Nov 11, 2019 | Artigo, Recortes
Num estilo cativante, muito falador e sempre a pedir mais tempo à organização da conferência “Com os pobres”, que está a decorrer no Centro Cultural Franciscano, em Lisboa, o cardeal Juan José Omella, arcebispo de Barcelona, foi direto ao assunto: “A terra é de todos e é uma injustiça que se passe fome”.
Toda a intervenção do cardeal Omella andou à volta do conceito “opção preferencial pelos pobres”, uma expressão, que explicou, nasceu na América Latina em meados do século passado e que, para o arcebispo de Barcelona, “é o mesmo que o amor”, é “sair de si próprio e amar o outro”.
O cardeal Omella, perante vários elementos da hierarquia da Igreja Católica portuguesa presentes na sala, referiu que “no começo da Igreja estão os pobres, os doentes”, deixando como o exemplo aquilo que tem visto quando vai o Vaticano.
“Quantas vezes se vai ao Vaticano e agora, mais do que nunca, se veem os pobres a andar por ali pela colunata de Bernini e pela Praça de São Pedro e antes não se viam? São seres humanos, que estão esquecidos”, notou. Depois, alertou que “todos como sociedade” têm “de reagir” e que os pobres vão sendo esquecidos “porque incomodam”.
Dos avisos e recados não ficou de fora a própria Igreja. O cardeal Omella lembrou que “quando os bispos são ordenados uma das perguntas que fazem é ‘queres ser pai dos pobres?’, e todos dizem que sim, na catedral”. “Só que depois, na rua, quando encontram um pobre dizem ‘ai, rapaz, deixa-me'” – ou seja, “o pobre incomoda”, ficando esquecida “a promessa” feita de “amor preferencial aos pobres”.
A diferença entre a pregação e a prática ficou ainda patente noutra parte do discurso de Omella, que admitiu que se fazem “artigos óptimos” sobre pobreza, mas “na vida concreta custa mais”, desafiando a que se passe “da reflexão” para a “ação”.
O cardeal referiu que é necessário “atacar, denunciar, as causas e as raízes da pobreza”, dando como exemplos as existentes “falta de justiça e de solidariedade”, dizendo-se “indignado” pela maneira como a Europa está a tratar os migrantes que chegam todos os dias ao continente.
Durante a intervenção, o arcebispo de Barcelona referiu que se indigna com as pessoas que dizem que, perante a “avalanche de imigrantes”, não se pode acolhê-los, mas, admitindo que quem o diz “até tem razão”, coloca porém a questão: “O que foi feito, o que está a fazer-se para que não tenham de sair de onde estão?”.
Sempre num estilo peculiar, o cardeal Omella atirou ainda que uma “injustiça enorme é morrer de fome”, para concluir que injustiça também é “o dinheiro que se gasta para perder quilos”, ressalvando logo que lhe “perdoem os que estão gordos, não é porque comam, é porque é biológico”, provocando gargalhadas na plateia pelo humor usado.
De forma mais séria, o arcebispo de Barcelona terminou resumindo que há quem na sociedade vá a centros de emagrecimento “enquanto outros não têm o que comer”, o que é “uma injustiça”.
Na intervenção de mais de uma hora, o cardeal Omella disse ainda que “é preciso sensibilizar a sociedade para responder aos problemas, ajudar os pobres a sair daquela situação”, dando como soluções “a reinserção social, que os pobres sejam os protagonistas do seu próprio desenvolvimento”. E mais, “caminhar com eles”, concluiu o cardeal.
E foi ainda deixado outro desafio à plateia. Em vez de fazer-se a pergunta “onde está Deus?” quando se vê a pobreza no mundo, o cardeal Omella propõs que se coloque a questão “onde estamos nós? onde estás tu?”, promovendo no fundo uma responsabilização de cada um pela solução ou alívio do problema.
https://rr.sapo.pt/2019/11/09/religiao/arcebispo-de-barcelona-esquecemos-os-pobres-porque-incomodam/noticia/171133/
Out 30, 2019 | Artigo, Recortes, Santa Sé
Por Ana Varela
Artigo publicado no ponto SJ
https://pontosj.pt/opiniao/angels-unawares-nao-se-trata-apenas-de-migrantes/
No passado dia 29 de setembro, celebrou-se na Praça de S. Pedro a Santa Missa para o 105.º dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Esta celebração foi realizada em união com os fiéis de todas as dioceses do mundo, para reafirmar a necessidade de que ninguém seja excluído da sociedade, seja um cidadão residente de longa duração ou alguém recém-chegado.
Tive a alegria de estar presente, com a minha família, junto de milhares de peregrinos de diferentes nacionalidades, que coloriram a Praça com a riqueza e o entusiasmo contagiante da diversidade. Senti-me também muito grata por esta oportunidade. Pois, sendo católica e tendo o privilégio de servir desde há vários anos migrantes e refugiados em Portugal, a participação nesta celebração teve ainda um significado mais profundo.
