo assim, a comunidade internacional parece não agir, afetada talvez pela “globalização da indiferença” que impede as respostas adequadas. “Diferentemente do passado, as atrocidades e violações inauditas dos direitos humanos são hoje espalhadas pela media em tempo real. Estão debaixo do nariz do mundo inteiro. Ninguém pode fingir não saber! Todos estão cientes de que esta guerra pesa de modo cada vez mais insuportável nos ombros dos pobres”, afirmou o papa, instando a uma solução que não seja a violência, “porque a violência só causa novas feridas”.
Francisco manifesta a sua gratidão ao Cor Unum e às outras organizações de caridade pela assistência e conforto levado às vítimas da crise na Síria, no Iraque e nos países vizinhos. O papa as encoraja a prosseguir neste compromisso, com “especial atenção às necessidades materiais e espirituais dos mais frágeis e indefesos”: famílias, idosos, doentes, crianças.
As crianças, junto com os jovens, são a “esperança do futuro”, mas estão “privadas de direitos fundamentais: crescer na serenidade da família, ser cuidadas, brincar, estudar. Milhões de crianças, com o conflito, são privadas do direito à educação e, consequentemente, veem o horizonte do seu futuro se ofuscar. Não deixem faltar o seu compromisso nesta área tão vital”, pediu Francisco. Também não se podem “deixar de mencionar os graves danos às comunidades cristãs na Síria e no Iraque, onde muitos irmãos e irmãs são perseguidos por causa da sua fé, expulsos de suas terras, mantidos em cativeiro e até assassinados”.
Por sua vez, a Igreja não mostra sinais de rendição apesar dos muitos ataques e perseguições que sofre: ela reage “testemunhando Cristo com coragem, através da presença humilde e fervorosa, do diálogo sincero e generoso e do serviço em favor de qualquer pessoa que sofra ou passe necessidade, sem distinções”.
A Igreja cumpre assim a “vocação a responder ao mal com o bem, promovendo o desenvolvimento humano integral”. Os católicos podem responder reforçando a “cooperação intra-eclesial e os vínculos de comunhão que os unem às outras comunidades cristãs”, além de “colaborar com as instituições humanitárias internacionais e com todos os homens de boa vontade”
O encorajamento do papa é a “continuar no caminho da cooperação e da partilha, trabalhando em conjunto, em sinergia. Por favor: não abandonem as vítimas desta crise, mesmo que as intenções do mundo esmoreçam”, exortou Francisco, pedindo que a sua mensagem “de profunda e solidária vizinhança chegue àqueles que enfrentam a provação” e assegurando a sua oração incessante “pela paz e pelo fim dos tormentos e das injustiças em suas terras amadas”.
Jul 31, 2015 | Notícias, Recortes
O governo português aprovou uma nova lei que decide alargar a cidadania portuguesa para quem nasceu no estrangeiro, desde que tenha pelo menos um avô que possua cidadania portuguesa. A nova lei, aprovada no parlamento durante a sessão de ontem, 29 de julho, indica que basta ter um avô de nacionalidade portuguesa para se ter direito à escolha da cidadania lusa, mesmo quando se nasce no estrangeiro. Esta emenda na Lei da Nacionalidade vem na sequência de outra, ocorrida em maio deste ano, onde foi decidido garantir a nacionalidade portuguesa a quem nascesse no estrangeiro, desde que descendendo, em segundo grau, de cidadãos portugueses.
Segundo a nova lei, no parágrafo d) do Artigo 1, pessoas que nasceram no estrangeiro, mas que tenham, pelo menos, um ascendente português em segundo grau directo, e que não tenha perdido a cidadania portuguesa, passam a ser também portugueses. Para se fazer o requerimento desta nacionalidade, que não será delegada automaticamente, é necessário um atestado que comprove a vontade da pessoa em obter a nacionalidade portuguesa, para além de ter também de provar que existem laços com a comunidade portuguesa. Depois de passar estes dois passos, a nacionalidade é obtida após um registo em qualquer conservatória portuguesa de Registo Civil.
Esta nova lei ainda necessita de consentimento e assinatura final por parte do Presidente da República, e só depois entrará oficialmente em vigor. O Governo espera assim conseguir aumentar o número de portugueses espalhados pelo mundo em cerca de 1 milhão e manter os laços da comunidade nacional que decidiu procurar uma vida melhor no estrangeiro.
São mais de 5 milhões os emigrantes espalhados pelo mundo, com especial ênfase em países como França, Suíça, Alemanha e Luxemburgo, mas também em locais remotos, como Bermudas ou Venezuela. Segundo um census realizado em 2011 nos Estados Unidos, estima-se que existe naquele país cerca de 1.4 milhões de habitantes com ascendência portuguesa. Será natural que este número aumente exponencialmente depois da nova lei entrar em vigor, aumentado assim o número de cidadãos portugueses espalhados pelo mundo.
http://pt.blastingnews.com/internacional/2015/07/mais-de-1-milhao-de-netos-de-emigrantes-terao-direito-a-cidadania-portuguesa-00494807.html
Mai 28, 2015 | Campanhas, Recortes
Lisa Kristine: Fotos que testemunham a escravatura nos tempos modernos.
Um documentário impressionante sobre uma realidade que se esconde num mundo paralelo.
https://www.ted.com/talks/lisa_kristine_glimpses_of_modern_day_slavery?language=pt