A hipocrisia dos cristãos, que à aparência de o serem opõem, conscientemente, comportamentos que contradizem frontalmente o que dizem ser, esteve hoje no centro da homilia proferida pelo papa na missa a que presidiu, no Vaticano.
«Muitos cristãos, inclusive católicos, que se dizem católicos praticantes, como exploram as pessoas. Como exploram os operários», lamentou Francisco, que deu o exemplo dos patrões que, para manterem a precariedade dos assalariados, despedem-nos durante determinado tempo, para depois os voltarem a contratar.
O papa sublinhou as consequências que essa prática disseminada em Itália tem nos trabalhadores: «[Os patrões] mandam-nos [os empregados] para casa no início do verão, para voltar a ficarem com eles no fim [da estação]; assim não têm direito à reforma, não têm direito a seguir em frente», referência à insegurança causada nos empregados pela fragilidade do vínculo contratual.
«E muitos destes [patrões] dizem-se católicos: vão à missa ao domingo, mas fazem isto. E isto é pecado mortal. Quantos humilham os seus operários», vincou, dando continuidade ao ensinamento social da Igreja.
Estes comportamentos enquadram-se na atitude geral dos cristãos que «procuram as aparências» e «nunca se reconhecem pecadores»: «Se tu lhes dizes: “Tu também és pecador”, respondem: «Sim, pecados todos temos».
«Relativizam tudo e voltam a tornar-se justos. Procuram aparecer com cara de pagela, de santinho; tudo aparência. E quando há esta diferença entre a realidade e a aparência, o Senhor usa um adjetivo: “Hipócrita”», vincou o papa.
O tempo da Quaresma, que começou esta quarta-feira, é propício à mudança de atitudes, com vista a redescobrir a virtude de uma realidade «que deve estar unida à aparência», que não «maquilhe a alma».
Atente-se, por exemplo, no jejum, que com a oração e a esmola constituem atitudes a viver com maior intensidade durante os 40 dias de preparação para a Páscoa: «Quanto tu divides o teu pão com o faminto, introduzes em tua casa alguém que não tem um teto ou que é um migrante, quando procuras roupa para alguém que não a tem e te ocupas disto, então jejuas verdadeiramente».
«Peçamos ao Senhor a graça de sermos coerentes, de não sermos narcisistas, de não aparecermos mais dignos do que aquilo que somos. Peçamos esta graça, nesta Quaresma: a coerência entre o formal e o real, entre a realidade e as aparências», concluiu.
Numa iniciativa inédita, o Parlamento Europeu acolheu a Academia Ubuntu de jovens líderes, um projeto português, que os eurodeputados Carlos Coelho e Carlos Zorrinho apoiaram, enquanto contributo inovador para pensar a educação para a cidadania.
Quase 30 jovens de vários continentes (Portugal, Espanha, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Colômbia, Filipinas, Peru e Venezuela) trocaram experiências de liderança e contaram histórias de vidas vulneráveis que faziam prever outro desfecho.
Na língua bantu, ubuntu exprime a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade – eu sou porque tu és – e inspirou Mandela na sua política de reconciliação nacional e de construção da paz. Não se trata de abdicar de si, mas antes promover o autoconhecimento, a confiança e uma resiliência perante as dificuldades que leve à empatia com os outros. Em vez de muros, surgem pontes.
Os projetos comunitários apresentados formam uma longa cadeia de educação não-formal que nos deixa impressionados pela sua dinâmica. As academias de jovens líderes ubuntu começaram há dez anos e foram criando uma cadeia de formadores que passou continentes e continua a progredir.
Em Portugal, o projeto chega agora ao contexto escolar em territórios marcados pela pobreza e pela exclusão. Um dos professores contou a experiência de lidar com alunos que fogem da escola porque ficam sempre para trás e se sentem humilhados. Os estudos mostram que as dificuldades não decorrem de menos capacidades de aprendizagem, mas de fragilidades sociais e emocionais. A escola tem de dotar os alunos de ferramentas que lhes permitam desenvolver-se como pessoas e cidadãos perante um futuro que apenas adivinhamos.