Estava uma manhã quente e clara, aguardámos sob um sol intenso, num clima de festa e recolhimento, próprios das grandes celebrações presididas pelo Papa Francisco. Em redor, logo escutámos o nosso idioma, peregrinos de Portugal e de países lusófonos, junto de peregrinos que viajaram de muitos outros países para participar nesta celebração e muitos imigrantes e refugiados residentes em Itália. Aguardávamos todos com grande expectativa, a homilia e a mensagem do Papa para este dia especial, que neste ano teve como tema: “Não se trata apenas de migrantes”. Sabíamos que iríamos, uma vez mais, ser interpelados pelas suas palavras e ações. Mas fomos surpreendidos também.
O Evangelho lido nesse dia foi a parábola do rico e de Lázaro (Lc 16, 19-31): Um homem rico, muito ocupado em comprar roupas elegantes e em organizar esplêndidos banquetes, não vê o pobre Lázaro coberto de chagas à sua porta, que bem desejava saciar-se com o que caía da sua mesa. Quando ambos faleceram, Lázaro foi consolado e o rico ficou em tormentos.
Esta parábola pode ser vista como uma metáfora do nosso tempo, que nos deveria convidar à conversão. O Papa referiu, com tristeza, que o mundo atual vai-se tornando, dia após dia, mais elitista e cruel para com os excluídos. Enquanto em alguns países se vive como o homem rico, numa cultura de descarte, com todas as comodidades e abundância de bens e de alimentos, que se desperdiçam e acabam, não raras vezes, no lixo, noutros países de baixo rendimento, continuam milhares a viver na miséria e a morrer à fome, como o pobre Lázaro da parábola. Neste mês de Outubro, em que se assinala no dia 17 o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, dá que pensar que desde há muito conhecemos esta situação de injustiça e sabemos que é possível erradicar a fome no mundo. Aliás, “Erradicar a pobreza” é o objetivo número um da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável (Agenda 2030) e “Erradicar a fome” é o segundo objetivo.
Enquanto isso, continuam a perecer milhares de homens, mulheres e crianças por falta de alimento e de subnutrição, em países mais pobres. Continuam ainda a abater-se guerras apenas sobre algumas regiões do mundo, enquanto as armas para as fazer são produzidas e vendidas noutras regiões, que depois erguem muros e pagam se preciso for para manter os refugiados bem longe da porta. Descartar ilustra ainda a ideia de exploração até ao limite de pessoas e de recursos naturais, para os colocar ao serviço de uns poucos mercados, somando a emergência climática à emergência humanitária. Não apenas o planeta está poluído pelos excessos e despojos do descarte, mas o próprio coração. E «quem sofre as consequências são sempre os pequenos, os pobres, os mais vulneráveis, a quem se impede de sentar-se à mesa deixando-lhe as “migalhas” do banquete» (homilia do Papa Francisco, 29 de setembro).
O Papa Francisco alertou uma vez mais para a “globalização da indiferença” e incapacidade de empatia, de compaixão, de verter lágrimas e chorar perante o sofrimento dos nossos irmãos mais pobres e excluídos. Os migrantes são uma oportunidade de conversão, ajudam-nos a ler os “sinais dos tempos” e estar atentos aos dramas de velhas e novas pobrezas. Ajudam-nos a libertar-nos do elitismo e da discriminação de quem não pertence ao “nosso grupo”, da indiferença e da cultura do descarte.
Esta parábola pode ser vista como uma metáfora do nosso tempo, que nos deveria convidar à conversão. O Papa referiu, com tristeza, que o mundo atual vai-se tornando, dia após dia, mais elitista e cruel para com os excluídos.
Assim, não se trata apenas de migrantes e refugiados, mas também de pessoas vulneráveis em geral. Trata-se de vencer os nossos medos, trata-se de caridade, trata-se da nossa humanidade, trata-se de não excluir ninguém, trata-se de colocar os últimos em primeiro lugar, trata-se da pessoa toda e de todas as pessoas, trata-se de arregaçar as mangas e empenhar-se seriamente na construção de um mundo mais justo, onde todos possam ter acesso aos bens da terra, todos possam realizar-se como pessoas e como famílias e onde a todos seja garantida a dignidade e os direitos fundamentais da pessoa humana.
