Jul 18, 2018 | Artigo, Notícias
O Instituto Padre António Vieira organiza programa de iniciativas para «celebrar Mandela»
Lisboa, 17 jul 2018 (Ecclesia) – O Instituto Padre António Vieira assinala o centésimo aniversário do nascimento de Nelson Mandela com conferências e iniciativas através do projeto “Academia de Líderes Ubuntu”.
A “Academia de Líderes Ubuntu”, projeto do Instituto Padre António Vieira (IPAV), “que tem em Nelson Mandela um dos seus grandes inspiradores, não podia deixar de comemorar esta data”, refere a página da internet da iniciativa.
Desde 2010 a inspirar “jovens para liderarem como Mandela”, esta academia organizou um programa de atividades e iniciativas nesta semana em que se assinala o centésimo aniversário do nascimento de Nelson Mandela, a 18 de julho.
Uma das conferências acontece esta terça-feira e conta com intervenções de convidados nacionais e internacionais sobre o “impacto que o exemplo de Nelson Mandela teve nas suas vidas, quer através de um contacto pessoal, quer através da inspiração intergeracional junto dos mais jovens”, como se pode ler.
O painel de oradores conta com D. Ximenes Belo, prémio nobel da Paz 1996, Rui Marques, presidente do IPAV e Eugénia Quaresma, da Academia de Líderes Ubuntu e diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações, entre outros.
Esta quarta-feira, dia Internacional Nelson Mandela, acontece ainda a iniciativa “Pontes Mandela”, uma ação de sensibilização, com distribuição de postais que inspirem para a construção de pontes, em torno da memória de Nelson Mandela, que vão ser entregues nas pontes 25 de abril e Vasco da Gama e em várias estações ferroviárias da cidade de Lisboa.
O Dia Internacional Nelson Mandela é uma comemoração internacional instituída pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em novembro de 2009, a ser comemorado em todos os dias 18 de julho, data de nascimento do líder sul-africano, “instando o Mundo a assinalar a efeméride fazendo a diferença nas comunidades em que se inserem”.
Jun 14, 2018 | Artigo, Documentos, espiritualidade, Recortes
Uma vida aventurosa no rasto do Evangelho e em grande sintonia com Francisco de Assis, que conheceu pessoalmente. Infinitas viagens pela Europa, da natal Lisboa até à última etapa em Pádua. E encontros, muito estudo, meditações, orações, pregações (nas quais era um verdadeiro mestre), caridade.
Santo António (Lisboa, 1195 – Pádua, 1231) é certamente uma das figuras mais veneradas do catolicismo. Em cada canto da Europa e em numerosas localidades do mundo surgem igrejas e santuários dedicadas ao frade franciscano, a ele se elevam súplicas, contam-se os seus milagres.
Hoje, em Pádua, um cortejo histórico com mais de 150 figurantes, que remonta a 1931, sétimo centenário da morte, recorda as últimas horas de vida do santo, culminando com o concerto dos sinos que anuncia o início das celebrações solenes do 13 de junho.
É reconhecido como protetor dos pobres, dos oprimidos, das grávidas, dos prisioneiros, dos viajantes e dos náufragos, e também dos animais. A festa litúrgica de 13 de junho é ocasião para dirigir orações e pedidos de ajuda ao “lírio-cândido”, um dos seus múltiplos símbolos. Entrevista ao diretor editorial das Edições Messaggero Padova, Fabio Scarsato, frade menor conventual.
Quais são hoje, em síntese, os contornos e as particularidades da devoção a Santo António?
Creio que a devoção de muitas pessoas que ainda encontram em António um ponto de referência pode definir-se como uma espécie de milagre, porque foi capaz de evoluir no tempo. Passou-se de uma devoção baseada apenas nos milagres a uma em que as pessoas veem em António um estilo de vida, a ideia de que é possível para cada um de nós encontrar o caminho para uma santidade quotidiana.
Outra coisa que me toca, e que pode parecer paradoxal, é que António foi um apurado exegeta e um grande teólogo, mas o seu público de referência, chamando-o assim, foi sempre, e continua a ser hoje, formado sobretudo por gente simples.
Qual é a geografia desta devoção?