António Damásio, no seu último livro, “A estranha ordem das coisas” (2017), explicava o fascínio da ciência pela descoberta de que os organismos vivos, incluindo os humanos, se constroem segundo algoritmos que servem para fazer funcionar a sua máquina genética. Como anuncia a ficção científica, a inteligência artificial permitirá replicar os humanos e até copiar emoções. Nada que não comecemos a descortinar neste admirável mundo novo de algoritmos ao serviço de interesses hegemónicos.
Cada vez mais a escola tem de promover o conhecimento de cada um e do outro, desenvolver os recursos da inteligência emocional e estimular a imaginação através das artes – tudo para que o Mundo não deixe de pertencer aos humanos.
Quanto mais as margens estão separadas, maior tem que ser a ponte para as unir. Maior também precisa de ser a coragem e a arte para construir tal ponte.
As observações que vou fazer não pertencem ao campo da engenharia civil, mas sim à arquitetura humana, inspirada pela fé. Certamente que homens e mulheres não se medem aos palmos, como nos lembra o ditado popular. Somos grandes na medida em que conseguimos unir margens distantes; aproximar pessoas e grupos diferentes na sua história e cultura, na diversidade de credos e estilos de vida.
Construir pontes de acolhimento e compreensão, de diálogo e encontro é uma tarefa de todo o ser humano. A lei da selva vai em sentido oposto: para uma fera ser grande precisa de vencer, de aniquilar a concorrência. A família é a escola primordial da arquitetura de pontes de fraternidade. Mais velhos e mais novos, mulheres e homens, de feitios e aptidões diferentes, vamos aprendendo a conviver amistosamente, completando-nos na aceitação da diversidade. É o puzzle da fraternidade, em que todos somos precisos e importantes.
O Papa da Igreja Católica costuma apelidar-se de “Sumo Pontífice”. Poderá parecer um título solene e pomposo. Mas não: descreve uma missão de serviço. A palavra “pontífice”, indo à sua raiz latina, significa construtor de pontes. Neste caso significa construir pontes entre Deus e a humanidade, entre os fiéis da Igreja de Cristo e com todas as pessoas de boa vontade. Todos temos a missão de sermos “pontífices”, construtores de pontes de encontro e fraternidade, evitando divisionismos, afastamentos, separações. Aliás Cristo, no seu discurso da última ceia, como testamento pediu aos seus seguidores: “Que todos sejam um”. E o Papa é quem tem a máxima responsabilidade de uma Igreja apostada em construir pontes de unidade. É o Sumo Pontífice.
O Papa Francisco tem sentido a urgência desta missão de construir pontes especialmente com as margens mais distantes: com as “periferias geográficas e existenciais”, com os que não vivem segundo as normas da Igreja Católica, com os crentes de outras religiões, com o mundo dos agnósticos e ateus, sublinhando que ninguém deve ser excluído da solicitude pastoral da Igreja, que o cristão deve ter coração e braços abertos para acolher a todos.
Esta atitude fundamental tem-se verificado nos critérios com que organiza a agenda das suas viagens apostólicas, dando prioridade a países em que os católicos são uma minoria, onde não pode esperar banhos de multidão e vai encontrar “margens” distantes. Por isso, mais importante é construir “pontes”. Vou agora apenas referir-me à sua última visita que foi aos Emirados Árabes Unidos, de 3 a 5 de fevereiro.
O Papa Francisco sublinhou que esta viagem pertence às “surpresas de Deus”, imprevistos que têm o dedo divino. Oito séculos antes, em 1219, outro gesto percursor deste: Francisco de Assis ousou ir ao Egito encontrar-se com o Sultão Malik al-Kamil, em conversações de paz e bem. Como referiu o Santo Padre, escreveu-se uma original e importante “nova página na história do diálogo entre o cristianismo e o islamismo”. Contrariando a escalada de fundamentalismos e terrorismos, o Papa corajosamente visitou quem poderia ser considerado estranho, senão inimigo. Assim, afirmou: “Numa época em que a tentação de ver um choque entre civilizações cristãs e islâmicas é forte, queríamos dar um sinal mais claro e decisivo que, em vez disso, é possível encontrar, é possível respeitar e dialogar”. O beijo entre o Papa e o Grande Imã de Al-Azhar al-Sharif é muito mais que uma cortesia. É uma audaz profecia de que é perfeitamente possível viver como irmãos na diferença de tradições culturais e religiosas e de que os desentendimentos e confrontos violentos devem ser sepultados no passado. É dado um passo de gigante com o documento assinado por ambos sobre “a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum”.
