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Comunicado

Comunicado

A Comissão Executiva da Plataforma de Apoio aos Refugiados reunida em Lisboa entendeu tomar a seguinte posição pública:

  1. Portugal deve, no contexto europeu, ser firme e pró-ativo na afirmação das suas convicções humanistas, defendendo não só o acolhimento e integração de refugiados no seu seio, bem como o apoio aos países que estão em maiores dificuldades, como é o caso da Grécia ou do Líbano.
  2. Nesse sentido, a evidência mais recente de incapacidade de executar o programa de recolocação de 160.000 refugiados, aprovado em Setembro passado num Conselho Europeu, dá bem a medida da incompetência e falta de vontade política dos Estados-membros e das instâncias europeias em cumprir as suas próprias decisões. Desta forma, o problema agrava-se, todos os dias, um pouco mais.
  3. Por isso, em nome da justiça e dos valores da civilização europeia, a PAR reafirma a defesa do acolhimento urgente dos refugiados, sem mais demoras, e da sua integração adequada, em condições dignas e humanas. Este acolhimento e integração pode ocorrer sem prejuízo das medidas de segurança que são essenciais para todos.
  4. Os refugiados, nomeadamente sírios, que buscam proteção na Europa são as maiores vítimas duma guerra que dura há mais de 4 anos e que destruiu tudo o que tinham. Culpá-los dos atentados recentes e fechar-lhes a porta do acolhimento entre nós é voltar a vitimizá-los.É fazer pagar a vítima pelos crimes do agressor.
  5. Nas últimas semanas, em diferentes locais no Mundo – desde Paris a Beirute, de Istambul a Bamako, do Monte Sinai a Kano – ocorreram vários atentados terroristas que merecem um repúdio total e condenação sem hesitação, bem como a solidariedade com as vítimas e seus familiares.
  6. Esta internacionalização do terror permite-nos compreender melhor, na nossa pele, o que têm passado centenas de milhares de pessoas, oriundas da Síria, que fogem à violência de um quotidiano brutalmente devastador. Começamos a perceber diretamente o que é viver debaixo do efeito desta violência e deveríamos ser mais solidários com os que a sofrem há mais tempo e com consequências trágicas.
  7. A Plataforma de Apoio aos Refugiados alerta para que esta confusão entre os que provocam o terror e os que dele fogem – os refugiados – é profundamente injusta.
  8. A PAR não pode deixar de voltar a lamentar os erros graves cometidos, nos últimos anos, pelos Estados-membros da União Europeia, ao ignorarem a crise de refugiados. Desde a falta de solidariedade com os países de limítrofes no apoio à sua gestão dos refugiados até à total incapacidade de planear e executar, no tempo oportuno, o acolhimento dos refugiados que começaram a procurar abrigo entre nós, somaram os erros que hoje são evidentes e cujas consequências têm um elevado custo humano, social e político.
  9. Em Portugal continuamos, incompreensivelmente, à espera que esse programa se inicie, depois de adiamentos sucessivos e apesar de estarem reunidas condições de acolhimento suficientes. Devem, na perspetiva da PAR, ser tomadas as medidas necessárias para desbloquear urgentemente esta situação, nomeadamente acionando mecanismos alternativos de cooperação bilateral com outros Estados-membros, para os apoiar na recolocação de refugiados presentes em seu território.
  10. A PAR continuará o seu trabalho, com redobrado sentido de missão, e apela aos portugueses que não deixem de afirmar o seu espírito solidário e humanista com todos aqueles que sendo vítimas de violência se tornaram refugiados, independentemente da sua origem, religião, nacionalidade, género ou idade.
Conclusões: Encontro Europeu dos Agentes Pastorais da Comunidades de Língua Portuguesa

Conclusões: Encontro Europeu dos Agentes Pastorais da Comunidades de Língua Portuguesa

O Encontro Europeu dos Agentes Pastorais das Comunidades de Língua Portuguesa realizou-se de 19 a 23 de Outubro de 2015, em Brescia (Itália), sob a presidência de D. António Vitalino, bispo e Beja e da Comissão Episcopal da Mobilidade Humana. Marcaram igualmente presença 5 diretores nacionais e delegados: Dr. Stefan Schohe, da Alemanha; Dr. Samuel M. Behloul, da Suíça; Marie-Anne Hameury, da França; Eugénia Costa Quaresma, de Portugal; P. Mário Toffari, da Itália.

