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A maior obra de misericórdia

A maior obra de misericórdia

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo, (…) veio Jesus…(Jo.20,19).

Queridos irmãos e irmãs:

Regressado da morte e trazendo no seu corpo as chagas gloriosas, Jesus saúda os discípulos com palavras habituais entre os judeus mas que neste momento alcançam a plenitude do seu significado e da sua eficácia: “a paz esteja convosco!” Com esta saudação entrega-lhes o precioso fruto da Sua Páscoa: a paz e a alegria do perdão e da reconciliação com o Pai que têm o poder de nos recriar, de fazer de nós criaturas novas. E envia-os pelo mundo inteiro com o poder de anunciar e de dar esse mesmo perdão a todos aqueles que acreditarem no Evangelho: “assim como o Pai Me enviou também Eu vos envio a vós”. Dito isto soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos”. (Jo.20,21-23)

Libertar as pessoas da escravidão do pecado e do medo, esta é a missão da Igreja em todos os tempos e lugares, esta é hoje a nossa missão e a maior obra de misericórdia que devemos praticar: anunciar a vitória de Cristo sobre a morte e ajudar as pessoas a encontrar-se com Ele para que recebam o perdão dos seus pecados, tenham Vida em seu nome e possam cantar connosco: é eterna a sua misericórdia!

Desejamos a todos uma vivência intensa da Páscoa.

O Senhor vos abençoe e vos dê a Sua paz e a Sua alegria!

Rezai por nós.

 

+ António Vitalino

+ João Marcos

 

Somos todos irmãos

Somos todos irmãos

Mensagem de Natal

Conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós Se fez pobre, para vos enriquecer com a Sua pobreza (2Cor.8,9). Sim, nós cristãos podemos fazer nossas estas palavras de S. Paulo, sobretudo no contexto deste Ano Jubilar e das celebrações natalícias, palavras reveladoras da misericórdia de Deus que vem ao nosso encontro para que, também nós, saiamos ao encontro dos pobres e necessitados, e não apenas para dar, mas também para receber. Longe de nós o paternalismo de quem dá coisas aos pobres apenas para que nos fiquem obrigados e presos a nós, como se também nós não precisássemos de receber deles. A misericórdia de Deus tem o poder de nos irmanar e de tornar possível a alegria profunda da comunhão e da festa que desapareceu da vida de quem vive para si mesmo.

Isto mesmo experimentou o Papa nos bairros pobres e degradados da África, na sua recente viagem apostólica. Impressionou-o a efusão de alegria dos seus habitantes, ao contrário daqueles que idolatram o deus dinheiro e desprezam os valores do Espírito. Por causa dele vendem a alegria e os valores humanos ao diabo. Estes vivem para si mesmos, para o seu prazer e estão mergulhados numa tristeza profunda. Aqueles vivem uns para os outros e têm estampada nos seus rostos, apesar da sua pobreza, a alegria de fazer bem ao seu semelhante.

Os simples, os pastores, os buscadores do sentido das suas vidas alegraram-se quando encontraram, envolto nas palhas da mangedoura, o Menino em quem reconheceram a manifestação da vida de Deus, o Messias Salvador. Também nós hoje O podemos encontrar não nos palácios, nos banquetes dos ricos, mas nas choupanas ou barracas dos pobres e nas mesas das famílias onde há mais amor que pão ou presentes caros de jogos egoístas.

Como alguém se expressou, o melhor presente de Natal é a presença de toda a família junto dos membros mais débeis, crianças, doentes e idosos. Onde dois ou três estiverem reunidos no amor aí nasce Jesus, aí está Deus.

Em quase todas as aldeias há lares ou unidades residenciais de idosos. Como é belo nesta altura de Natal vermos crianças, grupos de catequese, jovens e grupos corais cantar o Menino! Mas como seria ainda mais belo se os membros de cada família se juntassem e, onde isso for viável, os levassem para os seus próprios lares, passar esta quadra festiva nos ambientes em que decorreu a sua vida. Celebrando o Natal de Jesus, aconteceria também o fortalecimento da alegria da comunhão, sabendo-nos verdadeiramente irmãos e filhos de Deus e trazendo para as nossas vidas quem as marcou.

