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Mensagem do Papa Francisco para o «Dia Mundial de Oração pelo Cuidado pela Criação» (2018)

Mensagem do Papa Francisco para o «Dia Mundial de Oração pelo Cuidado pela Criação» (2018)

Caros irmãos e irmãs!

Neste Dia de Oração desejo, em primeiro lugar, agradecer ao Senhor pelo dom da casa comum e por todos os homens de boa vontade que estão comprometidos em protegê-la. Agradeço também pelos numerosos projetos que visam promover o estudo e a proteção dos ecossistemas, pelos esforços destinados a desenvolver uma agricultura mais sustentável e uma alimentação mais responsável, pelas diversas iniciativas educacionais, espirituais e litúrgicas que envolvem muitos cristãos em todo o mundo no cuidado da criação.

Devemos reconhecê-lo: não soubemos proteger a criação com responsabilidade. A situação ambiental, quer a nível global, quer em muitos lugares específicos, não pode ser considerada satisfatória. Com razão, surgiu a necessidade de uma relação renovada e saudável entre a humanidade e a criação, a convicção de que apenas uma visão do homem autêntica e integral nos permitirá cuidar melhor do nosso planeta para o benefício das gerações presentes e futuras, pois «não há ecologia sem uma adequada antropologia» (Carta Enc. Laudato si’, 118).

Neste Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação, que a Igreja Católica há alguns anos celebra em união com os irmãos e irmãs ortodoxos, e com o apoio de outras Igrejas e Comunidades cristãs, gostaria de chamar a atenção para a questão da água, elemento tão simples e precioso, cujo acesso infelizmente é difícil para muitos, se não impossível. No entanto, «o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável» (ibid., 30).

Great Barrier Reef With Sea Life

A água nos convida a refletir sobre as nossas origens. A maior parte do corpo é composta de água; e muitas civilizações, na história, surgiram nas proximidades de grandes cursos de água que marcaram sua identidade. É sugestiva a imagem utilizada no início do Génesis, em que se diz que nas origens o espírito do Criador «pairava sobre as águas» (1,2).

Pensando em seu papel fundamental na criação e no desenvolvimento humano, sinto a necessidade de dar graças a Deus pela «irmã água», simples e útil sem nada de parecido para a vida no planeta. Precisamente por esse motivo, cuidar de fontes e bacias hídricas é um imperativo urgente. Hoje, mais do que nunca, é necessário um olhar que  ultrapasse o imediato (cf. Carta Enc. Laudato si’, 36), além de «critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual» (ibid., 159). Precisa-se urgentemente de projetos conjuntos e de ações concretas, tendo em conta que é inaceitável qualquer privatização do bem natural da água que seja contrária ao direito humano de poder ter acesso a ela.

Para nós cristãos, a água é um elemento essencial de purificação e de vida. O pensamento vai imediatamente para o Batismo, sacramento do nosso renascimento. A água santificada pelo Espírito é a matéria pela qual Deus nos vivificou e nos renovou; é a fonte abençoada de uma vida que não morre mais. O Batismo representa também, para os cristãos de diferentes confissões, o ponto de partida real e indispensável para viver uma fraternidade cada vez mais autêntica no caminho da plena unidade. Jesus, durante a sua missão, prometeu uma água capaz de saciar para sempre a sede do homem (cf. Jo 4,14), e profetizou: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7,37). Ir a Jesus, beber d’Ele significa encontrá-Lo pessoalmente como Senhor, haurindo da sua Palavra o sentido da vida. Que possam ressoar em nós com força as palavras que Ele pronunciou na cruz: «Tenho sede» (Jo 19, 28). O Senhor continua a pedir para ser saciado na sua sede, pois tem sede de amor. Ele nos pede para dar-Lhe de beber nos muitos sedentos de hoje, para então nos dizer: «Eu estava com sede e me destes de beber» (Mt 25,35). Dar de beber, na aldeia global, não envolve apenas gestos pessoais de caridade, mas escolhas concretas e compromisso constante de garantir a todos o bem primário da água.