Após a oração do Ângelus, o Papa Francisco confiou ao amor materno de Maria, Nossa Senhora da Estrada – Nossa Senhora das inúmeras estradas dolorosas –, os migrantes e os refugiados, juntamente com os habitantes das periferias do mundo e quantos se fazem seus companheiros de viagem. Depois, quis saudar a multidão reunida para esta celebração e percorreu no papamóvel a Praça de São Pedro. Era um momento muito aguardado por todos e sempre emocionante, ver o Papa de perto, saudar e ser abençoado/a por ele. Passou muito próximo de nós, com um sorriso no rosto. Seguidamente, desceu do papamóvel e avançou para um grande volume, coberto por um pano. Quando este foi retirado, revelou a escultura de uma barca, sobrelotada de pessoas migrantes e refugiadas em tamanho real, de diversas idades, contextos étnicos e culturais e diferentes tempos históricos. Nesta barca parece viajar a própria humanidade. Não há leme, mas existe esperança. De entre os migrantes, erguem-se duas asas – uma referência à Carta aos Hebreus: «Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» (Heb 13,2).
Confesso que fiquei maravilhada desde o primeiro momento em que vi a obra “Angels Unawares” surgir à luz do dia. Soube depois que a escultura de bronze e argila, da autoria do escultor canadiano Timothy Schmalz, foi uma sugestão do recém Cardeal Michael Czerny – cujo brasão tem também o símbolo de uma barca com migrantes e refugiados. Este forte simbolismo faz todo o sentido, pois o Mar Mediterrâneo é atualmente a fronteira mais mortífera e perigosa do mundo. Nos últimos seis anos, mais de 14 mil pessoas, homens, mulheres e crianças (catorze mil!) perderam a vida no Mediterrâneo. Neste ano, entre janeiro e outubro, mais de mil pessoas já perderam a vida a tentar chegar à Europa, sendo que uma em cada 28 pessoas que tentou esta travessia morreu (dados da Organização Internacional das Migrações). As condições em que as travessias ocorrem estão a piorar aumentando o risco. De acordo com o porta-voz da OIM, Leonard Doyle, que classificou esta situação com “carnificina no mar”, as mortes «devem-se, em certa medida, ao endurecimento das atitudes, o aumento das hostilidades com os migrantes, que fogem da violência e da pobreza». O Papa explicou que foi seu desejo que a obra ficasse na Praça de São Pedro, para que recorde a todos o desafio evangélico da hospitalidade.
Desde o início do seu pontificado (2013), com a viagem a Lampedusa, passando pelo desafio lançado ao acolhimento de uma família de refugiados em cada comunidade cristã (2015), até ao presente, o Papa Francisco tem sido consistente e até mesmo insistente na necessidade de acolhimento de migrantes e refugiados. Não o faz decerto por teimosia, mas movido pela fé e compaixão de quem continua a ver o pobre Lázaro às portas da Europa. Se quisermos salvar-nos, não podemos esquecer a nossa humanidade e quem somos, não podemos não chorar perante a dor e a injustiça, não acolher e não amar os Lázaros deste mundo, tocando as suas feridas e saciando a sua fome. Somos chamados a restaurar a sua humanidade, junto com a nossa, sem excluir ninguém, sem deixar ninguém de fora.
Out 9, 2019 | Artigo, Dioceses, Migrantes
Observações sobre a migração em Portugal
A convite da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM) e da Caritas Portuguesa, na data de 23 a 29 de setembro/2019, fizemos um giro por algumas regiões e dioceses de Portugal. O programa incluía a visita à sede da Conferência Episcopal, em Lisboa, para entrevista com a rádio ecclesia e com a rádio renascença; espaço aberto no programa “tarde em família”, do canal Canção Nova de televisão, no Santuário de Fátima; lançamento do livro “Mala da Partilha”, na Assembleia Legislativa de Santarém e, na mesma cidade, reunião com um grupo de agentes pastorais da diocese, com a presença do bispo; visita a uma escola politécnica da cidade de Bragança, celebração em Amora, diocese de Setúbal…
Dessa experiência resultam algumas observações no que diz respeito ao tema da mobilidade humana. A primeira tem a ver com a história de Portugal como país de emigração, seja esta originária do território continental ou das ilhas atlânticas. Ao longo dos séculos, tem sido um povo em frequente diáspora, como tantos outros pelo mundo. Inúmeras pessoas e famílias deixaram o seu território, trocando-o por países como o Brasil, a Venezuela, os Estados Unidos, o Canadá, a Alemanha, a Inglaterra, a França, a Suíça, Luxemburgo, Bélgica, África do Sul, Angola, Moçambique, Austrália, entre outros.
Atualmente, enquanto a população de Portugal oscila em torno de 10 milhões de habitantes, estima-se em cerca de 5 milhões o número de portugueses que residem fora do país. Muitos deixaram a própria terra com o sonho de construir um futuro menos precário, tanto nos países centrais e mais desenvolvidos da Europa e América do Norte quanto em outras nações emergentes. Outros, sós ou acompanhados pela família, tentavam escapar ao recrutamento militar e às guerras pela manutenção das colônias africanas. Convém não esquecer que Portugal foi o último país a abandonar o sistema de colonialismo. Com isso, durante algumas décadas, sangrou sua juventude, ou nos referidos combates ou na fuga para escapar a eles.