Nesta quadra muitos sentem mais fortemente a ausência e a distância física dos entes queridos e das aldeias natais, sobretudo os emigrantes e os refugiados. Como seria bom se cada família convidasse os imigrantes separados das suas famílias e que passam esta quadra longe das suas terras e famílias, para cear e conviver connosco! Uma grande oportunidade de, vencendo barreiras e ultrapassando preconceitos, fortalecer e testemunhar a verdade de que todos somos irmãos.

Assim acontece Natal na celebração do nascimento de Jesus e de uma vigorosa fraternidade, que nos faz verdadeira família humana de irmãos. E, para quem anda de ânimo abatido e acredita no amor de Deus por nós, oportunidade de se aproximar do Sacramento da Reconciliação, para acolher a misericórdia de Deus neste Ano Jubilar a ela dedicado e para depois a praticar junto daqueles de quem se anda mais afastado, renovando assim os laços da família humana e cristã.

Alegres festas de Natal e Ano de 2016 promissor de uma nova família humana mais fraterna, vencendo a indiferença de uns para com os outros, criando novos laços e construindo a paz na verdade e justiça.

Eis o desejo expresso deste vosso amigo, também em nome dos colegas bispos da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana em Portugal

 

† António Vitalino, Bispo de Beja

 

Misericordiosos como o Pai

Misericordiosos como o Pai

A misericórdia do Pai, a paz de Jesus Cristo Nosso Senhor, e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco!

Queremos convidar-vos, queridos irmãos e irmãs, a celebrar e a viver intensamente, com toda a Igreja, o Ano Jubilar da Misericórdia promulgado pelo Papa Francisco, para comemorar os 50 anos da conclusão do Segundo Concílio do Vaticano. Inaugurado por S. João XXIII e concluído pelo beato Paulo VI, o último Concílio Ecuménico preparou a Igreja para estes novos tempos, em que devemos anunciar o mesmo Evangelho de sempre em contextos muito diferentes daqueles que foram os da cristandade. O tempo da cristandade passou e o Papa Francisco não se cansa de nos lembrar a urgência de recentrar a vida e a ação da Igreja no essencial, para que possamos revelar e oferecer ao mundo, com mais eficácia, o tesouro da misericórdia de Deus. Essa renovação profunda deve começar, necessariamente, por cada um de nós. Por isso vos pedimos: abri os corações à misericórdia do Senhor para vos tornardes, em Cristo, misericordiosos como o Pai.

  1. A misericórdia revela Deus

De facto, para sermos cristãos, não nos basta saber coisas acerca de Deus, de Cristo e da Igreja; cada um de nós precisa de viver a experiência concreta da Sua misericórdia que nos liberta do poder das trevas e nos faz passar para o Reino de Seu Filho muito amado (Cl 1,13). A nós, que estávamos mortos em nossos pecados, Deus, que é rico em misericórdia, vivificou-nos juntamente com Cristo e com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus (Ef 2,1.4-6). Se nestas palavras de S. Paulo reconheces a tua história e o programa da tua vida futura, feliz de ti que alcançaste misericórdia! Sê misericordioso, porque, segundo a promessa do Senhor, sempre alcançarás misericórdia (cf Mt 5,7).

Para podermos alcançar misericórdia e testemunhá-la ao mundo, serve precisamente este Ano Jubilar. Por meio dele, Cristo Bom Pastor vem à procura das suas ovelhas transviadas. Deixa-te encontrar por Ele, sai dos esquemas egocêntricos e mesquinhos em que te resguardas, abre-te à largueza da Sua graça, deixa-te apascentar e conduzir por Ele até à casa do Pai, que te espera transbordante de amor e de perdão, para te abraçar e te revestir da dignidade própria dos seus filhos, tal como vemos na parábola do filho pródigo.

