Abr 24, 2019 | Artigo, espiritualidade, Migrantes, Recortes, Refugiados
Um médico ao encontro de Cristo
Lesbos, Tessalónica (Grécia) e Bangladesh são os três campos de refugiados onde António Lourenço, um jovem médico de Lisboa, trabalhou como voluntário. Partiu com o intuito de perceber como servir Deus através da sua profissão. Por lá, encontrou Cristo crucificado em cada história que ouviu, em cada rosto que o procurou. Voltou de coração agradecido e aberto ao reencontro.
De 23 a 29 de abril, o Ponto SJ e a Rede Mundial de Oração do Papa divulgam sete testemunhos deste jovem médico que lidou diretamente com pessoas vítimas da guerra. Uma iniciativa que surge no contexto da intenção do Papa para o mês de abril: os médicos e seus colaboradores em zonas de guerra.
António Lourenço é natural de Santarém, terminou o curso de Medicina em 2018, vive e trabalha em Lisboa. Integra, enquanto voluntário, o JRS – Serviço Jesuíta aos Refugiados, em Portugal, é membro da Comunidade de Vida Cristã e fez parte de vários projetos de ação social a nível nacional.
Os seus testemunhos mostram os efeitos da guerra, da perseguição, tortura e violência em milhares de pessoas que tiveram de fugir dos países de origem para salvaguardar a própria vida.
Nas linhas e entrelinhas dos textos, António Lourenço fala ainda da importância de se combater a indiferença perante os imigrantes e os refugiados e de se estar disponível para o encontro com Deus, através dos que mais sofrem.
As ilustrações são da designer Ana Miranda.
Abr 9, 2019 | Artigo, Dioceses, Migrantes, Notícias, Recortes, Refugiados
Conferência «Olhares sobre as Migrações»; Fotografia Ana Pinheiro em jornal Diário do Minho
Braga: Arcebispo assinala que «ninguém pode ficar indiferente» aos refugiados ou migrantes que pedem proteção
Braga, 06 abr 2019 (Ecclesia) – O arcebispo de Braga disse que só “uma verdadeira ação concertada dos Governos” responde à crise migratória, esta sexta-feira, na abertura da conferência ‘Olhares sobre as Migrações’, a última sessão do Ciclo Nova Ágora 2019, no Auditório Vita.
“Nenhum país resolverá o problema sozinho, só uma solução intergovernamental onde a solidariedade entre os Estados se torna efetiva e duradoura resolverá este terrível problema que envergonha os países desenvolvidos”, disse D. Jorge Ortiga.
O arcebispo de Braga, na abertura da conferência ‘Olhares sobre as Migrações’, assinalou que “só uma verdadeira ação concertada” dos Governos da Europa, referindo-se ao “Velho Continente”, vai ser capaz de responder à crise migratória e “poderá defender com humanismo os migrantes dos traficantes ou da morte do Mediterrâneo”.
“E criará como algo imprescindível e prioritário as condições para que possam permanecer nos seus países de origem terminando com os conflitos bélicos”, acrescentou.
Para D. Jorge Ortiga “ninguém pode ficar indiferente” aos milhões de refugiados ou migrantes forçados que pedem “proteção internacional” e às vítimas do tráfico e das novas formas de escravidão nas mãos de organizações criminosas.
Aos participantes da última sessão do Ciclo de Conferências ‘Nova Ágora’ 2019, lembrou que o Papa “desafia” as comunidades cristãs “a conjugarem quatro verbos – acolher, proteger, promover e integrar” – e cada um “encerra um programa” que diz que “não basta fazer de conta que problema não existe e solução diz respeito a outros”.
Para apresentarem os seus ‘Olhares sobre as Migrações’ a Arquidiocese de Braga convidou o diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, António Vitorino, o Alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, e José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
“O que faz falta são vozes razoáveis, ponderadas a discutir este tema. O Papa Francisco tem sido das poucas vozes que se tem levantado a defender valores que são católicos mas não são exclusivos: Dignidade da pessoa humana, obrigação da proteção internacional, respeito pelos Direitos Humanos dos migrantes”, disse António Vitorino.