Há muitos lugares ligados à figura de António: a partir de Lisboa, onde nasceu, ou Coimbra, sempre em Portugal, onde se fez monge agostinho; mas há também um santuário em França ou o de Samposampiero, próximo de Pádua. Mas o que é impressionante, e digo-o por experiência direta, é que para além destes lugares históricos é difícil encontrar no mundo uma igreja onde não haja uma estátua, um ex-voto ou uma imagem de António ou quaisquer tradições ligadas a ele, por exemplo com referência à caridade e ao famoso “pão de Santo António”.
Pela sua biografia, António foi um verdadeiro “santo europeu”: o que é que diz hoje a um Velho Continente algo perdido?
Seria quase demasiado fácil ou retórico fazer atualizações. Mas é assim, é inútil negá-lo. António fala-nos de uma Europa que seguramente tinha fronteiras diferentes das nossas, mas era um continente que podia ser “caminhado” de um lado ao outro e que se misturava. António parte de Portugal, chega a Itália, depois passa um período em França…
Era uma Europa em que, de certa forma, onde quer que estivesses, sentias-te em casa, sentias-te cidadão. Sentias que havia um espaço para ti. António, por exemplo, trouxe para a Itália uma importante cultura teológica e enriqueceu o franciscanismo. É nesta mistura que, de certa maneira, todos ganham e todos podem dar passos em frente. Parece-me ser esta a bela ideia de cidadania que António nos dá. Depois há um episódio muito significativo.
Qual?
O naufrágio nas costas da Sicília, no regresso de Marrocos. É um facto que há contornos históricos que não são precisos, mas não há dúvida de que aconteceu, e é um facto que tem uma atualidade fortíssima. António, a certo ponto da sua vida, é um náufrago, mas vive a experiência do acolhimento dos seus confrades. A mim agrada-me a ideia de que se possa naufragar em qualquer lado onde não se conhece pessoalmente ninguém, sabendo que haverá alguém que te acolherá. E hoje esta experiência é cada vez mais rara.
Gianni Borsa/SIR
Trad./edição: SNPC
Publicado em 12.06.2018
http://www.snpcultura.org/santo_antonio_quando_ser_naufrago_era_ter_a_certeza_de_ser_acolhido.html
Jun 14, 2018 | Artigo, Mediterrâneo, Notícias, Recortes, Refugiados
Uma evocação do Evangelho publicada esta segunda-feira no Twitter pelo presidente do Conselho Pontifício da Cultura, cardeal Gianfranco Ravasi, a propósito do drama vivido pelas pessoas a bordo do barco “Aquarius”, no Mediterrâneo, desencadeou uma onda de reações dirigidas ao prelado italiano e à Igreja.
«Era estrangeiro e não me acolhestes», foi a passagem mencionada, extraída do capítulo 25, versículo 43, do Evangelho segundo S. Mateus, que numa tradução em português europeu se lê: «Era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me».
Gianfranco Ravasi, biblista, aludia ao barco fretado pela organização não-governamental SOS Mediterrané, onde se encontram 629 migrantes recolhidos no mar, e que ontem a Itália e Malta recusaram receber, tendo mais tarde recebido ofertas de acolhimento por parte de Espanha e, mais recentemente, da Córsega.
«Eminência, não podemos acolher todos. Como diz a minha velha mamã: primeiro tu, depois os teus, depois os outros, se puder ser…» é o primeiro dos mais de 1600 comentários ao “tweet” do cardeal.
Entre as respostas menos vulgares incluem-se «Que cuide deles o cardeal no Vaticano», «Eram pedófilos e não os prendestes», «O dinheiro do IOR [entidade bancária da Santa Sé] investi-o todo em África», «Vim para traficar, para violar, para islamizar, para viver à borla e não me acolhestes», «Jesus disse que a verdade vos tornará livres. Basta de negros e árabes que comem de borla».
«Se ao espelho olhamos o nosso rosto, descobrimos nele os traços da humanidade, porque a ela todos pertencemos, para além das diferenças étnicas, culturais, religiosas»
«Abri as portas do Vaticano e colocai lá todos os clandestinos que quiserdes» e «Cardeal vós possuís riquezas imobiliárias superiores à dívida pública italiano, vendei alguns imóveis e ide para África e Médio Oriente para ajudar os pobres; devia estar na primeira linha para cessar o tráfico de escravos», são outros exemplos de comentários.