Gostaria também de tocar na questão dos mares e dos oceanos. Devemos agradecer ao Criador pelo dom imponente e maravilhoso das grandes águas e de quanto elas contêm (cf. Gen 1,20-21; Sl 146,6), e louvá-Lo por ter coberto a terra com os oceanos (cf. Sl104,6). Orientar os nossos pensamentos para as imensas extensões marinhas, em constante movimento, representa também, em certo sentido, uma oportunidade para pensar em Deus, que acompanha constantemente a sua criação, fazendo com que siga adiante, mantendo-a na existência (cf. S. João Paulo II, Catequese, 7 de Maio de 1986).

Proteger esse bem inestimável todos os dias representa hoje uma responsabilidade imperiosa, um desafio real: é necessária uma cooperação eficaz entre os homens de boa vontade para colaborar na obra contínua do Criador. Infelizmente, muitos esforços desaparecem devido à falta de regulamentação e de controles efetivos, especialmente no que diz respeito à proteção das áreas marinhas para além das fronteiras nacionais (cf. Carta Enc. Laudato si’, 174). Não podemos permitir que os mares e oceanos se preencham com extensões inertes de plástico flutuante. Também para essa emergência somos chamados a nos comprometer, com uma mentalidade ativa, rezando como se tudo dependesse da Providência divina e agindo como se tudo dependesse de nós.

Rezemos para que as águas não sejam um sinal de separação entre os povos, mas de encontro para a comunidade humana. Rezemos para que sejam protegidas aquelas pessoas que arriscam suas vidas nas ondas do oceano em busca de um futuro melhor.

Peçamos ao Senhor e àqueles que realizam o alto serviço da política para que as questões mais delicadas da nossa época, tais como as relacionadas com a migração, com a mudança climática, com o direito para todos de usufruírem dos bens primários, sejam encaradas com responsabilidade, com previsão olhando para o amanhã, com generosidade e com espírito de cooperação, especialmente entre os países que têm maior disponibilidade.

Rezemos por aqueles que se dedicam ao apostolado do mar, por aqueles que ajudam a refletir sobre os problemas com que se debatem os ecossistemas marítimos, por aqueles que contribuem para o desenvolvimento e a aplicação de regulamentos internacionais sobre os mares que possam tutelar as pessoas, os Países, os bens, os recursos naturais – penso, por exemplo, na fauna e na flora marinha, bem como nos recifes de coral (cf. ibid., 41) ou nos fundos marinhos – e garantindo um desenvolvimento integral na perspectiva do bem comum de toda a família humana e não de interesses particulares. Lembremos também de quantas pessoas trabalham para a proteção das áreas marítimas, para a tutela dos oceanos e sua biodiversidade, para que possam realizar essa tarefa com responsabilidade e honestidade.

Por fim, preocupemo-nos com as jovens gerações e rezemos por elas, para que cresçam no conhecimento e no respeito pela casa comum e no desejo de cuidar do bem essencial da água para o benefício de todos. O meu desejo é que as comunidades cristãs contribuam cada vez mais concretamente para que todos possam usufruir desse recurso indispensável, no cuidado respeitoso dos dons recebidos do Criador, em particular dos cursos de água, mares e oceanos.

Vaticano, 1 de Setembro de 2018

Francisco

Refugiados: Vaticano pede Pacto Global que apoie «verdadeiramente» quem procura apoio internacional

Refugiados: Vaticano pede Pacto Global que apoie «verdadeiramente» quem procura apoio internacional

Genebra, 12 abr 2018 (Ecclesia) –  O Vaticano destacou a necessidade de os países adotarem “políticas inclusivas e não-discriminatórias” relativamente aos refugiados, que garantam soluções rápidas a quem busca asilo e ajuda, e a segurança dos cidadãos.

D. Ivan Jurkovic, observador permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, abordou a questão num conjunto de sessões em Genebra sobre o Pacto Global para os Refugiados.

Na intervenção, enviada hoje à Agência ECCLESIA, o responsável frisou que “a segurança das fronteiras e o bem-estar dos refugiados ou daqueles que pedem asilo não devem ser vistas como algo inconciliável”, mas como “dois pilares” da mesma política migratória.

O arcebispo esloveno lembrou sobretudo a indefinição que rodeia o futuro de muitos refugiados que “fugiram de conflitos armados, de situações de perseguição e violência”.

Homens, mulheres e crianças, famílias que merecem respostas “rápidas” e um processo mais eficaz de “triagem e admissão”.