  1. A Igreja, estalagem da misericórdia

Constituída por pecadores que acolheram o Evangelho e estão a caminho da Terra Prometida, a Igreja é, no dizer do Papa Francisco, como um hospital de campanha ou como a estalagem da parábola do Bom Samaritano, onde o Senhor nos recebe misericordiosamente e cura as nossas feridas. A Igreja é o lugar de encontro de Deus com o homem e do homem com Deus, o lugar da graça e da misericórdia. Nela, Jesus é o rosto do Pai misericordioso que nos atrai, e, como Ele próprio afirmou, a porta pela qual entramos para ser salvos. Por Ele entramos na comunhão da Igreja ao sermos batizados e ao renovarmos o Batismo no sacramento da Reconciliação. Por Ele, impelidos pelo Seu Espírito, saímos como Igreja enviada ao mundo para dar testemunho da Sua misericórdia e anunciar o Evangelho.

A propósito, transcrevemos aqui o que diz o Santo Padre na bula de proclamação do Jubileu: a arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo.

Citando a encíclica Dives in Misericordia de S. João Paulo II, continua o Papa: «A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora».

Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia. (Cf Bula O Rosto da Misericórdia nn. 10 ss)

3 – Acolher, cultivar e testemunhar

Para que estas palavras se tornem realidade nas nossas paróquias e na nossa diocese procure cada um acolher a misericórdia, cultivar a misericórdia sobretudo na igreja e na família, e dar testemunho da misericórdia.

Convertamo-nos à misericórdia de Deus que nos revela a nossa miséria, nos põe na humildade e nos mostra a necessidade absoluta de sermos salvos desta ilusão hoje tão propagada de que não precisamos d’Ele para ser felizes. Reconciliemo-nos com Deus confessando os nossos pecados e recebendo o Seu perdão no Sacramento da Reconciliação.

Cultivemos no seio de cada comunidade cristã a misericórdia pois não tem condições para se desenvolver fora dela. A ácida atmosfera do mundo em que vivemos é adversa à cultura da misericórdia, mas o mundo precisa dos seus frutos para subsistir. A árvore da misericórdia dá frutos na terra, mas tem no céu as suas raízes e alimenta-se do Espírito que nos é dado gratuitamente por Jesus Cristo. A Igreja é a estufa, o ambiente propício onde esta frágil planta pode desenvolver-se, florescer e frutificar. É nela que recebemos o Espírito Santo e aprendemos a não julgar, a perdoar, a orar em comum, a praticar a correção fraterna. É em comunidade que aprendemos a ser solícitos pelo bem dos outros, aceitando-os como são, ajudando-os e servindo-os, esquecendo-nos de nós mesmos, é lá que aprendemos a amar os inimigos e a dar a própria vida imitando o Senhor Jesus.

Convidamos-vos a aprender de cor e a praticar as catorze obras de misericórdia, corporais e espirituais. As corporais são: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos peregrinos, assistir aos enfermos, visitar os presos, sepultar os mortos. E as espirituais são estas: dar bom conselho, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as injúrias, sofrer com paciência as fraquezas do próximo, rogar a Deus por vivos e defuntos. Podemos resumi-las em catorze verbos: alimentar, dessedentar, agasalhar, albergar, curar, visitar e sepultar; aconselhar, ensinar, corrigir, consolar, perdoar, suportar e orar.