Segundo o diretor-geral da OIM, o número de pessoas que tentam atravessar o Mediterrâneo da Líbia para a Europa “diminuiu no último ano cerca de 80%” mas as políticas dirigidas às causas das migrações “são de longo prazo”, “exigem sustentabilidade no tempo”, e não se podem criar “expectativas infundadas”.
“Não há arame farpado que detenha o desespero humano; É preciso olhar para as migrações de uma maneira completamente diferente”, acrescentou, observando que “é uma agenda difícil”.
António Vitorino explicou que “às causas tradicionais” – pobreza, doença, fuga dos conflitos – a mobilidade humana é originada, cada vez mais, motivos “ligados aos desequilíbrios demográficos, as epidemias e as alterações climáticas”.
“O ritmo das migrações vai no sentido crescente e reside um paradoxo, vai crescendo a rejeição das migrações, em muitos países de destino; A realidade dos números mostram que as migrações sul-sul, entre países em via de desenvolvimento no sul global, superam em número as migrações sul-norte”, observou, dando como exemplo a que “apenas 20%” dosa africanos migra para fora do próprio continente.
Sobre o ciclo de conferências, o arcebispo de Braga explicou quando deram início “à experiência de Nova Ágora”, há cinco anos”, foi para “ouvir”, saindo dos espaços eclesiásticos, “o que o mundo sussurra com ténues gemidos ou através de gritos humanitários”.
“Caminhamos juntos para construir uma cidade dos homens mais aberta aos valores universais, aos direitos fundamentais e à dignidade de todos”, destacou D. Jorge Ortiga.
Para além das “Migrações”, ‘Poder e Corrupção’ e ‘Populismos’ foram outros temas em análise no ‘Nova Ágora’ 2019 que se descentralizou e as primeiras sessões foram em Guimarães, Vila Nova de Famalicão.
CB
Abr 9, 2019 | Diálogo Inter-religioso, Recortes, Santa Sé
Eu, um muçulmano, vaticanista por um dia
Em Marrocos com o Papa: “uma experiência inesquecível” (de Brahim Maarad, editor da AGI), 2019/04/02
A chuva é uma bênção no Islão. Tanto é assim que as invocações pronunciadas durante as chuvas são mais prováveis de serem atendidas por Alá. Em Marrocosnunca chove o suficiente. No entanto, o Papa Francisco chegou, no sábado, aRabat debaixo de um dilúvio. O primeiro do ano e quem sabe quando chegará osegundo. Foi um dos muitos sinais de um dia abençoado. Um momento de encontro -como disse Francisco – “entre irmãos e irmãs”.
O meu emocionante encontro com o Papa aconteceu a bordo do avião. Com a agencia AGI tive o privilégio de acompanhá-lo – juntamente com cerca de setenta colegas de todo o mundo – nesta viagem apostólica de “Servo da Esperança”. Fi-lo como jornalista, mas também como testemunha daquela ponte de convivência tão desejada e procurada pelo Papa.
Nascido em Marrocos e criado na Itália, sou um muçulmano que vive num país predominantemente católico e trabalho a dois passos do Vaticano. Durante trinta horas foi-me confiado o encargo e a honra de ser “o vaticanista”. E o papa, depois de ouvir a minha história, voltou-se para mim com a mais humilde expressão, tão querida para ele: “Reza por mim”. Orar por alguém é a maior forma de generosidade, também e acima de tudo, quando o outro pertence a uma confissão diferente. Não pude deixar de pedir-lhe que fizesse o mesmo por mim.
O marroquino sempre foi um povo acolhedor, uma terra que é uma ponte natural entre a África e a Europa. E ele mostrou isso no sábado, reservando para o grande convidado o calor que ele merece: o próprio Rei Mohammed VI, soberano do país e “Comandante dos fiéis”, espera por ele junto à escada do avião. Uma presença que queria sublinhar o significado histórico da visita. O último papa a pisar no solo do país foi Woytila, em 1985. Oitocentos anos antes, com as mesmas intenções de conhecimento mútuo, São Francisco de Assis e
o sultão al-Malik al-Kamil encontraram-se. Demonstração profética – disse Francisco – de que “a coragem do encontro e da mão estendida é um caminho de paz e harmonia para a humanidade, onde o extremismo e o ódio são fatores de divisão e destruição”.