“Um plano migratório exclusivamente orientado para a questão da segurança deixa de lado as tragédias que obrigam as pessoas a procurar proteção fora dos seus países”, salientou o representante da Santa Sé, que pede “um programa de ação mais abrangente e humano”.

“É fundamental assegurar que este documento (ndr: Pacto Global) contribua verdadeiramente para a melhoria da vida dos milhões de refugiados que continuamente procuram proteção internacional”, referiu D. Ivan Jurkovic.

Numa perspetiva mais específica, o arcebispo sublinhou duas áreas urgentes na definição das políticas de apoio aos refugiados: o acesso à educação e aos cuidados de saúde.

Para o observador permanente da Santa Sé junto das Nações Unidas, além de essencial na integração dos refugiados, a educação é uma ferramenta fulcral no que diz respeito à “proteção” das crianças de fenómenos como “o tráfico humano, a exploração laboral e outras formas de escravatura”.

Os cuidados de saúde inscrevem-se, por sua vez, no “direito à vida” e à “dignidade” que cabe a cada ser humano.

“O acesso à educação e aos cuidados de saúde inspiram esperança entre os refugiados e contribuem em muito para restaurar a sua dignidade”, sustentou.

Na delineação do Pacto Global, o Vaticano diz que importa também não esquecer “a assistência às comunidades locais que tão generosamente acolhem” os refugiados, numa visão necessariamente “holística”.

O Pacto Global para os Refugiados teve origem numa declaração assinada por todos os 193 Estados-membros da ONU em 2016, em Nova Iorque.

A intenção das Nações Unidas é estabelecer um conjunto de regras internacionais que facilite o processo de acolhimento e de integração dos refugiados.

Nos últimos dois anos têm-se sucedido os encontros entre responsáveis dos países, com a participação do Vaticano, no sentido de dar uma forma mais específica a esta declaração de intenções.

Têm também sido registadas algumas baixas, em termos dos países que inicialmente subscreveram este Pacto, com destaque para a saída dos Estados Unidos da América.

JCP

Refugiados: Vaticano pede Pacto Global que apoie «verdadeiramente» quem procura apoio internacional

5º aniversário de eleição do Papa Francisco

5º aniversário de eleição do Papa Francisco

Mais do que um simples “aniversário de eleição do Papa Francisco à cátedra de Pedro”, neste 13 de março comemora-se na Igreja Católica a reemergência da pessoa e da Boa Nova de Jesus Cristo. E junto com o “profeta itinerante de Nazaré”, reemerge igualmente uma dupla centralidade: o Reino de Deus como centro da mensagem do Mestre, de um lado, e, de outro, os pobres como centro do Reino. Esse retorno ao núcleo kerygmático dos escritos neotestamentários vem à tona desde as primeiras palavras e os primeiros gestos do Pontífice, para consolidar-se em seus breves discursos, suas Cartas Encíclicas (Lumen Fidei, 2013 e Laudato Si’, 2015) e sua Exortação Apostólica (Evangelii Gaudium, 2013).

A centralidade do Reino de Deus vem atestada com força profética e veemente em todas as páginas do Novo Testamento, mas de modo particular nos capítulos sobre as parábolas de Jesus. O Papa Francisco retoma, de forma complementar, seja a linguagem de tais narrações alegóricas, seja o seu conteúdo oculto. Quanto e este último, convém notar como Jorge Bergoglio tem insistido – e venha insistindo – sobre o fato de que a esperança escatológica do Reino tem primazia sobre os bens e riquezas deste mundo. Mas não é só isso! Enquanto os poderosos dominam as nações através de uma “política econômica que exclui, descarta e mata”, o Senhor chama para si o serviço aos mais necessitados. Os primeiros se dispõem a construir muros mediante uma “globalização da indiferença”. Jesus, além da ponte entre o céu e a terra, convida a estabelecer novas pontes que liguem pessoas, culturas e nações. A “cultura da solidariedade” constitui o alicerce para a preservação da “nossa casa comum” (Laudato Si’).