Nas últimas décadas, contudo, especialmente com o fim da ditadura militar e do colonialismo, por uma parte, e com os vultosos investimentos da União Europeia, por outra, Portugal vem se tornando um país de atração, para o qual afluem considerável número de imigrantes. Entre os lugares de origem, destacam-se, em primeiro lugar, as ex-colônias, hoje países lusófonos da África: Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné. Mas também têm entrado em Portugal boa quantidade de brasileiros, romenos, ucranianos e de outros países do leste europeu. Para não poucos deles, Portugal é visto como lugar de passagem, trampolim para outros países da Europa e até para os Estados Unidos.
A grande maioria desses migrantes trabalha na construção civil, no emprego doméstico ou nos serviços em geral, tais como limpeza pública e privada, cuidado com idosos e/ou doentes, restaurantes e hotéis, lojas e bares, hortifrutigranjeiros, e assim por diante. Outros aventuram-se por conta própria, como autônomos, tanto no microcomércio quanto na venda ambulante dos mais diversos tipos de produtos. Um exemplo emblemático da presenta de estrangeiros em Portugal: das 700 crianças inscritas esse ano na catequese da Paróquia Bem-aventurado João Batista Scalabrini, em Amora, diocese de Setúbal, na grande Lisboa, ao redor da metade são filhas de imigrantes ou imigrantes elas mesmas.
Também é ilustrativo o caso de uma escola politécnica da cidade de Bragança, ao norte de Portugal, na fronteira com a Espanha. Ali promovemos um encontro com cerca de uma centena de alunos e professores. Esse estabelecimento de ensino contava no momento com nada menos do que 2 mil alunos, distribuídos em mais de 70 etnias distintas. Os alunos originam-se, entre outros lugares, das regiões lusófonas do continente africano, dos países do leste europeu, da América Latina e do Oriente Médio.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Rio de Janeiro, 2 de outubro de 2019
Set 30, 2019 | Artigo, Dioceses, Migrantes, Santa Sé

105º Dia Mundial Do Migrante e do Refugiado
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES
Trata-se de todos nós do presente e do futuro da família humana
O 105º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado – DMMR 2019, pela primeira vez celebrado a 29 de setembro, continua o seu firme propósito de sensibilizar para as potencialidades e necessidades do fenómeno migratório. O Santo Padre pede em primeiro lugar à Igreja, Povo de Deus, e também a todos os cidadãos de boa vontade, que se deixem interpelar pelo tema “Não se trata apenas de migrantes”.
Ao longo de sete meses a Secção Migrantes e Refugiados confiou às Conferências Episcopais do Mundo, uma campanha multimédia em diferentes línguas, a fim de que fosse amplamente difundida, a partir da palavra de Deus, do Magistério e de boas práticas, foi ilustrando que urge e é possível sonhar e construir um outro lugar, uma sociedade renovada.
A mensagem Pontifícia foi sendo apresentada gradualmente em subtemas, que vale a pena guardar e certamente nos acompanharão ao longo deste ano pastoral: trata-se dos nossos medos, da caridade, da nossa humanidade, de não excluir ninguém, de colocar os últimos em primeiro lugar, da pessoa toda e de todas as pessoas, no fim trata-se de um caminho que nos exorta à reflexão e conversão, a fim de que edifiquemos a cidade de Deus e do Homem, de forma consciente e comprometida.
Este itinerário que parte do pessoal, atravessa o comunitário até ao nível dos Estados-Nação, visa romper as diversas etapas dos conceitos de fronteira: nacionalismos populistas, leis restritivas e excludentes, xenofobia e racismo, medos, individualismos e indiferenças que atualmente se erguem e ameaçam o nosso futuro enquanto família humana.
Aceitando o desafio da Secção Migrantes e Refugiados – SMR, de colaborar com as Conferências Episcopais do Sul, a Comissão Episcopal da Pastoral Social Mobilidade Humana – CEPSMH, através das suas estruturas nacionais – Obra Católica Portuguesa de Migrações – OCPM e Cáritas Portuguesa, tomou a liberdade de convidar o Pe. Alfredo Gonçalves, sacerdote scalabriniano, e assessor para a mobilidade humana da Conferência Nacional de Bispos do Brasil, a proferir várias conferências para um público diversificado em várias Dioceses e a conceder entrevistas aos meios de comunicação social.
De 23 a 29 de Setembro, as dioceses de Setúbal, Bragança e Santarém com a colaboração de secretariados diocesanos de migrações e caritas diocesanas, puderam contar e beneficiar de uma grelha de leitura da mensagem do Papa, e um método para diagnosticar e tratar as migrações como uma oportunidade para o desenvolvimento pessoal, comunitário até à escala planetária.