Deste documento, rico de humanidade e de graça divina, cito apenas esta breve passagem: “Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif – com os muçulmanos do Oriente e do Ocidente – juntamente com a Igreja Católica – com os católicos do Oriente e do Ocidente – declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério. Nós – crentes em Deus, no encontro final com Ele e no seu Julgamento –, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através deste Documento, rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se comprometerem seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da paz; para intervirem, o mais breve possível, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que o mundo vive atualmente”.
Celebramos este exemplo magnífico de ponte construída entre margens tão distantes. Mesmo que o abismo da desconfiança e das feridas históricas seja grande, é sempre possível construir uma ponte de aproximação e diálogo. O gesto do Sumo Pontífice Francisco reclama que o imitemos na nossa família, comunidade e grupo de trabalho e convivência.
O papel das religiões na Casa Comum e o caso Genesis Butler
LAUDATO SÍ – UMA ENCÍCLICA INSPIRADORA?
Quando a jovem Genesis Butler cita a encíclica Laudato Sí e pede ao Papa que faça um jejum mais rigoroso na Quaresma, não constrói apenas – ela e todo o movimento que a acompanha nesta demanda – uma hábil chamada de atenção para o propósito que a move, mas reconhece que Francisco é já um protagonista essencial no debate sobre as questões ambientais.
Laudato Sí (LS) constituirá um dos mais ruidosos gritos políticos de um Papa na história recente, entendendo-se aqui a política no sentido mais nobre, que todos responsabiliza no exercício de uma cidadania pelo bem comum. É o primeiro documento de um Papa integralmente dedicado aos problemas ambientais e à ecologia.
Não se trata de um texto em circunstância aguda, nem apenas da resposta a uma crise eruptiva, mas do traçado para uma nova era. Como escreve Francisco, “apontar para outro estilo de vida”. E é neste aspeto radical da reflexão do Papa que Genesis encontra abertura para o ousado convite. Ela representa, afinal, um movimento que pretende a radicalidade de uma mudança de comportamento no consumo alimentar.
Com as alterações climáticas como eixo da reflexão, Francisco exalta na encíclica Laudato Sí a consciência humana para o respeito pelo meio. Sem o compromisso pela Casa Comum e pela defesa da Criação – forma judaico-cristã de interpretar natureza – não será nunca possível a justiça e a paz.
Na essência, o Papa salienta a ideia de uma dívida ecológica – entre os hemisférios norte e sul – e de uma ecologia integral. Não fica apenas por frases abertas com slogans mais ou menos assertivos. Propõe gestos concretos, individuais, como a reciclagem e poupança de água, mas vai muito mais além da responsabilidade pessoal. Recorrendo aos últimos estudos científicos sobre o clima, o chefe da Igreja católica chega a ir a pormenores do drama ecológico.
Se sublinha a ameaça sobre “organismos marinhos que não temos em consideração, como certas formas de plâncton que constituem um componente muito importante da cadeia alimentar marinha e de que dependem, em última instância, espécies que se utilizam para a alimentação humana” (40, LS), condena também a tentativa de “legitimar o modelo distributivo actual, no qual uma minoria se julga com o direito de consumir numa proporção que seria impossível generalizar, porque o planeta não poderia sequer conter os resíduos de tal consumo”, bem como a corrupção, admitindo “o desenvolvimento de controles mais eficientes e uma luta mais sincera contra a corrupção, que “cresceu a sensibilidade ecológica das populações”, mas advertindo que isto “é ainda insuficiente para mudar os hábitos nocivos de consumo, que não parecem diminuir, antes expandem-se e desenvolvem-se” (55, LS).