Os 55 participantes, sacerdotes, diáconos, religiosas e leigos portugueses e de outras nacionalidades – reflexo visível da diversidade de carismas e culturas que marcam o corpo dos agentes pastorais, coordenados pela OCPM – enriquecem a Igreja com as suas vivências eclesiais diferentes. Atualmente são acompanhadas, de forma organizada, as comunidades: portuguesa, brasileira, cabo-verdiana, guineense, angolana, moçambicana, são-tomense, entre outras.

O Encontro teve como tema: “O papel das Missões na catequese e na participação dos migrantes face às atuais tendências das dioceses de acolhimento”.

Conhecer as tendências atuais das igrejas (na Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica, França, Reino Unido e Portugal) em relação à presença das comunidades lusófonas e partilhar experiências concretas, a nível da evangelização das crianças, jovens e adultos migrantes foram os dois eixos de trabalho deste congresso.

Constatações:

  1. Desde o início dos anos sessenta, altura da fundação da presença da Missão Católica nas dioceses europeias, a catequese foi uma preocupação pastoral prioritária, sendo ação pioneira em algumas delas. Tem sido realizado um trabalho maravilhoso pelos agentes pastorais, sobretudo leigos catequistas, na transmissão da fé;
  1. As Paróquias europeias são cada vez mais multiculturais e participadas por cristãos de várias origens, provocando o diálogo e a relação entre as comunidades;
  1. As Missões envolvem-se sempre mais no processo de participação nas dioceses segundo o modelo da “pastoral inter-comunitária”, estreitando laços de comunhão, colaboração e vida em comum dos cristãos independentemente das suas origens.
  1. A Missão é chamada a ser comunidade-ponte no acompanhamento dos migrantes lusófonos, colocando-os em relação com outras comunidades (italiana, croata, espanhola, polaca…) e com as paróquias locais. Os migrantes são a parte mais viva e visível do Povo de Deus em países de acelerada secularização.
  1. É grande a diversidade de contextos culturais e eclesiais que caracterizam a participação das comunidades lusófonas na igreja local, salvaguardando-as assim da tentação de uma uniformização da sua ação pastoral.
  1. A maioria das dioceses de acolhimento encontram-se em reestruturação interna através da criação de unidades pastorais (novas paróquias) e da reorganização económica exigindo das Missões uma nova adaptação e definição do lugar das comunidades.

Conclusões:

  1. Encarrega-se a OCPM de transmitir ao Secretariado Nacional da Educação Cristã – entidade que produz o material catequético usado por muitas comunidades – o fruto da nossa autocrítica, experiências e inquietações sobre a catequese em situação migratória.
  1. Solicita-se que a Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana estabeleça diálogo bilateral com as suas congéneres, sobretudo, onde a atual tendência de reestruturação pastoral e económica (recursos) estão em curso, com consequências para o futuro das Missões.
  1. As Missões – parte viva da igreja – comprometem-se em continuar o caminho gradual e necessário relativamente à “participação” na vida das dioceses onde estão inseridas, com vista à comunhão da mesma fé, à catolicidade e construção do único Povo de Deus.
  1. As Missões prosseguem na aposta formativa em relação aos leigos, especialmente na área da catequese e do catecumenado de jovens e adultos.
  1. Em sintonia com o comunicado emitido sobre a atual crise migratória vivida pela União Europeia, os participantes comprometem-se em “continuar a sensibilização e a informação das nossas comunidades de língua portuguesa e dioceses onde estamos inseridos, para atitudes e comportamentos solidários, recusando todas as ideologias alarmistas que espalham o pânico, defendem preconceitos e nacionalismo exacerbado, impedindo a abertura intercultural e a filosofia do encontro com o outro”.

Brescia, 23 de outubro de 2015

De Povo acolhido a Povo acolhedor

De Povo acolhido a Povo acolhedor

COMUNICADO DE IMPRENSA

Em Brescia (Itália), no Centro Paulo VI, reuniram-se de 19-23 de outubro, 55 agentes pastorais – sacerdotes, religiosos e leigos – comprometidos nas comunidades católicas de língua portuguesa na Europa. Desenvolvem a sua missão em 7 países: Suíça, Alemanha, Luxemburgo, Bélgica, França, Portugal, Reino Unido.

Lembrando as situações históricas de acolhimento de que a emigração lusófona beneficia, desde o início dos anos sessenta até aos nossos dias, sentimos como dever tudo fazer no sentido de que o atual êxodo forçado de migrantes e refugiados que procura a Europa, fugindo à guerra, à perseguição, à fome e à morte, seja acolhido com dignidade e humanidade num espírito generoso de partilha.