No dia 24, em Setúbal na paróquia de Amora – salão da Igreja Scalabrini, o Pe. Alfredo Gonçalves apresentou aos paroquianos o seguinte itinerário: Trata-se da nossa identidade, trata-se de mudanças históricas, trata-se das desigualdades sociais, trata-se de uma legislação anti-migratória, trata-se da nossa casa comum.
No dia 27, em Bragança, no Instituto Politécnico: o itinerário proposto aos estudantes e professores de cursos profissionais foi o método dos 4 “R”. i) Rostos, ii) Rotas, iii) Raízes e iv) Respostas. Para cada ‘R’ existe uma pergunta que nos permite fazer o diagnóstico local e global: Quem são as pessoas? De onde vem para onde vão? Porquê se movem? Que respostas podem dar? E como fazê-lo?
Ao procurar responder a cada uma das perguntas resulta um diagnóstico que se traduz: numa fotografia – Quem? Num mapa – De onde? E para onde? e numa radiografia – Porquê? Que nos permite pensar e desenhar respostas adequadas às necessidades locais e globais, e perceber como podemos envolver e interligar os diversos atores essenciais: Estados, Sociedade Civil, ONG, Cidadãos Migrantes, Instituições Religiosas, na construção de um mundo mais justo e fraterno
No dia 28, em Santarém na presença do seu bispo, D. José Traquina, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, na sala dos Atos da Casa Diocesana, a conferência, manteve como pano de fundo a mensagem pontifícia, apresentando os desafios pastorais dela resultante. Em presença estiveram vários responsáveis nacionais e diocesanos pela pastoral dos migrantes, social e educação cristã.
Importa frisar que após uma breve contextualização histórica, concluímos que a questão social e a questão migratória enquanto objeto da solicitude da Igreja nascem juntas, o que nos conduz a entender e atuar sobre a complexidade migratória de forma articulada e colaborativa.
As migrações, embora sempre tenham existido, são sinal dos tempos hodiernos, e apenas a ponta do iceberg, de algo muito maior, intenso e complexo que nos permite de uma forma interdisciplinar perceber as mudanças e encruzilhadas sociais desta globalização que exclui, descarta e mata os mais vulneráveis.
Como ultrapassar as dimensões de fronteira? Como construir pontes? Para que as pessoas tenham direito a uma vida digna e justa? Como salvar as vidas ameaçadas por leis e nacionalismos exacerbados, por culturas e religiões que alimentam a xenofobia e o racismo, por medos, egoísmos e indiferença? Como criar consciências mais maduras, pessoas mais capazes de se abrir aos outros, relacionar-se sem medo do confronto e do diálogo? Enfim pessoas capazes de se aventurar e arriscar criando espaços físicos e mentais que permitam o encontro e o convívio, possibilitando pessoas mais capazes de se abrir ao transcendente.
O migrante foi-nos apresentado como critério de salvação é ele quem nos pergunta onde está a caridade, onde está a humanidade? É na medida que eu me envolvo/comprometo que eu me salvo.
A celebração deste DMMR, agora no início do ano pastoral é um convite e uma oportunidade para colocar verdadeiramente os migrantes e refugiados no coração da Igreja, isto é na nossa agenda pastoral Diocesana e paroquial, como anseia e exemplifica o Papa Francisco. Serve este dia para nos recordar a transversalidade das migrações com outros sectores da pastoral, reconhecendo força e a responsabilidade do trabalho colaborativo e interligado. A complexidade e a intensidade das migrações assim o exigem, é urgente romper fronteiras e construir pontes, dentro das nossas estruturas eclesiais.

As pessoas em contexto de mobilidade humana contribuem para nosso amadurecimento na fé e compromisso de transformação eclesial e social. Com elas aprendemos o dom e a riqueza da diversidade, seja através da nossa Diáspora portuguesa, de modo particular os que celebram 25, 40, 50 anos de vida comunitária, os que regressaram ou estão a ponderar regressar, os imigrantes que escolheram o nosso país para recomeçar, cuidar da saúde, realizar-se pessoal e profissionalmente, os estudantes internacionais, os refugiados e requerentes de asilo que buscam um lugar seguro, as vítimas de tráfico, deslocados internos.
Como nos diz o Santo Padre na sua imensa ternura e sabedoria: “Queridos irmãos e irmãs, a resposta ao desafio colocado pelas migrações contemporâneas pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Mas estes verbos não valem apenas para os migrantes e os refugiados; exprimem a missão da Igreja a favor de todos os habitantes das periferias existenciais, que devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Se pusermos em prática estes verbos, contribuímos para construir a cidade de Deus e do homem, promovemos o desenvolvimento humano integral de todas as pessoas e ajudamos também a comunidade mundial a ficar mais próxima de alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável que se propôs e que, caso contrário, dificilmente serão atingíveis.”