Há duas horas, o cardeal Ravasi voltou à Bíblia, citando desta vez a primeira carta de S. João (4, 16): «Deus é amor; quem está no amor permanece em Deus e Deus nele», depois de, ontem, ter evocado um autor cristão, Georges Bernanos: «Para encontrar a esperança é preciso ir para lá de todo o desespero. Quando se vai até ao fim da noite, encontra-se uma nova aurora».
«Tempo virá/ em que, exultante,/ te saudarás a ti mesmo chegado/ à tua porta, no teu próprio espelho/ e cada qual sorrirá ante a saudação do outro,/ e dirá: Senta-te aqui. Come./ Amarás de novo o estrangeiro que era o teu Eu./ Dá vinho. Dá pão. Devolve o coração/ a ele próprio, ao estrangeiro que te amou/ toda a tua vida, que ignoraste».
Na coluna que assinava diariamente no jornal italiano “Avvenire”, o P. Ravasi, ainda não criado cardal, citou versos da poesia “Amor após amor”, de Derek Walcott, «o cantor dos mestiços, nascido numa ilha das Caraíbas, Santa Lúcia, em 1939».
«Como se intui, unem-se e sobrepõem-se duas fisionomias diversas, a minha e a do outro, o estrangeiro. Se ao espelho olhamos o nosso rosto, descobrimos nele os traços da humanidade, porque a ela todos pertencemos, para além das diferenças étnicas, culturais, religiosas.
Depois de encorajar «a dar as boas-vindas aos refugiados» nas casas e comunidades, «de maneira que a sua primeira experiência da Europa não seja a traumática de dormir ao frio nas estradas, mas a de um acolhimento quente e humano», Francisco lembrou as palavras agora evocadas pelo cardeal Ravasi
“Amarás o estrangeiro que era o teu Eu”, diz o poeta. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, diz a Bíblia. Neste paralelo há dois amores que se fundem, o espontâneo por si próprio e aquele que o é para os outros, muitas vezes conquistado com algum esforço mas que deverá ser, da mesma maneira, intenso.
Devemos tentar reconduzir o nosso coração “a si mesmo”, isto é, à sua consciência profunda, e aí descobriremos que há o estrangeiro dentro de nós porque ele é semelhante a nós por causa do próprio Deus que o criou, do próprio Cristo que o redimiu, do próprio amor que foi deposto nele e em nós, e do próprio pecado que obscurece a nós e a ele», observou Ravasi.
Numa das múltiplas ocasiões em que se referiu aos migrantes, o papa Francisco lembrou que «tragicamente, no mundo há hoje mais de 65 milhões de pessoas que foram obrigadas a abandonar os seus locais de residência. Este número sem precedentes vai além de toda a imaginação».
«Se formos além da mera estatística, descobriremos que os refugiados são mulheres e homens, rapazes e raparigas que não são diferentes dos membros das nossas famílias e dos nossos amigos. Cada um deles tem um nome, um rosto e uma história, como o inalienável direito de viver em paz e de aspirar a um futuro melhor para os seus filhos», sublinhou em setembro de 2016.
Depois de encorajar «a dar as boas-vindas aos refugiados» nas casas e comunidades, «de maneira que a sua primeira experiência da Europa não seja a traumática de dormir ao frio nas estradas, mas a de um acolhimento quente e humano», Francisco lembrou as palavras evocadas agora pelo cardeal Ravasi, «tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era estrangeiro e acolhestes-me», e lançou um desafio: «Levai estas palavras e os gestos convosco, hoje. Que possam servir de encorajamento e de consolação».
Na segunda-feira, o arcebispo de Madrid, cardeal Carlos Osoro Sierra, também se exprimiu no Twitter: «O mandato é claro: “Fui forasteiro e hospedastes-me”. Para além de considerações políticas e legais, ao ler a vida desde o Evangelho, um vai em busca do outro. #Aquarius é um chamamento de Cristo à Europa».
SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 12.06.2018
http://www.snpcultura.org/aquarius_cardeal_ravasi_evoca_evangelho_sobre_acolhimento_e_desencadeia_reacoes_internet.html
Abr 23, 2018 | Artigo
A globalização da economia abre as portas às fontes energéticas, à tecnologia e às mercadorias, mas tende a fechá-las aos trabalhadores e suas famílias. À medida que a migração legal, devidamente documentada, torna-se cada vez mais difícil, especialmente a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, aumenta a pressão dos migrantes sobre as fronteiras geográficas ou territoriais, bem como a visibilidade global e estridente do fenómeno migratório.