Testemunhemos a misericórdia! Ao longo dos tempos, conforme as circunstâncias, para além da prática individual e discreta que só Deus conhece, os cristãos encontraram formas organizadas e públicas de praticar as obras de misericórdia. Desde o século XVI as Santas Casas da Misericórdia, fundadas por todo o lado em Portugal, tornaram-se expressões eficientes da caridade cristã para com os necessitados. E agora, quanta assistência se faz nos Centros Sociais e em muitas instituições cristãs de solidariedade cujo único objetivo é fazer o bem a quem precisa, dentro e fora da Igreja, em Portugal e no mundo! Quantos Institutos e Congregações Religiosas, quantas organizações da Igreja Católica auxiliam os pobres e necessitados e são, em todo o mundo, sinais da misericórdia de Deus e da solicitude da Mãe Igreja para com os pobres? Hoje, entre nós, talvez não seja preciso multiplicar as Instituições que se dedicam à prática da Caridade, mas é necessário que sejam revitalizadas pela seiva do Espírito, para que a sua ação não fique reduzida a mero altruísmo. É por amor a Cristo presente nos pobres e necessitados que nós cristãos praticamos as obras de misericórdia. Sem isso, seríamos erradamente louvados pelos homens que, ao ver as nossas boas obras, devem glorificar o Pai que está nos céus, e não a nós.

  1. Peregrinações do Ano Jubilar

Vivamos os breves meses deste Ano Jubilar em conversão sincera. Façamos uma peregrinação jubilar e atravessemos a Porta da Misericórdia para recebermos o dom da indulgência plenária, importantíssima não apenas para nos fazer progredir na comunhão com o Senhor, mas também para edificar a comunhão nas nossas comunidades cristãs.

Para recebermos a graça da indulgência plenária que nos liberta de qualquer resíduo das consequências do pecado e nos habilita para agirmos com caridade, cultivando a comunhão fraterna, além de uma confissão bem-feita, detestando o pecado e com firme propósito de emenda e de participar na Eucaristia e comungar sacramentalmente, é necessário também proclamar o Credo e rezar pelas intenções do Papa.

Os párocos terão o cuidado de preparar convenientemente estas peregrinações, para que os fiéis possam receber abundantemente as graças deste jubileu.

(…)

A Virgem Santa Maria, Mãe de misericórdia, que na sua imagem peregrina nos está visitando como que a preparar-nos para o início do Ano Jubilar, interceda por todos nós e abençoe as famílias, as paróquias e todas as comunidades da nossa diocese.

† António Vitalino e † J. Marcos

Emergência educativa

Emergência educativa

  1. Terrorismo e educação

Na última nota escrevia o seguinte: A educação na família, na escola, nas comunidades religiosas deve ajudar a construir a paz. Bem-aventurados os que sofrem por causa da paz, proclamou Jesus. Sem avaliar todo o alcance desta afirmação, nesta semana, no torvelinho dos acontecimentos, recebi muitos incentivos para a explicitar melhor e aplicar aos ambientes que nos envolvem.

Em primeiro lugar, ao ler as propostas do sínodo sobre a família, percebi que há uma situação global, que dificulta a tarefa educativa. Na miragem ideológica dum mundo envolvido na terceira guerra mundial em fragmentos, como se expressa o Papa Francisco, afirma-se o individualismo e o direito aos bens de consumo e esquece-se a educação primordial para a relação e a pertença, a começar pela família. Por isso os outros, a própria natureza, são vistos como concorrentes e obstáculos a eliminar, como o inferno, como se expressava Sartre, e não como fazendo parte de nós, do nosso bem estar e aos quais somos devedores. Como diz S. Paulo (Rm 13, 8): não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser o amor.

Em segundo lugar, foi o Congresso Mundial promovido em Roma pela Congregação para a Educação Católica, na semana passada. No encontro com o Papa, a 21 de novembro, uma responsável educativa perguntava como podem os educadores ser construtores da paz. Na sua resposta espontânea o Papa afirmava que é preciso ir às periferias, ao mundo dos pobres e não apenas fazer obras de benificência para eles, dar-lhes de comer e ensiná-los a ler, mas a caminhar juntos com a sua experiência de pessoas feridas na sua humanidade. Não basta educar dentro de muros, cultivar uma cultura seletiva, de segurança, da inteligência formal, mas arriscar no cumprimento das quatorze obras de misericórdia.