Santarém, 28 de setembro de 2019
Eugénia Costa Quaresma
Obra Católica Portuguesa de Migrações
Jul 12, 2019 | Artigo, Migrantes, Missões, Recortes, Refugiados
Migrações: Está a faltar o dever de «fraternidade e humanidade» no auxílio aos refugiados
Jul 12, 2019 – 7:00
Lisboa, 12 jul 2019 (Ecclesia) – A professora e investigadora sobre Migrações Maria Beatriz Rocha Trindade disse hoje que se está a faltar à “obrigatoriedade de humanidade, de fraternidade” com os refugiados, numa prática que deveria “ultrapassar as leis e decisões” nacionais.
“Os refugiados, o assunto é tomado pelas Nações Unidas depois de 1951, depois da II Grande Guerra Mundial, existe uma obrigatoriedade de humanidade, de fraternidade, de receber e de inserir, que ultrapassa as leis e as decisões do próprio país. Constitui uma obrigação, mas infelizmente assim não é na prática”, afirma a investigadora em entrevista à Agência ECCLESIA e à Renascença.
A acompanhar o fenómeno migratório há largas décadas, tendo fundado há 25 anos o Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais e autora de vasta bibliografia sobre o tema, a professora catedrática afirma a “criminalização da solidariedade” e o retrocesso civilizacional a que assistimos.
“Basta ver os nacionalismos que ganham suporte graças aos líderes desses movimentos que atacam justamente a receção, dizendo sempre que é em função da legalidade”, suporta.
Lamenta a investigadora que a “apetência” por Portugal como país de destino não corresponda, depois, ao acolhimento registado.
A socióloga e primeira antropóloga portuguesa destaca a ação “pioneira” da Igreja católica no auxílio aos emigrantes e às comunidades portuguesas na diáspora, “não de agora, mas desde sempre”, nas respostas que deu através das chamadas missões católicas, antecedendo até o papel do Estado.
“Eu acho que a Igreja é sempre um espaço de grande apoio mas são poucos os elementos para poder atender um público tão vasto”, indica.
A Igreja, diz, “não poderá fazer muito mais do que se esforça objetivamente por fazer, tentando dar apoio aos católicos e aos não católicos”.
“É um apoio aos humanos, é um apoio de solidariedade, de ouvir mais do que impor, e isto cada vez mais acho, que a atitude; é uma atitude de abertura e de diálogo, insisto, e não de exigência ou de imposição. Eu acho que é preciso também um olhar de justiça e não um permanente olhar de crítica, como é hábito ser feito muitas vezes”, afirma.
Em junho de 2012, em parceria com a atual diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações, Eugénia Quaresma, Maria Beatriz realizou um trabalho de investigação sobre os 50 anos deste serviço da Igreja católica.
“Apercebemo-nos que a Igreja sempre tinha procurado atender à mobilidade, desde a forma como interpretava e exprimia os conceitos, como se dirigia ao público-alvo para quem era realizada essa prática, às pessoas que deslocou, à forma como recebeu em Portugal, tentando integrar nos locais de origem os padres, das paróquias onde viviam os nossos emigrantes, todo um conjunto de práticas e interpretações que estiveram à frente do Estado”, sublinha.
A prática religiosa e a fé constituem para os emigrantes um “pilar” mas também uma “catálise de reencontros”.
“A fé é um pilar, mas também é uma catálise de reencontros, de reapropriação de tudo o que era seu, e que assim permanece como sendo seu, e por outro lado também é uma ponte de adaptação”, indica.
A investigadora e titular da Ordre National du Mérite, de França, com o grau de Chevalier, e da Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública, de Portugal, indica que o tempo e o espaço ajudam a analisar o fenómeno e a combater generalizações.
“A mobilidade que não pode ser traduzida por números mas que tem de ser olhada com um olhar de solidariedade, fraternidade, um olhar de homem para homem, de mulher para mulher, um olhar com uma certa compreensão que não se pode limitar unicamente à deslocação mas que tem de ser situada num contexto, naturalmente, económico e social, que produz essa mobilidade”, adverte.
Contra a generalização “que não corresponde à verdade”, Maria Beatriz Rocha Trindade esclarece que a emigração “de licenciados e formados” representa uma pequena parte no fenómeno português e que “muita mão-de-obra não qualificada” continua a sair.
Ainda sobre a importante reflexão e formação que a sociedade portuguesa necessita fazer no âmbito das migrações, a investigadora deu conta de um projeto apresentado à Unesco para uma Cátedra sobre Mobilidade e Direitos humanos, projeto este que viu anulado em janeiro deste ano.
Maria Beatriz Rocha Trindade destaca a importante formação que a sociedade portuguesa beneficiaria.
“Foi um projeto que nós construímos, com o propósito de modificar, tanto quanto possível, não tudo, mas os segmentos da sociedade em que pudéssemos atingir, e por algo que ninguém percebe não foi levado para a frente”, lamenta.