Os casos se multiplicam a olhos vistos: o limite entre México e Estados Unidos ou entre México e Guatemala, a rota mediterrânea entre Líbia, Itália e outros países europeus, a rota balcânica entre Turquia, Grécia, Hungria e Europa em geral, as fronteiras dúplices e tríplices na África, Ásia e América Latina. Isso sem levar em conta outras dimensões da fronteira, tais como a fronteira político-social (legislação migratória) e a fronteira cultural-religiosa (confronto dialógico entre expressões e valores).
Com isso, os complexos fronteiriços tornam-se verdadeiras panelas de pressão, como se vê hoje ao norte da Líbia, nos confins da Turquia, na Malásia, no Sudão do Sul, em Myanmar e Bangladesh, na Venezuela com Colômbia e Brasil, entre outros lugares. Assim, proliferam como cogumelos os acampamentos de refugiados e prófugos, em condições humanas extremamente precárias. “A tensão nos territórios de fronteira constitui o retrato mais vivo de uma globalização desigual, em que a concentração da riqueza convive com a crescente exclusão social”, dizia há anos o sociólogo paraguaio Tomaz Palau.
Do ponto de vista político, a situação se agrava com a tendência de uma virada à direita mais ou menos generalizada. Basta ver o que acontece em diversos processos eleitorais recentes. Os exemplos são conhecidos: Áustria, Alemanha, Itália, Inglaterra, Polônia, França (em menor grau), para não falar da eleição de Donald Trump à Casas Branca. No programa desses novos governos está a deportação dos imigrantes irregulares e um bloqueio selecionado na fronteira, que peneira a mão-de-obra qualificada e recusa os demais trabalhadores.
Tais medidas, por sua vez, respondem à voz oculta e silenciosa do medo e da ameaça vivida pela população dos países de destino. Os deslocamentos humanos de massa passam a ser um dos itens fundamentais do debate e da disputa pelo processo eleitoral. Pior é que, em geral, politização das migrações é sinônimo de criminalização dos migrantes, de modo particular no clima atual da atuação terrorista e do tráfico de pessoas. Crescem, desse modo, os grupos neofacistas e neonazistas, onde prolifera a discriminação e o preconceito, a xenofobia e a hostilidade; em alguns casos, até mesmo perseguição direta. E crescem, paralelamente, os fantasmas do nacionalismo exacerbado e do protecionismo, com danos às oportunidades de melhor futuro para os estrangeiros.
No cenário da mobilidade humana atual, tais atitudes evidenciam uma rota de contramão com o empenho evangélico do Papa Francisco. Enquanto o pontífice insiste na “necessidade de acolher, proteger promover e integrar”, o que prevalece é o repulsão e o descarte de milhões de migrantes, prófugos e refugiados. Ainda nas palavras do Papa, “a cultura do diálogo, do encontro e da solidariedade” cede lugar à “globalização da indiferença”. Os muros, visíveis ou invisíveis, se sobrepõem às pontes.
Para reverter semelhante quadro, não bastam boas intenções e bons discursos eleitoreiros. Impõe-se um duplo desafio: de um lado, defender os direitos do migrante e sua dignidade humana, combatendo toda e qualquer espécie de abuso e violação. De outro lado, lutar por novas leis migratórias, mais abertas, porosas e arejadas, em vista de uma visão de cidadania universal, versão civil do Reino de Deus.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – São Paulo, 23 de abril de 2018
Abr 12, 2018 | Artigo, Recortes
A Conferência Episcopal Portuguesa publicou hoje uma mensagem sobre a crise dos migrantes e refugiados, onde alerta para os atentados que subsistem em Portugal e em vários países contra a dignidade humana destas pessoas.
Neste documento, saído da assembleia plenária da CEP que terminou esta quinta-feira em Fátima, os bispos portugueses apoiam a definição de um Pacto Global para responder à atual crise migratória, um plano que tem estado a ser desenvolvido em sede das Nações Unidas e que conta com o apoio de Portugal.
E frisam a urgência de “desenvolver uma ação clara em prol dos migrantes, refugiados e vítimas de tráfico humano”, tal como já foi defendido pelo Papa Francisco.