Não é diferente com a forma de comunicação. Em lugar de uma linguagem retórica e sofisticada, acadêmica e até mesmo hermética, não raro auto-referente, o Pontífice concede prioridade às expressões do dia-a-dia. A imagem da metáfora e a forma simbólica lhe são extremamente caras. Aprendeu a ser popular sem cair na banalização do uso da língua. Simples e profundo ao mesmo tempo, consegue extrair pérolas novas de um tesouro velho de dois séculos. Sabe que um “bongiorno”, “buonasera” ou “buon pranzo”, do ponto de vista da presença divina entre nós, por vezes vale tanto quanto um tratado teológico ou doutrinário. Isso não significa que não conheça a teologia e a doutrina. Ao contrário, conhece-as tão bem que é capaz de traduzi-las em palavras e gestos ligados à comunicação cotidiana e transparente.

No interior da centralidade do Reino, distingue-se claramente a centralidade dos pobres. Aqui corremos o perigo de repetir o óbvio. Bastaria um rápido sobrevoo pelos cinco anos de seu pontificado para dar-se conta de que os pobres ocupam parte central de sua solicitude pastoral do Papa Francisco. Ou ainda ter em conta, sempre no mesmo período de cinco anos, o contato vivo e caloroso com a “ovelha perdida” do Evangelho (Lc 15.3-7): povo da rua, prisioneiros e menores abandonados; pessoas com necessidades especiais; migrantes, refugiados e prófugos; crianças e mulheres vítimas da violência; trabalhadores sem terra, sem tecto e sem trabalho… Enfim, pessoas doentes e indefesas, oprimidas e marginalizadas, excluídas e descartáveis no sistema da economia globalizada.

Seguindo de perto as intuições do Concílio Vaticano II, desde cedo o Pontífice fez questão de desfazer-se de solenidades demasiadamente pomposas e ostentatórias, como também de costumes e indumentária herdados de uma Igreja principesca e majestosa. Tampouco se apegou aos benefícios de uma aliança com o poder e riqueza. O ritualismo liturgístico também lhe é alheio. No seu modo de ser e de agir, a eclesiologia do Povo de Deus se sobrepõe à eclesiologia hierárquica. E isso não somente em discursos e promessas, mas na prática de uma opção evangélica firme e determinada. Evidente que semelhante postura lhe acarretou inimizade e mesmo perseguição, seja no interior como no exterior da Igreja. Mas trouxe-lhe igualmente o carinho do povo e o reconhecimento de não poucas autoridades e meios de comunicação. Não que o Papa Francisco tenha reinventado a roda ou o Evangelho. Nada disso! Apenas fez da Boa Nova de Jesus seu lema, traduzindo-o em gestos, acções e visitas concretas. Reavivou uma luz que, através dos séculos, e mesmo depois do já citado Concílio, andava meio esquecida e sepultada por um grande punhado de cinza.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs – Roma 12 de março de 2018

Migrantes e refugiados: novos desafios e respostas da Igreja

Migrantes e refugiados: novos desafios e respostas da Igreja

Encontro será aberto esta terça-feira (06/03) em Roma pelo secretário de Estado vaticano, cardeal Pietro Parolin, e pelo prefeito do Dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral, cardeal Peter Turkson.

Cidade do Vaticano

A resposta da Igreja católica às necessidades dos migrantes e dos refugiados estará no centro do encontro da Comissão internacional católica para migração, que se realizará em Roma de 6 a 8 de março (desta terça até a próxima quinta-feira).

 Presente em 50 países no mundo inteiro

Fundada em 1951, a Comissão é um organismo internacional que reúne os representantes das Conferências episcopais e das agências católicas que se ocupam de migrantes e refugiados e está presente em 50 países no mundo inteiro. Os participantes serão recebidos pelo Papa Francisco na próxima quinta-feira, 8 de março, às 10h locais.

O encontro será aberto esta terça-feira pelo secretário de Estado vaticano, cardeal Pietro Parolin, e pelo prefeito do Dicastério para o serviço do desenvolvimento humano integral, cardeal Peter Turkson.

“O encontro realiza-se a cada 4 anos e terá um impacto significativo sobre como as organizações católicas do mundo inteiro respondem às necessidades de migrantes e refugiados.”

 O encontro deste ano propõe-se a adotar um quadro estratégico para 2019-2022, “buscando ser dinâmicos e capazes de responder às necessidades de refugiados e migrantes, radicado na doutrina da Igreja católica e na forte liderança do Papa Francisco, que nos convida a proteger, promover e integrar refugiados e migrantes”, explica o secretário-geral do organismo internacional, Mons. Robert J. Vitillo.