Ângela Roque (Renascença) e Lígia Silveira (Agência ECCLESIA)
LS
Migrações: Está a faltar o dever de «fraternidade e humanidade» no auxílio aos refugiados (c/áudio)
Jul 12, 2019 | Artigo, Documentos, Recortes
https://www.publico.pt/2019/07/09/sociedade/opiniao/francisca-van-dunem-maior-expressao-preconceito-racial-consiste-negacao-preconceito-1879342
Pensar, ponderar, analisar e acima de tudo, realizar estudos sobre os fenómenos do racismo, da xenofobia e da discriminação étnico-racial em Portugal, constitui uma necessidade imperiosa de uma sociedade que cresceu e se diversificou no plano étnico, no plano racial, no plano cultural. Felicito, por isso, a 1ª Comissão e, em particular a subcomissão para a igualdade e não discriminação por esta feliz e tão oportuna iniciativa.
Sem informação obtida através de estudos, inquéritos e análises aprofundadas e sérias sobre estas temáticas nunca chegaremos a conhecê-las na sua dimensão integral, sendo incontornável que estes fenómenos existem e atravessam, transversalmente todos os estratos da sociedade.
O relatório agora apresentado evidencia claramente essa necessidade de obtenção de informação estruturada, detalhada e atualizada. É redutor e pode ser indutor de erros que cada um de nós fundeie a sua opinião, apenas, em perceções e na análise da realidade limitada que conhece.
Tenho a perceção – que julgo partilhada por muita gente -, de que na população racial ou etnicamente diferenciada se inscrevem:
– Os economicamente mais desfavorecidos;
– Os que possuem os empregos com posições de mais baixa qualificação e consequentemente mais mal pagos;
– Os estudantes que apresentam taxas de reprovação e de retenção escolar mais elevadas e revelam maior abstenção escolar;
– Os cidadãos com taxas de inserção no ensino superior mais baixas;
– Os que registam uma maior taxa de encarceramento criminal;
– Os que residem na periferia da periferia, juntando-se em bairros que tendem a transformar-se em guetos, não só económico-sociais, mas também culturais.
Tenho, de igual modo, a perceção que essa realidade não é idêntica para as várias comunidades étnico-raciais que residem em Portugal. A discriminação é hierarquizada – existirão uns que estão mais no fim da cadeia do que outros. Ou seja, que o vivenciado pela comunidade negra, ou cigana, não é semelhante ao vivenciado, por exemplo, pelas comunidades de nepalesa, paquistanesa, da europa de leste, brasileira ou chinesa. No que diz respeito a estas últimas, a ideia que parece transparecer é a de que a sua inclusão, pelo menos do ponto de vista social e económico, se mostra um pouco menos difícil, apesar de não deixam de pertencer a grupos étnicos diferenciados.
Mas, será esta perceção correta ou ela resultará, tão só, do desconhecimento sobre a vivência destas comunidades? O que se passará em relação à islamofobia e ao antissemitismo? Qual a medida da sua existência e que repercussões tem na sociedade portuguesa?
A verdade é que, confesso, não gosto de formar juízos com base em perceções. Confio em factos e não simpatizo com presunções. Também por esta razão, me regozijo pela promoção e realização do trabalho que originou o relatório hoje aqui se apresentado e, mais ainda por a iniciativa partir dos eleitos do povo.
Sobre estas temáticas relacionadas com o racismo, a xenofobia e a discriminação étnico-racial tende a recair um enorme manto de silêncio. Tanto quanto me é dado a conhecer, são realizados alguns estudos sectorais, mas não se encontra disponível informação ampla e abrangente, suscetível de ser cruzadas e trabalhada, com base na qual se possa extrair conclusões seguras sobre a realidade.
Perguntas tão simples como as de saber quantos são os membros destas comunidades; que idade têm; quantos nasceram em Portugal; quantos aos que não nasceram, há quantos anos aqui residem, onde e como vivem, quanto auferem, que graus de escolaridade detêm, que acesso a empregos, a habitação, a cuidados de saúde ou a bens e serviços lhes são negados? Estas questões não têm hoje resposta. No entanto, se não conhecemos as várias vertentes do problema, nem tão pouco a sua dimensão, como é que poderemos atuar de forma integrada e eficaz?
Parafraseando James Baldwin – uma das vozes mais influentes do movimento dos direitos civis, nos Estados Unidos, “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado. Mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado. O confronto nem sempre traz uma solução para o problema, mas enquanto não enfrentarmos o problema, não teremos solução”.
Relatório do Parlamento propõe estudar quotas em universidades para negros e ciganos
Durante décadas, apregoar a inexistência de fenómenos racistas na sociedade portuguesa tornou-se um quase lugar-comum. A repetição incessante da ideia não teve, contudo, a virtualidade de a converter em verdadeira.
A maior expressão de preconceito racial consiste, precisamente, na negação deste preconceito.