Assim sendo:

– regozijamo-nos com a grande mobilização da sociedade civil – informal e organizada – e das organizações cristãs, em vista de um acolhimento concreto de emergência e prática de gestos de boas-vindas a todos, independentemente da futura atribuição ou não do estatuto de refugiado;

– comprometemo-nos a continuar a sensibilização e a informação das nossas comunidades de língua portuguesa e dioceses onde estamos inseridos para atitudes e comportamentos solidários, recusando todas as ideologias alarmistas que espalham o pânico e defendem preconceitos e nacionalismo exacerbado, impedindo a abertura intercultural e a filosofia do encontro com o outro.

– exortamos a União Europeia a elaborar uma política comum de migração e de asilo solidárias, entre todos os países-membros, que seja sinal de empenho na justiça e na paz, defendendo, antes de tudo, o valor da pessoa humana e da família;

De comunidades acolhidas queremos continuar a construir comunidades que acolhem a todos, servem os mais vulneráveis da sociedade, dialogam com o diferente e vêem na diversidade cultural e religiosa um sinal dos tempos a discernir para a construção da única família humana.

 

Brescia, 21 de outubro de 2015

Organização católica denuncia «limpeza étnico-religiosa» no Médio Oriente

Organização católica denuncia «limpeza étnico-religiosa» no Médio Oriente

Fundação Ajuda à Igreja que Sofre revela aumento da perseguição contra cristãos

Lisboa, 13 out 2015 (Ecclesia) – A fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) divulgou hoje um relatório em que denuncia a “limpeza étnico-religiosa” contra os cristãos no Médio Oriente e regiões de África, alimentada pela “ameaça” de genocídio feita por grupos islâmicos.

“O Cristianismo estará em vias de extinção no coração de muitas das regiões bíblicas no espaço de uma geração, senão antes”, alerta o relatório ‘Perseguidos e Esquecidos?’ sobre “os cristãos oprimidos por causa da sua fé”.

O documento, enviado à Agência ECCLESIA, aborda o período entre 2013 e 2015, identificando situações de perseguição religiosa “extrema” na Arábia Saudita, China, Coreia do Norte, Eritreia, Iraque, Nigéria, Paquistão, Sudão, Síria e Vietname.

A apresentação pública do relatório decorre às 18h00 na Sociedade de Geografia, em Lisboa.

Segundo o texto, 80% das perseguições são contra cristãos, “de longe o grupo religioso mais perseguido”, sublinhando-se o impacto crescente de extremismo em África e na Ásia.

O arcebispo católico de Alepo, D. Jean-Clement Jeanbart (greco-melquita), apresenta um testemunho sobre a situação na sua cidade, revelando que a catedral “foi bombardeada seis vezes” e a sua casa já foi atingida mais de dez vezes.

“Estamos a enfrentar a raiva de uma jihad extremista. Podemos vir a desaparecer em breve”, alerta, em nome das pessoas indefesas contra “os assaltos do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh)”.

“Somos o alvo principal daquilo a que o califado chama campanha de limpeza religiosa”, acrescenta.

Segundo a AIS, o medo do genocídio, “que em muitos casos tem fundamento”, desencadeou um “êxodo de cristãos”, nomeadamente do Médio Oriente e nalgumas regiões de África.

“A Igreja está a ser silenciada e expulsa do coração da sua antiga região bíblica”, observa a fundação pontifícia.

O relatório mostra preocupações com a ascensão de grupos militantes islâmicos na Nigéria, Sudão, Quénia e Tanzânia, bem como em relação à perseguição contra cristãos levada a cabo por “movimentos religiosos nacionalistas – muçulmanos, hindus, judeus e budistas”.

“Os regimes totalitários, incluindo a China, têm colocado cada vez mais pressões sobre o Cristianismo, que é visto como uma ameaça, quanto mais não seja devido ao seu crescente apoio ‘clandestino’”, pode ler-se.

Catarina Martins Bettencourt, que dirige o secretariado português da Fundação AIS, explica à Agência ECCLESIA que “desde o último relatório não há melhorias” e mostra “grande preocupação” face às notícias que têm chegado desde o Médio Oriente.

“Há o risco real do desaparecimento do Cristianismo destes países”, insiste.

O novo relatório apresenta testemunhos de “pessoas que estão efetivamente a ser perseguidas por serem cristãos”.