O desejo de estender a mão trouxe para a rua milhares de marroquinos que queriam ser testemunhas diretas desse abraço dos valores da humanidade. Ao longo da estrada percorrida pelo papa e pelo rei, os cidadãos invocaram uma longa vida para os dois. E acrescento eternidade à sua mensagem de esperança. A composição diversa da sociedade marroquina estava representada naquela multidão: ricos e pobres, migrantes africanos e turistas cristãos. Naquele dia todos eles eram apenas irmãos e irmãs, seguindo o exemplo oferecido pelo papa e pelo soberano.
No voo de volta Francisco – sempre otimista – admitiu que “ainda haverá tantas dificuldades, porque em toda religião existe um grupo fundamentalista que não quer avançar”. No entanto, durante a viagem a Marrocos – depois daquela ao Dubai – a esperança foi semeada e ” deu flores promissoras que mais tarde se tornarão frutos”.
Foram dois dias muito intensos: o Papa quis ver como está viva a pequena comunidade de cristãos presentes no país. Há 30 mil numa população de 36 milhões. “O problema não é ser pequeno, mas insignificante”, disse Francisco quando se encontrou com o clero na catedral de Rabat. E ele recomendou – aos cristãos, mas também aos muçulmanos – que “o proselitismo leva a um caminho cego. A Igreja cresce por atração, por testemunho e não por proselitismo “.
O melhor testemunho permanece para mim a missa celebrada pelo papa no complexo desportivo do Príncipe Moulay Abdellah. Mais de 10 mil fiéis de 60 países participaram. Entre eles também muitos muçulmanos. Mas a mensagem mais importante foi a do lado de fora, fora do enquadramento das cameras em direto: centenas de agentes para proteger a missa cristã, num dos principais países muçulmanos do mundo.
Eu gosto de pensar que essa proteção – duas semanas após o massacre nas mesquitas da Nova Zelândia – pode ser dedicada a todo cristão que queira orar em um país de muçulmanos. E para todo muçulmano que queira orar numa terra onde seja minoria. Para que, citando novamente o Papa, possa “crescer na cultura da misericórdia, na qual ninguém olha para o outro com indiferença, nem desvia o olhar quando vê o seu sofrimento”, deixando de lado “o ódio e a vingança que servem apenas para matar a alma “.
Brahim Maarad para o blog Straordinario quotidiano, em Agi.it . Traduzido com a devida vénia.
Abr 8, 2019 | Artigo, Recortes
O Evangelho de Lucas traz um episódio desconcertante em relação à Sagrada Família de Nazaré: Maria e José perdem de vista Jesus, procuram-no em vão entre parentes e familiares, e no fim encontram-no, com grande espanto, num contexto que não esperavam (no templo, enquanto discutia com os doutores da lei).
Quando lhe pedem uma explicação, não apreendem aquela que Ele lhes dá. Mas todos regressam a casa.
No fundo, este é um episódio menos enigmático do que pode parecer, porque a família é o espaço em que acolhemos uma verdade uns dos outros que nem sempre chegamos a compreender.
A família é certamente o lugar onde nos reencontramos, mas também o lugar em que nos perdemos. Por isso, na comunidade familiar devemos sempre procurar-nos, porque não sabemos dizer onde o outro se encontra.
A beleza da família está neste aprendizado sereno da diferença, na arte de guardar aquilo que não se compreende e que, provavelmente, não era o sonho inicial.
Não devemos pressupor que a família é um horizonte de fusão em nunca se verificarão problemas ou feridas. Pelo contrário. É talvez por causa da família que sobre o nosso rosto cairão as lágrimas mais difíceis que cada um de nós terá de chorar.