Porque, como escreveu Sophia de Mello Breyner, – «Vemos, ouvimos e lemos, Não podemos ignorar». E falando na primeira pessoa, eu acrescentaria que se para alem de vermos, ouvirmos e lermos, também sentimos – essa ideia da inexistência de fenómenos racistas na sociedade portuguesa foi, paulatinamente, perdendo solidez.
Um número não despiciendo de pessoas passou então a acreditar, na sequência de uma corrente de pensamento que já emerge do século XIX, que a escola, o conhecimento e a cultura se encarregariam de resolver a questão. Bastaria esperar pelo decurso do tempo e pela emergência das novas gerações que, progressivamente, mais escolarizadas teriam, necessariamente, uma abordagem e uma estar diferenciado e iminentemente inclusivo.
Racismo: “Ainda não furámos a barreira de vidro mas estamos a ir contra ela e vamos quebrá-la”
Claro que importa acreditar na educação e na escolarização, mas não há evidência de que essa seja, a solução para os problemas do racismo e da xenofobia nas nossas sociedades. Ninguém duvida que hoje, não só em Portugal, mas também na Europa, a população, principalmente a mais jovem, alcançou um grau de escolarização muito superior relativamente às gerações que a precederam.
Mas esse facto determinou que tivesse diminuído, por exemplo, o discurso de ódio ou a reação perante a diferença racial ou étnica? Diria que não. Pelo contrário, parece ter-se refundado, em pleno século XXI, um discurso de ódio ao diferente, com óbvio recrudescimento das sociedades xenófobas e racistas.
É esta constatação que conduz à conclusão de que, relativamente a estas temáticas, bem como em relação a outras, infelizmente a educação, o conhecimento e a cultura não consubstanciam a magia do Santo Graal. Um grau de escolaridade mais elevado poderá tornar as reações mais subtis, menos primárias ou grosseiras, mas não tem a faculdade de as eliminar.
Quantas e quantas vezes ouvimos, proferida pelas pessoas mais diversas e diferenciadas: não sou racista mas …, sendo certo que após a adversativa se segue um comentário que, seguramente, exemplifica ou demonstra um qualquer estereótipo negativo que marcará a diferença entre “nós e os outros”.
Inúmeras pessoas afirmarão, sem hesitar – que o racismo é estúpido. No entanto, algumas dessas pessoas provavelmente não admitirão, nem sequer perante si próprias, que a diferença os incomoda ou mesmo que lhes causa aversão e lhes determina a reações hostis.
Como já alguém afirmou, o racismo é o crime perfeito – quem o comete acha sempre que a culpa é da vítima.
Relativamente a estes fenómenos não há uma solução ou a solução. Existirão, ao invés, inúmeros ângulos que necessitam de ser abordados sendo que, entre estes, os mais prementes se prendem com a desigualdade e com a exclusão.
Como intervir perante o medo da diferença? Como agir e o que fazer para a diferença não se transmute em desigualdade?
Mais: como intervir na sociedade atual onde a coberto do anonimato potenciado pelas redes sociais floresce o sentimento anti-imigrante e onde grande parte dos males do mundo é imputado a um outro que, por qualquer razão, nos seja dissemelhante?
Creio que uma das chaves – claro está que integrada numa miríade de outras – será a da inclusão. O receio, o medo e a hostilidade serão, creio, tanto menores, quanto mais o diferente nos seja próximo, quanto mais convivermos, repartirmos, e estabelecermos cumplicidades com esses outros.
Essa inclusão apenas se alcançará se os que aparentemente não são iguais frequentarem as mesmas creches, o mesmo ensino pré-escolar, as mesmas escolas, forem vizinhos ou colegas de trabalho. Se tiverem os mesmos estímulos.
Esta será, creio, uma das vias que possibilitará que a diferença deixe de convulsionar ou inquietar e se converta em normalidade. Essa normalidade poderá então criar a oportunidade para, fazendo minhas as palavras do Papa Francisco, «viver com a cultura do outro» e, ao vivê-la, a vermos e sentirmos como natural.
Importa, todavia, que não tenhamos ilusões: a estrada que importa percorrer é imensa e, não raras vezes, o caminho parece infinito. Não obstante, acredito, firmemente, que um dia virá que todos concordarão, sem reserva, com Gabriel García Marquez: uma pessoa só tem direito de olhar outra de cima para baixo no momento de a ajudar a levantar-se.
Temos de construir sobre bons valores partilhados e ver na diversidade, não uma ameaça, mas antes uma riqueza: Portugal não merece nem espera de nós outra atitude.
Termino felicitando mais a primeira Comissão por ter decidido iniciar um debate esclarecido sobre questões subalternizadas no pensamento e discurso institucionais. Nesta matéria o negacionismo, a persistência na desvalorização do fenómeno conduz ao desastre e à radicalização de posições.