Em contraste com estes pensamentos estavam as notícias veiculadas pelos meios de comunicação social: a caça aos terroristas, os ataques aos focos de terrorismo, o controle dos refugiados, a construção de defesas, o estado de emergência. Será este o caminho da construção da paz, não apenas em algumas partes do mundo, mas para todos e com todos?

A educação para os valores humanos, implica também a abertura à transcendência, expressa de muitas maneiras, também a religiosa, mas nunca proselitismo ou fundamentalismo religioso, como dizia o Papa no diálogo atrás referido. Um sistema educativo fechado, neopositivista, sem abertura à transcendência, que não toca o coração, os comportamentos e as relações fundamentais da pessoa, fecha o homem em si mesmo e não pode educar para o verdadeiro humanismo, por mais génios que produza, mas, infelizmente, também monstros.

  1. Como educar para um humanismo cristão?

Como escrevi atrás, a educação, mesmo em famílias e escolas católicas, nunca pode ser proselitista ou neopositivista, mas educar para os valores, aberta à transcendência, à relação com os outros e com a natureza, procurando o seu bem.

A educação para a fé e a sua explicitação religiosa, na escuta da Palavra de Deus, no conhecimento da mensagem e pessoa de Jesus Cristo, na oração, na prática dos mandamentos e das obras de misericórdia, ajuda a fazer crescer a pessoa na verdade do seu ser e a desenvolver a sociedade nas suas múltiplas relações, construindo a paz na verdade, na justiça, na igualdade, na fraternidade.

Campos de refugiados, situação prolongada de desemprego, sobretudo de jovens, a fome, condições sub-humanas de vida, não são ambiente propício para a construção da paz mundial. Por isso não podemos pactuar com estas situações ou praticar apenas as obras de misericórdia corporais. É preciso despertar as pessoas para a sua dignidade, que se realiza nas múltiplas relações e no sentido de pertença a uma única humanidade, a família humana, para cujo desenvolvimento todos devemos contribuir. É caminhando que se faz caminho, como se ouve repetir. A educação não pode ser apenas para o conhecimento, mas para o coração, os afetos, os sentimentos e a ação.

Resta-nos um longo caminho a percorrer. Mas com lamentos, de braços caídos, não avançaremos. Os governos devem estar abertos e apoiar as experiências educativas que vão nesse sentido, em vez de querer prescrever um único tipo de escola, que muda conforme as mudanças dos partidos no governo. Basta de experimentalismos e deixemos que a sociedade civil com a família, avance e possa transmitir os valores em que acredita.

A Igreja termina o seu ano litúrgico com a solenidade de Cristo Rei, que afirma a sua soberania, não pelo poder das armas, pelo medo, pela ditadura da opressão, mas pela verdade do amor, pelo perdão, pelo dom da vida na cruz. O seu poder não é deste mundo, mas é oferecido a todos os que viveram, vivem e hão-de viver neste mundo. Só Ele nos pode salvar desta geração perversa, mas carente de amor. E quem é da verdade ou a busca de todo o coração reconhecerá n’Ele a fonte que sacia a sua sede e mata a sua fome, pois Ele é caminho, verdade e vida.

† António Vitalino, bispo de Beja

e Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana

Conclusões: Encontro Europeu dos Agentes Pastorais da Comunidades de Língua Portuguesa

Conclusões: Encontro Europeu dos Agentes Pastorais da Comunidades de Língua Portuguesa

O Encontro Europeu dos Agentes Pastorais das Comunidades de Língua Portuguesa realizou-se de 19 a 23 de Outubro de 2015, em Brescia (Itália), sob a presidência de D. António Vitalino, bispo e Beja e da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana. Marcaram igualmente presença 5 diretores nacionais e delegados: Dr. Stefan Schohe, da Alemanha; Dr. Samuel M. Behloul, da Suíça; Marie-Anne Hameury, da França; Eugénia Costa Quaresma, de Portugal; P. Mário Toffari, da Itália.