“É necessário admitir o princípio da mobilidade como uma das características das sociedades modernas e integrá-la na legislação de cada país, para que isso aconteça de modo ordenado, legal e seguro”, pode ler-se.
Os responsáveis católicos portugueses lembram que subsistem vários “atropelos” à dignidade humana, no que diz respeito à situação dos migrantes e refugiados.
A começar na origem, desde que estes saem dos seus respetivos países, sujeitos a “máfias sem escrúpulos, a quem unicamente interessa o dinheiro”, ou obrigados a percorrer “mares, desertos e montanhas”, sem qualquer tipo de “amparo humano”.
Pessoas e famílias que chegam “esfomeadas, violadas e feridas, depois de um longo e penoso caminho”; crianças que têm o direito a ser “protegidas e defendidas”, e de aceder a “cuidados de saúde e educação, de modo a que possam crescer”, frisam os bispos portugueses.
Os membros da assembleia plenária da CEP pedem mais empenho político no desenvolvimento de “legislação adequada para o acolhimento justo e digno” dos migrantes e refugiados, e também na abertura de “corredores humanitários seguros”.
Em vez do que acontece atualmente em vários países da Europa, mais preocupados segundo os bispos, em “fechar as fronteiras” e em “devolver estas pessoas a países terceiros que, por sua vez, os repatriam para os seus países de origem, pobres e muitas vezes atingidos pela corrupção e pela guerra”.
Nesta mensagem saída da assembleia plenária da CEP, que decorreu desde segunda-feira na Casa de Nossa Senhora das Dores em Fátima, os bispos portugueses defendem a importância de acolher e integrar bem os migrantes e refugiados.
De modo a que estas pessoas tenham reais oportunidades de emprego e desenvolvimento, de “participação ativa na vida local”, nos países de acolhimento, em vez de serem “empurradas para guetos” ou para as periferias sociais.
Neste ponto, os bispos denunciam as irregularidades que se verificam no setor laboral, tanto em Portugal como no estrangeiro, relativamente às condições de trabalho atribuídas a quem vem de fora em busca de um futuro melhor e vê as suas expetativas defraudadas.
Apesar de reconhecerem que “em Portugal muitas empresas cumprem as suas obrigações sociais com trabalhadores estrangeiros”, os responsáveis católicos sublinham que ainda subsistem casos de trabalho precário em vários setores de atividade mais “sazonal”, como na “agricultura”.
Onde frequentemente não é reconhecido o direito “a remuneração justa, habitação digna, alimentação capaz, segurança social e saúde pública”, aponta a mesma nota.
“Ainda pior”, acrescentam os bispos, são os casos em que os migrantes “são vítimas de intermediários sem consciência, que lhes confiscam os documentos, parte do salário e ameaçam os seus familiares nos países de proveniência”.
Situação “semelhante à das empresas que recrutam mão de obra em Portugal para trabalhar no estrangeiro, prometendo condições vantajosas que depois não se verificam”.
Os bispos enaltecem na sua mensagem “o esforço que tem sido desenvolvido em Portugal”, em particular pela PAR – Plataforma de Apoio aos Refugiados, em prol do reforço da “capacidade de acolhimento”.
Desde que começou o programa de emergência da União Europeia, relativamente a esta crise de refugiados, Portugal já acolheu cerca de 1500 pessoas e já se disponibilizou a receber mais mil até 2019.
“Confiamos na boa vontade e no sentido de justiça dos nossos legisladores e fazemos apelo aos responsáveis do Governo a que continuem a desenvolver medidas de acolhimento e integração dos migrantes, dos refugiados e das vítimas do tráfico humano”, escrevem os responsáveis católicos portugueses.
Que deixam ainda um apelo às “dioceses” e às “instituições e comunidades cristãs”, para que continuem a participar com “amor generoso”, na resposta a esta problemática.
JCP
Igreja/CEP: Bispos portugueses denunciam «atropelos» à dignidade dos migrantes e refugiados
Mar 15, 2018 | Artigo, Recortes, Santa Sé
Mais do que um simples “aniversário de eleição do Papa Francisco à cátedra de Pedro”, neste 13 de março comemora-se na Igreja Católica a reemergência da pessoa e da Boa Nova de Jesus Cristo. E junto com o “profeta itinerante de Nazaré”, reemerge igualmente uma dupla centralidade: o Reino de Deus como centro da mensagem do Mestre, de um lado, e, de outro, os pobres como centro do Reino. Esse retorno ao núcleo kerygmático dos escritos neotestamentários vem à tona desde as primeiras palavras e os primeiros gestos do Pontífice, para consolidar-se em seus breves discursos, suas Cartas Encíclicas (Lumen Fidei, 2013 e Laudato Si’, 2015) e sua Exortação Apostólica (Evangelii Gaudium, 2013).