Mas o segredo é abraçar tudo isto sem nos desencorajarmos, sentindo-nos dentro de uma espécie de dança que, ainda que nos esvazie, ao mesmo tempo enche o nosso copo até acima, até transbordar.
https://www.snpcultura.org/aprendizes_da_diferenca.html
D. José Tolentino Mendonça
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: “Jesus entre os doutores” (det.) | Cima da Conegliano
Publicado em 05.04.2019
Mar 20, 2019 | Artigo, Recortes, Refugiados
19 mar, 2019 – 07:00 • Joana Gonçalves – Rádio Renascença
Viu morrer, foi feito prisioneiro e acabou por ser salvo por uma criança-soldado. Enganado na hora de pedir o visto para a família na embaixada portuguesa, só se reencontrou com a mulher e os três filhos cinco anos depois. Ben chegou a Portugal em 2013, para escapar ao conflito armado no seu país. Ouça a história, na primeira pessoa, de um pai refugiado em Portugal.

Ben (nome fictício) prefere não ser identificado. O Estado português concedeu-lhe asilo em 2013, depois de ter escapado aos rebeldes na República Democrática do Congo. Escolheu Portugal pelos fortes laços que mantém com Angola, uma das nove nações que fazem fronteira com o seu país-natal.
Como ele, mais de 4.500 pessoas pediram ajuda ao nosso país nos últimos cinco anos. A maioria desses pedidos continua a acontecer de forma espontânea, geralmente logo à chegada a um aeroporto nacional.
I – “Se eles chegarem ao poder, quem é que vão governar?”
Os rebeldes entraram na nossa aldeia em novembro de 2012. Chama-se Rutshuru e fica a 70 quilómetros de Goma, uma capital provincial com um milhão de habitantes, na República Democrática do Congo.
M23 era o nome deste grupo, Movimento 23 de Março. Roubaram as nossas casas, as nossas lojas, mataram homens, violaram mulheres. Tínhamos medo de acordar um dia com toda a aldeia em chamas.
Decidimos pedir ajuda. Na altura já tínhamos soldados das Nações Unidas no nosso país. Eu pensava muitos vezes: “Se eles estão em guerra com o Governo, porque é que atacam o povo? Não compreendo. Se eles conseguirem o que querem, se eles chegarem ao poder, quem é que vão governar? Se matarem toda a gente não vai sobrar ninguém.”
Decidimos denunciar a situação a um grupo de soldados da ONU estacionado fora da aldeia. A pessoa com quem falámos disse-nos que o chefe estava fora, em Goma.
“Quando ele regressar vamos contar-lhe o que se passa”, disse-nos.
E foi isso que aconteceu. Quando o chefe voltou trouxe uma brigada das Nações Unidas que criou um perímetro de segurança à volta da nossa aldeia. Perguntaram-nos a todos, um a um, o que se tinha passado.
Alguns relataram roubos, outros violações. Contámos tudo.
O chefe ficou muito, muito chateado. Disse-nos: “A guerra tem regras, eles não estão a cumprir as regras. Mataram civis, isto não pode ser!”
Uma semana depois os rebeldes regressaram, com o dobro da violência. Mataram soldados da ONU e levaram-nos a todos.
II – Um amigo entre a tormenta e a chegada a Portugal
Levaram-nos para uma floresta. Lá encontrámos um grupo maior, estavam à nossa espera. O líder estava ao centro.
Pensávamos que eles iam fazer o habitual, estávamos à espera que nos roubassem e nos deixassem ir, mas desta vez foi diferente. Disseram-nos que sabiam da denúncia e que não iam deixar ninguém sair de lá, enquanto não acusássemos os denunciantes.
Isto era um enorme problema, nós fomos juntos. Ninguém ia falar. Levaram-nos para um edifício, uma prisão. Disseram-nos que se não falássemos até ao final da noite nos matavam a todos, que ninguém ia sair de lá com vida.
“Deus, porque me deixaste? Porque me deixaste?”, gritei em tetela, a minha língua materna.
Estava muito assustado, aterrorizado. Bateram-me com a coronha de uma arma. À noite, um soldado perguntou: “Ouvi alguém falar tetela há pouco. Quem é?”