Além disso, acrescenta, “sabemos que se desperdiça aproximadamente um terço dos alimentos produzidos, e a comida que se desperdiça é como se fosse roubada da mesa do pobre” (50, LS). O Papa pede “atenção ao desequilíbrio na distribuição da população pelo território, tanto a nível nacional como a nível mundial, porque o aumento do consumo levaria a situações regionais complexas pelas combinações de problemas ligados à poluição ambiental, ao transporte, ao tratamento de resíduos, à perda de recursos, à qualidade de vida” (50, LS).
A preocupação com o estado da Casa Comum foi inscrita nos primeiros discursos do papa argentino. Acompanha o pontificado desde o início. Juntando-se a outras lideranças religiosas igualmente interventivas neste debate, como o Patriarca Ortodoxo de Constantinopla, Francisco tomou partido.
Não se estranhe que a encíclica Laudato Sí tenha sido encarada como uma declaração de guerra aos interesses instalados em volta da exploração de recursos naturais, assentes num modelo de vida e de consumo que leva ao abismo. Foi depois deste texto – posterior à exortação onde o Papa diz que “esta economia mata” (exortação apostólica Evangelli Gaudium, 2013) – e da intransigente defesa dos migrantes, com duras críticas a Trump, que o Papa se viu alvo de uma agressiva campanha nos Estados Unidos, acusado de ser um perigoso extremista e comunista.
“Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa de formas imediatistas de entender a economia e a actividade comercial e produtiva”, denuncia o chefe da Igreja católica, “a perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a alimentação mas também para a cura de doenças e vários serviços” (32, LS).
É nesta encíclica que o Papa lança um novo debate sobre a política e o exercício político. “O mundo do consumo exacerbado é, simultaneamente, o mundo que maltrata a vida em todas as suas formas”, constata, afirmando a necessidade de “voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos”.
Se a “degradação moral” e a falta de ética destroem “o fundamento da vida social”, colocando “uns contra os outros na defesa dos próprios interesses”, despertando “novas formas de violência e crueldade” que impedem o desenvolvimento de “uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente“ (229, LS), o Papa propõe o conceito de “amor civil e político”.
É o princípio da corresponsabilidade, enquadrado na chamada Doutrina Social da Igreja: “O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor” (231, LS). Este “amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum” implicará as relações entre os indivíduos e as “ macro relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos” (encíclica Caritas in Veritate, Bento XVI, 2009).
A ecologia integral preconizada por Francisco, de Roma, sintoniza-se com o hino de Francisco de Assis. A preocupação com a natureza e a paz é inseparável da justiça, do combate à pobreza, de um compromisso social que contrarie as desigualdades.
“TEMOS DE AGIR” – UM COMPROMISSO PORTUGUÊS.
O apelo de Genesis Butler vai além do circunstancial impacto da campanha que protagoniza, pois não se dirige apenas ao Papa. É um apelo ao compromisso, lembrando avanços e recuos dos pactos e metas definidas pelos consórcios e organizações intergovernamentais.
Esta tarefa apresenta-se com tanta urgência quanta a evidência de um quotidiano que já nos habituou à imprevisibilidade dos ritmos e vontades do clima.
Como sublinha o Papa Francisco, cada indivíduo, cada comunidade, cada núcleo de influência, tem uma responsabilidade própria. É o caso das estruturas religiosas, a começar nas lideranças.
Com reduzido impacto mediático, quase passou despercebido o momento histórico vivido em Junho de 2017. Dias antes da tragédia de Pedrógão, representantes de todas as confissões religiosas em Portugal assinaram em Vila Nova de Gaia, durante a primeira versão do evento Gaia – Todo Um Mundo, o Compromisso pela Casa Comum e pela Ética do Cuidado. O texto foi trabalhado por investigadores da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, depois de elaborada reflexão e diálogo.