A centralidade do Reino de Deus vem atestada com força profética e veemente em todas as páginas do Novo Testamento, mas de modo particular nos capítulos sobre as parábolas de Jesus. O Papa Francisco retoma, de forma complementar, seja a linguagem de tais narrações alegóricas, seja o seu conteúdo oculto. Quanto e este último, convém notar como Jorge Bergoglio tem insistido – e venha insistindo – sobre o fato de que a esperança escatológica do Reino tem primazia sobre os bens e riquezas deste mundo. Mas não é só isso! Enquanto os poderosos dominam as nações através de uma “política econômica que exclui, descarta e mata”, o Senhor chama para si o serviço aos mais necessitados. Os primeiros se dispõem a construir muros mediante uma “globalização da indiferença”. Jesus, além da ponte entre o céu e a terra, convida a estabelecer novas pontes que liguem pessoas, culturas e nações. A “cultura da solidariedade” constitui o alicerce para a preservação da “nossa casa comum” (Laudato Si’).
Não é diferente com a forma de comunicação. Em lugar de uma linguagem retórica e sofisticada, acadêmica e até mesmo hermética, não raro auto-referente, o Pontífice concede prioridade às expressões do dia-a-dia. A imagem da metáfora e a forma simbólica lhe são extremamente caras. Aprendeu a ser popular sem cair na banalização do uso da língua. Simples e profundo ao mesmo tempo, consegue extrair pérolas novas de um tesouro velho de dois séculos. Sabe que um “bongiorno”, “buonasera” ou “buon pranzo”, do ponto de vista da presença divina entre nós, por vezes vale tanto quanto um tratado teológico ou doutrinário. Isso não significa que não conheça a teologia e a doutrina. Ao contrário, conhece-as tão bem que é capaz de traduzi-las em palavras e gestos ligados à comunicação cotidiana e transparente.
No interior da centralidade do Reino, distingue-se claramente a centralidade dos pobres. Aqui corremos o perigo de repetir o óbvio. Bastaria um rápido sobrevoo pelos cinco anos de seu pontificado para dar-se conta de que os pobres ocupam parte central de sua solicitude pastoral do Papa Francisco. Ou ainda ter em conta, sempre no mesmo período de cinco anos, o contato vivo e caloroso com a “ovelha perdida” do Evangelho (Lc 15.3-7): povo da rua, prisioneiros e menores abandonados; pessoas com necessidades especiais; migrantes, refugiados e prófugos; crianças e mulheres vítimas da violência; trabalhadores sem terra, sem tecto e sem trabalho… Enfim, pessoas doentes e indefesas, oprimidas e marginalizadas, excluídas e descartáveis no sistema da economia globalizada.
Seguindo de perto as intuições do Concílio Vaticano II, desde cedo o Pontífice fez questão de desfazer-se de solenidades demasiadamente pomposas e ostentatórias, como também de costumes e indumentária herdados de uma Igreja principesca e majestosa. Tampouco se apegou aos benefícios de uma aliança com o poder e riqueza. O ritualismo liturgístico também lhe é alheio. No seu modo de ser e de agir, a eclesiologia do Povo de Deus se sobrepõe à eclesiologia hierárquica. E isso não somente em discursos e promessas, mas na prática de uma opção evangélica firme e determinada. Evidente que semelhante postura lhe acarretou inimizade e mesmo perseguição, seja no interior como no exterior da Igreja. Mas trouxe-lhe igualmente o carinho do povo e o reconhecimento de não poucas autoridades e meios de comunicação. Não que o Papa Francisco tenha reinventado a roda ou o Evangelho. Nada disso! Apenas fez da Boa Nova de Jesus seu lema, traduzindo-o em gestos, acções e visitas concretas. Reavivou uma luz que, através dos séculos, e mesmo depois do já citado Concílio, andava meio esquecida e sepultada por um grande punhado de cinza.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma 12 de março de 2018