Para este trabalho, a Fundação AIS entrevistou sacerdotes, bispos, religiosas e leigos, compilou testemunhos de pessoas que vivenciaram casos de violência e consultou notícias publicadas pelos meios de Comunicação Social locais.

A AIS, que assinala 20 anos de presença em Portugal, convidou para a apresentação deste documento D. George Jonathan Dodo, bispo de Zaria, na Nigéria; o padre Aurèlio Gazzera, carmelita descalço na República Centro-Africana; e a irmã Annie Demerjian, a Congregação das Irmãs de Jesus e Maria, em Alepo, Síria.

www.agencia.ecclesia.pt/semanario

AIS/ACN

OC

 

Migrações: Acolhimento «seletivo» de refugiados é uma «armadilha»

Migrações: Acolhimento «seletivo» de refugiados é uma «armadilha»

Representantes de missionários que trabalham junto de fluxos migratórios em 32 países estiveram em Portugal

O padre Alfredo Gonçalves, vigário geral dos missionários scalabrinianos, afirmou hoje à Agência ECCLESIA que o “maior problema” da Europa diante dos fluxos migratórios é fazer um acolhimento “seletivo” de migrantes e refugiados.

“É verdade que o refugiado não pode voltar a atrás porque é perseguido, mas também é verdade que o migrante que foge da pobreza também não pode voltar a atrás porque está condenado à morte, a conta-gotas, porque não tem condições de sobrevivência no seu país”, afirmou

“Essa separação muito nítida entre refugiado e migrante é perigosa é uma armadilha”, afirmou o vigário geral dos missionários scalabrinianos no fim de uma reunião que decorreu no Turcifal, na Diocese de Lisboa, com representantes de sacerdotes que trabalham com migrantes e refugiados em 32 países.

Para o sacerdote madeirense, que integra o Governo-geral da Congregação cuja prioridade é trabalhar junto das populações migrantes, a Europa tem de “construir pontes, não muros” e admitir que vai precisar de “milhões de imigrantes”.

“A Europa, para continuar no nível em que está hoje, vai precisar dentro de alguns anos de milhões de imigrantes para continuar a manter o nível de vida que tem. Os países que vêm coisas a longo prazo acolhem imigrantes e tentam dar uma oportunidade de trabalho porque sabem que esse é o futuro. Os países que os afastam vão ter problemas consigo mesmos”, sublinhou.

O Encontro Internacional dos Missionários Scalabrinianos reuniu em Portugal os responsáveis pela formação de cerca de 500 candidatos ao sacerdócio na congregação, concluindo que é necessário “conhecer mais a sério” os fluxos migratórios.

“É um dos temas emergentes em toda a sociedade, particularmente na Europa. Ela emergiu com muita força e os formadores assumiram a responsabilidade de levar mais a sério o conhecimento atualizado do fenómeno das migrações: fluxos, tendências, causas e consequências das migrações no mundo inteiro”, adiantou.

A preparação “mais sólida” dos formadores de candidatos ao sacerdócio foi uma determinação deste encontro internacional, que iniciou no dia 20 de setembro.

PR

Para que nos servem as religiões? O sentido de Comunidade, ou o apelo de construir o oikos

Para que nos servem as religiões? O sentido de Comunidade, ou o apelo de construir o oikos

De uma forma muito mais ecológica — e digo-o porque com menos mortes de árvores, mas também porque mais eficaz para com os problemas das comunidades humanas onde essas questões cada vez se colocam de forma mais premente —, quem está no terreno, junto das comunidades, sabe muito bem que é no equilíbrio, no matiz entre o multi e o inter, que tudo se joga, num tabuleiro onde, mais que saberes teóricos, é com sensibilidades, com confiança e com compromissos que se constrói comunidade.

E o equilíbrio resulta daquilo que, mais uma vez, quem está no terreno muito bem sabe: um grupo precisa de definir identidade para manter amarras e coesão, trazendo o multicultural para o todo, muitas vezes como uma imposição, mas o colectivo mais largo que o grupo necessita que, para que haja diálogo, esse multi, em que cada parte se afirma pela diferença, se encontre no espaço comum, na ágora, na praça pública da cidadania onde se dá o intercultural, que resulta em choque, em confronto, e em mudança e adaptação de cada uma das partes, mas enriquece a todos.

