(00 351) 218 855 470 ocpm@ecclesia.pt
De Povo acolhido a Povo acolhedor

De Povo acolhido a Povo acolhedor

COMUNICADO DE IMPRENSA

Em Brescia (Itália), no Centro Paulo VI, reuniram-se de 19-23 de outubro, 55 agentes pastorais – sacerdotes, religiosos e leigos – comprometidos nas comunidades católicas de língua portuguesa na Europa. Desenvolvem a sua missão em 7 países: Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica, França, Portugal, Reino Unido.

Lembrando as situações históricas de acolhimento de que a emigração lusófona beneficia, desde o início dos anos sessenta até aos nossos dias, sentimos como dever tudo fazer no sentido de que o atual êxodo forçado de migrantes e refugiados que procura a Europa, fugindo à guerra, à perseguição, à fome e à morte, seja acolhido com dignidade e humanidade num espírito generoso de partilha.

Assim sendo:

– regozijamo-nos com a grande mobilização da sociedade civil – informal e organizada – e das organizações cristãs, em vista de um acolhimento concreto de emergência e prática de gestos de boas-vindas a todos, independentemente da futura atribuição ou não do estatuto de refugiado;

– comprometemo-nos a continuar a sensibilização e a informação das nossas comunidades de língua portuguesa e dioceses onde estamos inseridos para atitudes e comportamentos solidários, recusando todas as ideologias alarmistas que espalham o pânico e defendem preconceitos e nacionalismo exacerbado, impedindo a abertura intercultural e a filosofia do encontro com o outro.

– exortamos a União Europeia a elaborar uma política comum de migração e de asilo solidárias, entre todos os países-membros, que seja sinal de empenho na justiça e na paz, defendendo, antes de tudo, o valor da pessoa humana e da família;

De comunidades acolhidas queremos continuar a construir comunidades que acolhem a todos, servem os mais vulneráveis da sociedade, dialogam com o diferente e vêem na diversidade cultural e religiosa um sinal dos tempos a discernir para a construção da única família humana.

 

Brescia, 21 de outubro de 2015

«Ninguém pode fingir que não sabe»

«Ninguém pode fingir que não sabe»

O papa denuncia: “As atrocidades na Síria e no Iraque estão debaixo do nariz de todos. Ninguém pode fingir que não sabe!”

Na reunião do Cor Unum, o papa denuncia a falta de resposta para os dramas internacionais no Médio Oriente: “Enquanto isso, os traficantes de armas continuam lucrando”

Por Salvatore Cernuzio

Cidade do Vaticano, 17 de Setembro de 2015  (ZENIT.org)

Um “oceano de dor” inunda hoje a Síria e o Iraque, onde as “terríveis consequências” do conflito estão destruindo as populações civis e o patrimônio cultural enquanto a comunidade internacional “não consegue encontrar respostas adequadas” para essas tragédias e “os traficantes de armas – armas banhadas em sangue inocente – continuam lucrando”.

As palavras vigorosas do papa ressoaram diante dos participantes do encontro organizado pelo Pontifício Conselho Cor Unum sobre a crise humanitária na Síria e no Iraque. A cúpula reúne em especial as organizações caritativas católicas que atuam no Oriente Médio, bem como os bispos da região.

O papa vai direto ao ponto e denuncia o “preocupante estado de necessidade urgente” que oprime milhões de pessoas “forçadas a deixar suas terras de origem”. Países como Líbano, Jordânia e Turquia “carregam hoje o peso dos milhões de refugiados” generosamente acolhidos. O cenário trágico se estende “perturbando o equilíbrio interno e regional”.

Mesmo assim, a comunidade internacional parece não agir, afetada talvez pela “globalização da indiferença” que impede as respostas adequadas. “Diferentemente do passado, as atrocidades e violações inauditas dos direitos humanos são hoje espalhadas pela media em tempo real. Estão debaixo do nariz do mundo inteiro. Ninguém pode fingir não saber! Todos estão cientes de que esta guerra pesa de modo cada vez mais insuportável nos ombros dos pobres”, afirmou o papa, instando a uma solução que não seja a violência, “porque a violência só causa novas feridas”.

Francisco manifesta a sua gratidão ao Cor Unum e às outras organizações de caridade pela assistência e conforto levado às vítimas da crise na Síria, no Iraque e nos países vizinhos. O papa as encoraja a prosseguir neste compromisso, com “especial atenção às necessidades materiais e espirituais dos mais frágeis e indefesos”: famílias, idosos, doentes, crianças.

As crianças, junto com os jovens, são a “esperança do futuro”, mas estão “privadas de direitos fundamentais: crescer na serenidade da família, ser cuidadas, brincar, estudar. Milhões de crianças, com o conflito, são privadas do direito à educação e, consequentemente, veem o horizonte do seu futuro se ofuscar. Não deixem faltar o seu compromisso nesta área tão vital”, pediu Francisco. Também não se podem “deixar de mencionar os graves danos às comunidades cristãs na Síria e no Iraque, onde muitos irmãos e irmãs são perseguidos por causa da sua fé, expulsos de suas terras, mantidos em cativeiro e até assassinados”.

Por sua vez, a Igreja não mostra sinais de rendição apesar dos muitos ataques e perseguições que sofre: ela reage “testemunhando Cristo com coragem, através da presença humilde e fervorosa, do diálogo sincero e generoso e do serviço em favor de qualquer pessoa que sofra ou passe necessidade, sem distinções”.