Os subscritores reconhecem que “existe uma ligação fundamental entre o que fazemos e o que isso faz ao Planeta, ou seja, à «casa que é comum» que, longe de ser uma qualquer propriedade ou recurso de quem quer que seja, é acima de tudo a condição de possibilidade de existirmos, vivermos e aprendermos a cuidar”. Concordando que há uma “interdependência fundamental da Vida”, vislumbram a necessidade de “uma revolução cultural que transforme o homem (…) num sujeito ecológico que entende e experiência o ethos como morada global”. Além do estudo “de uma rede natural de vida e da revisão do lugar do homem na Natureza, precisamos de (re)encontrar o lugar da Natureza no humano”, lê-se, o ser humano é “em relação e interdependência, ser no mundo e com o mundo”.
Porque, embora de diferentes formas, as diferentes tradições religiosas abordam “as mesmas preocupações perante alterações ambientais radicadas em práticas que contrariam os equilíbrios dos ecossistemas”, os representantes das confissões religiosas radicadas em Portugal assumem a vontade de elevar a voz “para que todos e cada um, pessoal ou institucionalmente, cooperem pela paz radicada na Compaixão por toda a vida planetária, de modo a que seja estabelecido um programa ecológico eficiente, pleno de impulso fraterno e sustentabilidade verdadeiramente integral.”
Este Compromisso foi subscrito também por autarcas e investigadores, numa cerimónia precedida de um debate sobre a relação entre o pensamento religioso e a ecologia, cujo tema inspirou o título deste texto – A Terra em risco, o Mundo em Procura.
Noutra sessão, o Compromisso pela Casa Comum e pela Ética do Cuidado voltou a ser subscrito na Amadora por representantes locais das confissões religiosas e da autarquia. Está em dinâmica crescente, procurando envolver lideranças, na expectativa que tome formas práticas nas comunidades religiosas, com consequências no comportamento individual.
Na sequência desta iniciativa, a área de Ciência das Religiões da ULHT anunciou já criação de um selo ambiental a atribuir às estruturas religiosas.
Sendo abrangente, este Compromisso não especifica a questão alimentar, mas esta é subjacente quando os subscritores se comprometem “a tudo fazer para inverter práticas depredatórias, promovendo uma compreensão ecológica associada a valores éticos”. O resto cabe à mediação e especificidade do impacto da religião na vida concreta dos crentes.
“COZINHAR É UM MODO DE AMAR OS OUTROS” – AS RELIGIÕES E A ALIMENTAÇÃO
A questão ambiental é um pilar do fenómeno religioso, mas não é uma gaveta isolada no armário da experiência religiosa. O mesmo acontece com o ato de comer.
Se perscrutarmos a ancestralidade do fenómeno religioso, verificaremos sem dificuldade que os interditos alimentares definidos pelas religiões derivam, em grande medida, de uma relação de dependência com o meio, entre a vontade humana, o concreto da sobrevivência e a procura de sentido para o abstrato.
A visão antropos compreende-se na grande angular do meio envolvente e de uma alteridade orientadora, organizadora. É o homem no meio, que em contexto bíblico assume o papel de cuidador delegado e responsável, gestor em mediação ética.
Até em práticas religiosas animistas, a divinização de animais reflete paradoxalmente esta matriz de compreensão do meio. Satisfazendo os deuses, o sacrifício dá altivez à espécie.
As narrativas do sagrado a Oriente definem também o papel humano nesta cadeia. No percurso para a moksha ou para o nirvana, a ética da interdependência é determinante. A libertação faz-se no respeito pelo meio, porque tudo está ligado e transporta o sopro da existência. Neste contexto, aniquilar um ser vivo é um revés.
Um debate realizado em Novembro de 2018 na Mesquita Central de Lisboa realçou o papel das religiões na promoção de uma alimentação saudável, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produção.
Paulo Mendes Pinto, coordenador da Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, lembrou que as religiões, e sobretudo os monoteísmos, “em que a refeição é central na sociabilização e na prática religiosa, valorizam o acto de comer”. As narrativas religiosas monoteístas, acrescentou, falam num “mandato” dado ao homem para distribuir com justiça e “cuidar da Terra participando no acto da Criação”. O desafio religioso é o da “igualdade”, concluiu, “a alimentação é uma responsabilidade ética”, sendo por isso assustador voltar a ver imagens de crianças a morrer à fome quando se sabe como superar essa carência.