 Ocasião de diálogo e de partilha

Também se discutirá acerca de dois pactos globais da ONU sobre migrantes e refugiados a serem adotados ainda este ano. O encontro será ocasião de diálogo, partilha de boas práticas, de preocupações e desafios.

http://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2018-03/migrantes-refugiados-desafio-igreja-catolica-roma-papa-francisco.html

 

Migrantes e Refugiados: homens e mulheres em busca de Paz

Migrantes e Refugiados: homens e mulheres em busca de Paz

1. Votos de paz

Paz a todas as pessoas e a todas as nações da terra! A paz, que os anjos anunciam aos pastores na noite de Natal,[1] é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre estes, que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração, quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. Estes últimos, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, «são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz».[2] E, para o encontrar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa, a sujeitar-se a fadigas e sofrimentos, a enfrentar arames farpados e muros erguidos para os manter longe da meta.

Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.

Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz numa casa segura. Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar a outros problemas já existentes em grande número, bem como recursos que são sempre limitados. Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar, estabelecendo medidas práticas, «nos limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido, [para] lhes favorecer a integração»[3]. Os governantes têm uma responsabilidade precisa para com as próprias comunidades, devendo assegurar os seus justos direitos e desenvolvimento harmónico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir.[4]

2. Porque há tantos refugiados e migrantes?

Na mensagem para idêntica ocorrência no Grande Jubileu pelos 2000 anos do anúncio de paz dos anjos em Belém, São João Paulo II incluiu o número crescente de refugiados entre os efeitos de «uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, “limpezas étnicas”»[5] que caraterizaram o século XX. E até agora, infelizmente, o novo século não registou uma verdadeira viragem: os conflitos armados e as outras formas de violência organizada continuam a provocar deslocações de populações no interior das fronteiras nacionais e para além delas.

Todavia as pessoas migram também por outras razões, sendo a primeira delas «o desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o “desespero” de um futuro impossível de construir».[6] As pessoas partem para se juntar à própria família, para encontrar oportunidades de trabalho ou de instrução: quem não pode gozar destes direitos, não vive em paz. Além disso, como sublinhei na Encíclica Laudato si’, «é trágico o aumento de migrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental».[7]

A maioria migra seguindo um percurso legal, mas há quem tome outros caminhos, sobretudo por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas.

Em muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.[8]

Todos os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidade para construir um futuro de paz.

3. Com olhar contemplativo

A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha».[9] Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.

Precisamos de lançar, também sobre a cidade onde vivemos, este olhar contemplativo, «isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça»,[10] por outras palavras, realizando a promessa da paz.

Detendo-se sobre os migrantes e os refugiados, este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Saberá vislumbrar também a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos.

Este olhar contemplativo saberá, enfim, guiar o discernimento dos responsáveis governamentais, de modo a impelir as políticas de acolhimento até ao máximo dos «limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido»,[11] isto é, tomando em consideração as exigências de todos os membros da única família humana e o bem de cada um deles.

Quem estiver animado por este olhar será capaz de reconhecer os rebentos de paz que já estão a despontar e cuidará do seu crescimento. Transformará assim em canteiros de paz as nossas cidades, frequentemente divididas e polarizadas por conflitos que se referem precisamente à presença de migrantes e refugiados.

4. Quatro pedras miliárias para a ação

Oferecer a requerentes de asilo, refugiados, migrantes e vítimas de tráfico humano uma possibilidade de encontrar aquela paz que andam à procura, exige uma estratégia que combine quatro ações: acolher, proteger, promover e integrar.[12]

«Acolher» faz apelo à exigência de ampliar as possibilidades de entrada legal, de não repelir refugiados e migrantes para lugares onde os aguardam perseguições e violências, e de equilibrar a preocupação pela segurança nacional com a tutela dos direitos humanos fundamentais. Recorda-nos a Sagrada Escritura: «Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos».[13]

«Proteger» lembra o dever de reconhecer e tutelar a dignidade inviolável daqueles que fogem dum perigo real em busca de asilo e segurança, de impedir a sua exploração. Penso de modo particular nas mulheres e nas crianças que se encontram em situações onde estão mais expostas aos riscos e aos abusos que chegam até ao ponto de as tornar escravas. Deus não discrimina: «O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva».[14]