Sem o multicultural não temos identidades e cada indivíduo poderá ser um órfão se a sua raiz for destruída, e o colectivo precisa que cada individualidade dê espaço aos indivíduos para tocarem no semelhante que é diferente, criando a interculturalidade. Pode parecer simples, mas a Europa anda com esta equação, este verdadeiro enigma matemático, há muito tempo sem conseguir chegar a uma solução minimamente satisfatória. A riqueza da diferença encontra-se nesse fio-de-prumo que nos indica um meio-termo imaginário entre a manutenção do específico através da afirmação da diferença e o comunitário que obriga, logicamente, a fazer concessões e abdicar de absolutos.

Foi com alguma apreensão que nos últimos dias fui para um debate na Apelação, Loures, que reunia um grupo de religiosos de várias tradições com implantação na freguesia, em torno da ideia Amar é cuidar. Era um debate centrado no lugar dos idosos na sociedade.

E ia com alguma apreensão porque os mais normais encontros de lideranças religiosas têm duas características fundamentais. Por um lado, são sempre os mesmos actores, os “presidentes”, o topo das hierarquias; por outro, esses debates são quase sempre em torno de ideias muito vagas, direccionadas para conceitos fundamentais como a Paz, mas libertos de qualquer amarra ao mundo das pessoas e dos colectivos que ouvem tão doutos líderes. O meu papel, que também se repete, é o do académico, a pessoa conhecedora e isenta que pode ser um garante de diálogo e respeito — a minha tarefa é sempre muito fácil de cumprir.

Mas no fim-de-semana passado, na Apelação, o desafio era o de nos amarrar ao concreto, a questões que importunavam os ouvintes: os idosos maltratados, os idosos abandonados, vigarizados, ostracizados. A organização da autarquia de Loures tudo tinha articulado para nos conduzir para respostas e não para ideias vagas, começando pelo primeiro momento desse evento: uma peça de teatro apresentada por um punhado de jovens do bairro, um bairro complicado e problemático, o Teatro Ibisco, que nos mostrou, de forma muito directa, a violência sobre os idosos. O mote estava lançado. O debate seria sobre o concreto.

E fez-se multiculturalidade porque cada grupo, cada líder religioso, levou a sua experiencia, a sua forma de lidar com as situações; mas também se fez interculturalidade porque o grande apelo transversal todo foi o do comum, da comunidade, dos gestos e das práticas que salvaguardam os direitos dos idosos no seu geral.

Nos tempos que correm em que a família alargada que herdámos de séculos e séculos de vida em comunidade já quase não existe, foi especialmente significativo ouvir a experiencia da comunidade cigana através da Igreja Cigana Filadélfia. Com tantas diferenças encerradas em muros que erguemos em torno da imagem de “cigano”, ali todos percebemos que, para as comunidades ciganas, os idosos ainda são os anciãos, os que são ouvidos e respeitados, os que são procurados para conselho. Não há abandono de idosos, dando a todos nós uma lição de dignidade que nos obriga a quebrar os referidos muros.

Mas o evento não se esgotava neste debate. No dia seguinte, domingo, enquadrada nas Festas da Sra. da Fonte, católica, voltou-se a fazer o multi e o inter cultural. A procissão deixou de ser normal e juntou-se a uma marcha cívica em que se misturavam cânticos religiosos, com frases emblemáticas de cidadania, empunhadas como se uma manifestação silenciosa fosse. Os principais actores, na sua coragem, foram as crianças.

No fim, ao bom gosto mediterrânico, regressando à frase de Homero no final do Canto I da Ilíada, ouve uma refeição comunitária, onde todos são iguais. A comunidade cigana, a guineense, a cabo-verdiana, entre outras, partilharam a cozinha e serviram mais de 700 refeições marcadas pelas suas gastronomias. Todos comeram a um preço simbólico do prato e dos sabores do vizinho do lado. Um vizinho tantas vezes olhado com desconfiança, mas aqui alguém que alimentou.

Tudo foi possível graças às comunidades religiosas do bairro, à Pastoral dos Ciganos, à autarquia de Loures e à Junta de Freguesia da Apelação, e a tantos como eu que, com as suas especificidades, passaram umas boas horas de forma diferente, a olhar para um rol imenso de “outros”, percebendo melhor o que é a multiculturalidade e a interculturalidade.

Um oikos é isso, a reunião das individualidades numa dimensão de comum. É assim que se faz Comunidade.

02.10.2015 – Paulo Mendes Pinto, in lifestyle.publico.pt/religiaonacidade