“Cozinhar é um modo de amar os outros”. Estas palavras de Mia Couto serviram de ingrediente para a conversa servida na mesquita com uma pergunta na ementa: “Como alimentar a Humanidade de forma sustentável?”
Francisco Sarmento, o representante da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura) em Portugal, abriu o apetite da conversa citando o poeta moçambicano, biólogo e escritor, para realçar a importância de se encarar a alimentação com responsabilidade ética: “Cozinhar é o mais privado e arriscado acto, no alimento se coloca ternura e ódio, na panela se verte tempero ou veneno. Cozinhar não é um serviço, cozinhar é um modo de amar os outros.”
A partir das palavras de Mia Couto, Sarmento salientou que “alimentação e sustentabilidade têm de estar juntas”, pois “não se pode alimentar a Humanidade de forma insustentável”.
Especialista em gestão alimentar e políticas agrícolas, o representante da FAO alertou para o novo problema da produção excessiva de calorias, em vez de nutrientes, que faz aumentar a incidência de doenças como a obesidade ou a diabetes, desencadeando indirectamente, entre outros dramas, a exclusão social e o absentismo laboral. A situação é mais grave nos países em vias de desenvolvimento “que não têm sistemas de saúde capazes de responder”, afirmou. Francisco Sarmento alertou ainda para a necessidade de “mudarem os padrões de consumo alimentar, com a evolução para dietas” mais saudáveis e ecologicamente sustentáveis e admitiu que esta discussão pode ser frustrante: as soluções são conhecidas mas parece faltar vontade política para contrariar uma “alimentação cada vez mais industrializada, que afecta os grupos mais desfavorecidos”.
As estruturas sociais, incluindo as religiosas, “têm um papel pedagógico na alimentação saudável, valorizando o acto de comer e os sistemas tradicionais de produção”, acrescentou Francisco Sarmento, insistindo no reforço “dos produtores familiares, ligando o meio-ambiente à agricultura, reconstruindo sistemas localizados, de proximidade, na produção e na confecção”, para atenuar o uso químico de conservantes.
“ABSTENHA-SE DE PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL DURANTE A QUARESMA” – O APELO OUSADO.
O convite ao Papa tem um contexto. Na tradição cristã, a Quaresma é um tempo de jejum e abstinência, abrindo espaço à oração e à penitência dos fiéis, correspondente ao período de quarenta dias de preparação para a Páscoa. Lembra o número quarenta, simbólico em muitas narrativas do Antigo e do Novo Testamento, como os quarenta dias que Jesus passou no deserto ou os 40 anos da travessia dos judeus no deserto.
Mas o que pede Genesis Butler ao Papa? A tradição católica revela comportamentos exacerbados no folclore das devoções. Mas, entre a teatralização da penitência como catequese e o exercício da chamada «mortificação corporal» – cuja sustentação teológica é controversa – sobrevive um princípio orientador na vivência deste tempo.
Na indicação do papa Leão Magno, há que “mortificar um pouco o homem exterior, para que o interior seja restaurado, perdendo um pouco do excesso corpóreo, o espírito reforça-se”.
O jejum da Quaresma não consiste na contenção dos impulsos da libido ou na privação de alimentos para fazer dieta, embora esta acabe por resultar numa ação de restabelecimento. É sobretudo um convite à experiência espiritual. As buscas do e pelo espírito compreendem o indivíduo como um todo – corpo e alma.
Na disciplina tradicional da Igreja, jejum e abstinência fazem-se da Quarta-feira de Cinzas à Páscoa, limitando a alimentação diária a uma refeição ou comendo de forma ligeira e simples, evitando o esbanjamento. Os fiéis podem ainda privar-se de uma certa quantidade e qualidade de alimentos ou bebidas. A mais praticada é a abstenção da carne, pelo menos nas sextas-feiras da Quaresma.