Os 55 participantes, sacerdotes, diáconos, religiosas e leigos portugueses e de outras nacionalidades – reflexo visível da diversidade de carismas e culturas que marcam o corpo dos agentes pastorais, coordenados pela OCPM – enriquecem a Igreja com as suas vivências eclesiais diferentes. Atualmente são acompanhadas, de forma organizada, as comunidades: portuguesa, brasileira, cabo-verdiana, guineense, angolana, moçambicana, são-tomense, entre outras.

O Encontro teve como tema: “O papel das Missões na catequese e na participação dos migrantes face às atuais tendências das dioceses de acolhimento”.

Conhecer as tendências atuais das igrejas (na Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica, França, Reino Unido e Portugal) em relação à presença das comunidades lusófonas e partilhar experiências concretas, a nível da evangelização das crianças, jovens e adultos migrantes foram os dois eixos de trabalho deste congresso.

Constatações:

  1. Desde o início dos anos sessenta, altura da fundação da presença da Missão Católica nas dioceses europeias, a catequese foi uma preocupação pastoral prioritária, sendo ação pioneira em algumas delas. Tem sido realizado um trabalho maravilhoso pelos agentes pastorais, sobretudo leigos catequistas, na transmissão da fé;
  1. As Paróquias europeias são cada vez mais multiculturais e participadas por cristãos de várias origens, provocando o diálogo e a relação entre as comunidades;
  1. As Missões envolvem-se sempre mais no processo de participação nas dioceses segundo o modelo da “pastoral inter-comunitária”, estreitando laços de comunhão, colaboração e vida em comum dos cristãos independentemente das suas origens.
  1. A Missão é chamada a ser comunidade-ponte no acompanhamento dos migrantes lusófonos, colocando-os em relação com outras comunidades (italiana, croata, espanhola, polaca…) e com as paróquias locais. Os migrantes são a parte mais viva e visível do Povo de Deus em países de acelerada secularização.
  1. É grande a diversidade de contextos culturais e eclesiais que caracterizam a participação das comunidades lusófonas na igreja local, salvaguardando-as assim da tentação de uma uniformização da sua ação pastoral.
  1. A maioria das dioceses de acolhimento encontram-se em reestruturação interna através da criação de unidades pastorais (novas paróquias) e da reorganização económica exigindo das Missões uma nova adaptação e definição do lugar das comunidades.

Conclusões:

  1. Encarrega-se a OCPM de transmitir ao Secretariado Nacional da Educação Cristã – entidade que produz o material catequético usado por muitas comunidades – o fruto da nossa autocrítica, experiências e inquietações sobre a catequese em situação migratória.
  1. Solicita-se que a Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana estabeleça diálogo bilateral com as suas congéneres, sobretudo, onde a atual tendência de reestruturação pastoral e económica (recursos) estão em curso, com consequências para o futuro das Missões.
  1. As Missões – parte viva da igreja – comprometem-se em continuar o caminho gradual e necessário relativamente à “participação” na vida das dioceses onde estão inseridas, com vista à comunhão da mesma fé, à catolicidade e construção do único Povo de Deus.
  1. As Missões prosseguem na aposta formativa em relação aos leigos, especialmente na área da catequese e do catecumenado de jovens e adultos.
  1. Em sintonia com o comunicado emitido sobre a atual crise migratória vivida pela União Europeia, os participantes comprometem-se em “continuar a sensibilização e a informação das nossas comunidades de língua portuguesa e dioceses onde estamos inseridos, para atitudes e comportamentos solidários, recusando todas as ideologias alarmistas que espalham o pânico, defendem preconceitos e nacionalismo exacerbado, impedindo a abertura intercultural e a filosofia do encontro com o outro”.

Brescia, 23 de outubro de 2015