Eu não respondi. Tive medo. Então ele falou na minha língua materna, só eu percebi, os restantes falavam francês. “Eu quero ajudar-te. Não te vou fazer mal.”
Perguntou-me se eu tinha família. “Sim, tenho uma mulher e três filhos”, respondi. “Ninguém vai sair daqui. Não quero que fiques aqui”, disse-me.
Lembro-me que ele não queria falar comigo junto ao grupo. Levou-me, explicou-me que tinha sido uma das crianças sequestradas, recrutadas para servir no grupo de rebeldes M23.
Fugimos. Entregou-me em mão a outra pessoa. Disse que tínhamos de andar muito, fugir até muito longe, que eles iam procurar por mim. Foi esta pessoa que me salvou.
Antes de partir, contou-me que também queria fugir, mas que não tinha ainda chegado o momento. A 5 de novembro de 2013, o líder do M23 anunciou o fim das operações militares e ordenou às tropas o desarmamento e a desmobilização. Renderam-se, finalmente. Espero que ele tenha conseguido escapar.
Durante três dias estive escondido, tinha medo de sair. Ao quarto dia fugi, pedi ajuda e apanhei um avião até Lisboa. Cheguei em 2013, consegui asilo. Um mês e meio depois enviaram-me para Portalegre. Eu não sabia falar português, não tinha ainda notícias da minha família.
III – Uma carta sem aviso de receção
Antes de partir escrevi uma carta e pedi à pessoa que me ajudou que a entregasse à minha esposa.
Eu sabia que ela ia fugir, porque eu disse-lhe para o fazer na carta que lhe escrevi. Os rebeldes podiam procurar-me na aldeia e fazer-lhe muito mal. “Aí não estão seguros. Sai, leva os nosso filhos e vende tudo o que conseguires.” Nós tínhamos uma loja. “Guarda o dinheiro e vai. Eles não têm um coração bom, compreendes?”, escrevi.
Tenho duas meninas e um menino. Durante vários meses não soube deles.
Em Portugal procurei na internet, mas não consegui encontrá-los. Só mais tarde, através de uma rádio local, é que cheguei até eles. Um amigo disse-me que conhecia um jornalista de uma agência, confesso que não sei que agência era, mas foi ele quem fez o contacto.
O anúncio de que eu estava vivo e à procura deles circulou nas rádios e jornais, juntamente com as outras notícias. Alguém que conhecia a minha mulher ouviu-o numa rádio local e avisou-a de que eu estava bem, em Portugal.
O meu amigo conseguiu o número dela e nunca mais perdemos o contacto. Ela já estava na capital, falámos sempre ao telefone. Eu enviei-lhe algumas fotografias para ela mostrar aos nossos filhos.
IV – Cinco anos depois, o reencontro
Depois de conseguir o visto de residência, em 2015, fiz o pedido de reagrupamento familiar no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Esperei muito.
Paguei a uma pessoa para me ajudar a recolher os documentos necessários à obtenção do visto para a minha família. Em 2016, todos os papéis foram entregues na embaixada de Portugal em Kinshasa. Disseram-lhes que nenhum deles era válido, que tínhamos sido enganados.
Em 2017 recomeçámos todo o processo. A minha família acabaria por chegar em maio de 2018.
Quando fui buscá-los ao aeroporto estava nervoso. Passaram cinco anos desde que fugi do meu país. Sei que a minha filha mais velha ainda me conhece, ela tinha 13 anos na altura. O meu filho também, tinha 11 quando parti, mas a mais nova era ainda um bebé, com apenas 3 anos.
O primeiro a abraçar-me foi o meu filho. Lembrei-me do que me disse uma vez ao telefone, quando lhe perguntei porque é que estava sempre doente. Ele esteve muitas vezes internado antes de cá chegar.
“Pai, quando eu estiver ao pé de ti, nunca mais vou estar doente.”
A promessa foi cumprida: desde que chegou a Portugal, nunca mais esteve doente.
Texto editado a partir de uma entrevista:
https://rr.sapo.pt/especial/144746/pai-quando-estiver-ao-pe-de-ti-nunca-mais-vou-estar-doente-a-historia-de-um-pai-refugiado