A missiva de Genesis Butler usa a figura do Papa para dar um impulso mediático à opção vegana como proposta de vida, contribuindo para contrariar a “destruição e devastação global” provocada por um excessivo consumo de carne. Verificando-se a generosidade e honestidade da campanha, o Papa não se incomodará, pelo contrário. Mas convém reforçar que não basta deixar de comer carne para resolver o problema e fazer a desejada revolução nos hábitos alimentares. Não comer carne na Quaresma será uma opção tranquila para o Papa e não será difícil para qualquer outro católico, nem para qualquer outro cidadão, crente ou não crente. E, na verdade, não é ao Papa que este convite se dirige…
Por Joaquim Franco, jornalista da SIC e investigador em Ciência das Religiões
Padre ucraniano Ivan Petliak fala de celebração, convívio e festa após jejum que vivem este domingo
Azeitão, 05 jan 2019 (Ecclesia) – Os católicos de Rito Bizantino e a maioria dos ortodoxos vão celebrar a 7 de janeiro o nascimento de Jesus, que começa a ser vivido no domingo, com um dia de jejum, Missa, e o encontro entre familiares e amigos à mesa.
“No Natal temos sempre mensagem de paz no mundo, nos nossos corações, de solidariedade. Estamos juntos e é muito importante quando vivemos aqui, longe da nossa terra e das nossas famílias”, disse o padre ucraniano Ivan Petliak à Agência ECCLESIA.
O sacerdote, em serviço pastoral na Diocese de Setúbal, explicou a celebração inclui momentos de oração, o jantar e cânticos tradicionais de Natal, antes de ir para “a Igreja à noite, onde começa a celebração do Natal” com a Missa vespertina.
O padre Ivan Petliak acompanha a comunidade de migrantes ucranianos greco-católicos na Diocese de Setúbal, os quais vivem “um grande jejum” e uma vigília antes do Natal como56 forma de preparar “os corações e as almas dos fiéis” para o “grande feriado”, onde têm “algumas orações especiais”.
A véspera do Natal dos cristãos de Rito Bizantino é também marcada pelo convívio e encontro da família à volta da mesa, num “danto jantar” para o qual podem “convidar os amigos” e também “as pessoas que não têm comida, que não têm casa”.
“Antigamente, deixávamos sempre um lugar livre, que simbolizava as pessoas que precisam deste lugar, desta comida. Na mesa devem estar doze pratos, como os meses no ano”, acrescenta.
O sacerdote que acompanha a comunidade dos imigrantes católicos ucranianos, através de um acordo de colaboração com a Igreja Greco-Católica Ucraniana, conta que na mesa vão ter “pratos típicos, normalmente mais legumes, pratos com peixe”, numa ementa sem carne, e revela que já tem um convite para jantar com duas famílias que se vão juntar para esta festa.
Já no dia de Natal, a liturgia é celebrada normalmente de manhã; em Portugal, como é um dia normal e “as pessoas trabalham”, o padre Ivan Petliak vai presidir à Eucaristia às 19h00, na capela de Nossa Senhora do Carmo, da Ordem Terceira, em Setúbal.
O calendário solar juliano foi criado em 45 a.C. pelo imperador romano Júlio César e difere do calendário gregoriano, utilizado no Ocidente; quando entrou em vigor, em 1582, o Natal era celebrado com 10 dias de diferença e, ao longo de quase 500 anos, a diferença aumentou em mais três dias.
Já sobre as trocas de prendas, o sacerdote explica que na comunidade cristã de Rito Bizantino não se trocam as caraterísticas lembranças/ofertas nestes dias da festa de Natal, mas no dia de São Nicolau (bispo dos séculos III-IV), que celebraram a 18 de dezembro.
O vigário paroquial de Azeitão, nomeado em setembro de 2018 pelo bispo diocesano D. José Ornelas, destaca que existe partilha de vivências e tradições, como aconteceu a 1 de dezembro quando celebraram a Missa ucraniana em Rito Bizantino, na igreja de São Lourenço” seguida de um jantar ucraniano.
