CARAVANA 94 - EDITORIAL

CARAVANA 94 - EDITORIAL

A URGÊNCIA DE AGIR

Neste número da Caravana, damos relevo a uma notícia já anunciada no último nº: o Relatório da Assembleia da República sobre o Racismo, a Xenofobia e a Discriminação étnico-racial em Portugal. Focando exclusivamente o que se refere à população cigana,  já no nosso último nº salientámos o “notável trabalho que incluiu visitas às barracas de ciganos em Bragança, entre outras iniciativas”. Agora apresentamos alguns aspetos da versão preliminar do Relatório que nos pareceram mais relevantes.

 

Sem prejuízo do grande mérito deste trabalho realizado pela AR, não deixamos de constatar que não constam das múltiplas entidades e pessoas ouvidas, nem a única Federação de Associações Ciganas existente em Portugal, a FECALP (Federação Calhim Portuguesa), nem as Pastorais ciganas, com exceção da de Bragança a quem se deveu a organização da visita da AR aos lamentáveis e vergonhosos bairros de barracas de ciganos que ali persistem. De facto, esta Pastoral, como outras, conhece os ciganos um a um pelo nome, conhece os seus dramas, luta para os resolver, é amiga dos ciganos, chorando com o seu sofrimento e alegrando-se quando eles conseguem algum pequeno sucesso na sua luta pela sobrevivência, o que infelizmente é  raro.

 

As entidades não devem ter medo de quem conhece a realidade por dentro, de quem, por isso, por vezes pode ser inconveniente – a verdade nem sempre é cómoda. Não devem ignorar os avisos, as queixas, os pedidos de quem sofre com quem sofre, porque isso pode não contribuir para a imagem que querem projetar, imagem essa tanta vezes construída sobre atropelos, pobreza, exclusão, sofrimento, desigualdades ocultadas porque não se reconheceram honestamente e não foram criadas soluções para elas. Quão melhor seria, que bela e sã imagem daria a declaração de que: existem estes problemas, foi a Igreja que os revelou?, obrigado Igreja por este serviço, vamos DE FACTO tentar resolvê-los, digam-nos sff se as soluções que encontrámos os resolveram. Tal será um mundo ideal? Ideal talvez, mas  irreal, não, assim queiramos ser, não apenas parecer, realmente úteis para que os nossos concidadãos sintam cada vez menos a violência do abismo que tantas vezes os separa de uma vida digna a que teoricamente têm direito, mas que, na prática, raramente se concretiza.

Francisco Monteiro