A Igreja cumpre assim a “vocação a responder ao mal com o bem, promovendo o desenvolvimento humano integral”. Os católicos podem responder reforçando a “cooperação intra-eclesial e os vínculos de comunhão que os unem às outras comunidades cristãs”, além de “colaborar com as instituições humanitárias internacionais e com todos os homens de boa vontade”

O encorajamento do papa é a “continuar no caminho da cooperação e da partilha, trabalhando em conjunto, em sinergia. Por favor: não abandonem as vítimas desta crise, mesmo que as intenções do mundo esmoreçam”, exortou Francisco, pedindo que a sua mensagem “de profunda e solidária vizinhança chegue àqueles que enfrentam a provação” e assegurando a sua oração incessante “pela paz e pelo fim dos tormentos e das injustiças em suas terras amadas”.

«O que fizeste do teu irmão»

«O que fizeste do teu irmão»

Nota da CNJP sobre o acolhimento de refugiados

1. Somos hoje confrontados com o mais grave êxodo de refugiados na Europa desde os tempos da 2ª Guerra Mundial. De um modo geral, estas pessoas são vítimas da guerra, da opressão ou da miséria extrema. O desespero e a vontade de salvar as suas vidas e de assegurar um futuro para as suas famílias levou-as a efetuar viagens em condições desumanas, muitas vezes à mercê de associações criminosas. Não são potenciais terroristas; pelo contrário, muitas delas fogem da violência gerada pelo fundamentalismo.

Quando estas pessoas nos batem à porta, não podemos reagir com indiferença. São nossos irmãos e irmãs, membros da única família humana, que reclamam a nossa ajuda.

Como já por muitos foi afirmado, trata-se de um desafio à Europa como comunidade de valores: os das suas raízes cristãs, que encontram reflexo no respeito pela dignidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais. As palavras da Bíblia, palavra de Deus e código da cultura europeia, vêm a propósito: «Que fizeste do teu irmão?» (Gen 4,9); «Sempre que fizeste isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizeste» (Mt 25, 40).

2. Ser fiel às raízes cristãs da cultura europeia não pode reduzir-se a uma proclamação formal, ou à conservação de sinais externos. É, acima de tudo, adotar comportamentos coerentes com a mensagem cristã. Não há essa coerência quando se recusa o acolhimento de refugiados por estes não partilharem a fé cristã. A defesa da identidade europeia não pode servir de pretexto para distinguir entre refugiados cristãos perseguidos por causa da sua fé (como são, na verdade, alguns deles) e outros refugiados. A novidade do cristianismo reside no amor universal, que não faz aceção de pessoas, que não se limita aos círculos da família, do clã, dos amigos ou da nação.

3. É verdade que também entre nós há quem passe por dificuldades e situações graves de pobreza. Mas as situações de onde fogem estes refugiados, que os fazem assumir os riscos que assumem, são, de um modo geral, muito mais graves do que aquelas com que nos deparamos em Portugal.

Não pode, por isso, contrapor-se a solidariedade para com estes refugiados à solidariedade que continua a ser devida aos portugueses que sofrem: uma não exclui a outra.

4. A Europa não pode pretender ser um oásis de paz e prosperidade, protegido por fronteiras ou muros, num mundo onde prevalece a guerra e a pobreza. No mundo globalizado de hoje, o que acontece no Médio Oriente em África ou noutras zonas do globo tem sempre repercussão na Europa, e este êxodo de refugiados comprova-o.

Por isso, o imperativo do acolhimento destes refugiados responde a uma situação de emergência, que não pode levar-nos a esquecer a importância de atacar na raiz os problemas que estão na origem deste êxodo; guerras, violações de direitos humanos, miséria extrema.

De modo especial e de imediato, há que buscar incessantemente o fim das guerras de onde fogem estes refugiados: na Síria, no Iraque, na Líbia ou no Sudão. Para tal, há que, antes de tudo, mobilizar todos os esforços diplomáticos da comunidade internacional e pôr termo ao fornecimento de armas que alimenta tais guerras.

Não podemos ignorar os apelos de representantes das Igrejas presentes na Síria e no Iraque, preocupados com o fim da presença secular dos cristãos nesses países. A solução definitiva não passa, pois, pela fuga contínua.

5. Este drama dos refugiados tem suscitado em muitos países europeus um movimento espontâneo de solidariedade que envolve pessoas de diferentes convicções. Está a vir ao de cima uma generosidade que parecia escondida nas nossas sociedades marcadas pelo egoísmo e onde se temem os perigos do recrudescer do racismo e da xenofobia.

Os católicos são interpelados pelos apelos vibrantes do Papa Francisco: que cada paróquia acolha, pelo menos, uma família de refugiados.

Já noutros períodos da sua história, o povo português deu provas de generosidade no acolhimento de refugiados.

Entre nós, foi constituída a Plataforma de Apoio aos Refugiados (www.refugiados.pt). A Comissão Nacional Justiça e Paz aderiu a esta plataforma e apela a que todos com ela colaborem.

É importante que este espírito cresça cada vez mais, para além das emoções do momento, no âmbito de uma educação para a cidadania solidária, e se mantenha vivo mesmo diante das dificuldades que o acolhimento destes refugiados possa vir a trazer no futuro.

Lisboa, 14 de setembro de 2015

www.ecclesia.pt/cnjp