Em Portugal, além das comunidades ucranianas na Diocese de Setúbal, existem outras na dioceses de Évora, Lisboa, Porto e Aveiro.
“Temos muitos migrantes e poucos padres, 12 ou 13 padres Greco-Católicos que podem celebrar no rito bizantino e rito católico”, comenta o padre Ivan Petliak que foi ordenado presbítero a 23 de abril do ano 2000.
O pintor surrealista René Magritte dizia: “Tudo quanto vemos, esconde alguma coisa”. Palavras de artista que enxerga novos significados para o que nós, humanos simples, chamamos de realidade. Não é somente a arte, no entanto, que interpreta o que os olhos veem e aproxima novas realidades. Os olhos da fé perscrutam ainda mais profundamente o que os acontecimentos da vida podem revelar.
Uma mensagem que não pode ser ignorada é a permanente encarnação da divindade na humanidade. É bom lembrar que o Rei dirá tanto aos justos, quanto aos que não merecem o prémio: “Em verdade vos digo que quanto fizestes a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes (Mateus, 25,40).
Hoje, por causa de guerras, fome, perseguições, injustiças, milhões de pessoas fogem de sua terra, abandonam tudo, em fuga, diante da ferocidade dos herodes atuais. Homens levando o quase nada que sobrou da destruição de suas casas, as mães carregando os filhos: José que leva uma trouxa de roupas e Maria com Jesus em seu colo, emigrantes que fogem de Herodes. A perseguição aos filhos de Deus continua: todos à procura de um abrigo… haverá uma hospedaria para eles?
Deu à luz o seu primogénito, envolveu-O em panos e o colocou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. (Lucas, 2,7)
Quem acolhe, hoje, as sagradas famílias em fuga?
Mulher Rohingya com o seu filho, uma entre os mais de 650.000 refugiados escorraçados de Myanmar. Foto EPA/NYUNT WIN
Podemos oferecer abrigo às “sagradas” famílias à procura de alguém que as acolha? O Natal, festa da família, está a chegar. O coração amolece e colocamos em ação emoções e poesia, essenciais, mais do que a razão e a filosofia, para a vida.
Ao remexer em recordações, lembro-me de uma mensagem islamita que diz muito sobre Deus, “o Clemente, o Misericordioso” (como repete insistentemente o Alcorão). Ao fiel que lhe pede para ser guardado do pecado, Alá diz:
Ó Ibrahim, pedes-me para te livrar do pecado; é o que todos os meus servos me pedem. Mas se eu te preservar do pecado, também te privaria da minha misericórdia. Se todos os homens fossem inocentes, a quem poderia conceder a minha graça?.
Sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano
Na manjedoura, entre Maria e José, um bebé. A antiga sabedoria diz que “sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano”. Mas, como nos alerta Leonardo Boff, aquele bebé é especial: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser deus. Só Deus quis ser menino”.
E Fernando Pessoa:
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
As palavras do poeta descortinam horizontes com a afetuosidade que não encontramos nas palavras de muitos teólogos, mas que encontramos no salmo 8 da Bíblia: “A força do nosso Deus é a mesma força da candura da criança, diante da qual até os mais violentos ficam desarmados”.
Como pode Deus renunciar à sua omnipotência?
Uma criança deitada numa manjedoura não intimida e aproximamo-nos surpreendidos: como pode Deus renunciar à sua omnipotência? Ele mesmo nos confidencia: a sua omnipotência não resiste à misericórdia.
A criança que tem por berço a manjedoura é o mesmo Deus que se deixou condicionar pelo seu amor, pela sua infinita misericórdia.
Há algum pecado que vença a misericórdia de Deus? Talvez. A culpa mais grave é não querer ser amado. Disso depende todo o mal.
A omnipotência de Deus está na decisão de amar; o poder do homem começa quando aceita ser amado.
É o que Natal nos indica: Deus pede permissão para que o seu amor chegue até nós e, através de nós, chegue aos outros. Seremos nós porta-vozes de Deus, ajudando nessa missão?