«Promover» alude ao apoio para o desenvolvimento humano integral de migrantes e refugiados. Dentre os numerosos instrumentos que podem ajudar nesta tarefa, desejo sublinhar a importância de assegurar às crianças e aos jovens o acesso a todos os níveis de instrução: deste modo poderão não só cultivar e fazer frutificar as suas capacidades, mas estarão em melhores condições também para ir ao encontro dos outros, cultivando um espírito de diálogo e não de fechamento ou de conflito. A Bíblia ensina que Deus «ama o estrangeiro e dá-lhe pão e vestuário»; daí a exortação: «Amarás o estrangeiro, porque foste estrangeiro na terra do Egito».[15]

Por fim, «integrar» significa permitir que refugiados e migrantes participem plenamente na vida da sociedade que os acolhe, numa dinâmica de mútuo enriquecimento e fecunda colaboração na promoção do desenvolvimento humano integral das comunidades locais. «Portanto – como escreve São Paulo – já não sois estrangeiros nem imigrantes, mas sois concidadãos dos santos e membros da casa de Deus».[16]

5. Uma proposta para dois Pactos internacionais

Almejo do fundo do coração que seja este espírito a animar o processo que, no decurso de 2018, levará à definição e aprovação por parte das Nações Unidas de dois pactos globais: um para migrações seguras, ordenadas e regulares, outro referido aos refugiados. Enquanto acordos partilhados a nível global, estes pactos representarão um quadro de referência para propostas políticas e medidas práticas. Por isso, é importante que sejam inspirados por sentimentos de compaixão, clarividência e coragem, de modo a aproveitar todas as ocasiões para fazer avançar a construção da paz: só assim o necessário realismo da política internacional não se tornará uma capitulação ao cinismo e à globalização da indiferença.

De facto, o diálogo e a coordenação constituem uma necessidade e um dever próprio da comunidade internacional. Mais além das fronteiras nacionais, é possível também que países menos ricos possam acolher um número maior de refugiados ou acolhê-los melhor, se a cooperação internacional lhes disponibilizar os fundos necessários.

A Secção Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral sugeriu 20 pontos de ação[17]como pistas concretas para a implementação dos supramencionados quatro verbos nas políticas públicas e também na conduta e ação das comunidades cristãs. Estas e outras contribuições pretendem expressar o interesse da Igreja Católica pelo processo que levará à adoção dos referidos pactos globais das Nações Unidas. Um tal interesse confirma uma vez mais a solicitude pastoral que nasceu com a Igreja e tem continuado em muitas das suas obras até aos nossos dias.

6. Em prol da nossa casa comum

Inspiram-nos as palavras de São João Paulo II: «Se o “sonho” de um mundo em paz é partilhado por tantas pessoas, se se valoriza o contributo dos migrantes e dos refugiados, a humanidade pode tornar-se sempre mais família de todos e a nossa terra uma real “casa comum”».[18] Ao longo da história, muitos acreditaram neste «sonho» e as suas realizações testemunham que não se trata duma utopia irrealizável.

Entre eles conta-se Santa Francisca Xavier Cabrini, cujo centenário do nascimento para o Céu ocorre em 2017. Hoje, dia 13 de novembro, muitas comunidades eclesiais celebram a sua memória. Esta pequena grande mulher, que consagrou a sua vida ao serviço dos migrantes tornando-se depois a sua Padroeira celeste, ensinou-nos como podemos acolher, proteger, promover e integrar estes nossos irmãos e irmãs. Pela sua intercessão, que o Senhor nos conceda a todos fazer a experiência de que «o fruto da justiça é semeado em paz por aqueles que praticam a paz».[19]

Vaticano, 13 de novembro – Memória de Santa Francisca Xavier Cabrini, Padroeira dos migrantes – de 2017.

Franciscus

Mianmar: «Ajudar as pessoas a abrirem-se ao Transcendente»

Mianmar: «Ajudar as pessoas a abrirem-se ao Transcendente»

Leia, na íntegra, todo o dicurso do Papa Francisco.

Sinto grande alegria por estar convosco. Agradeço ao Ven. Bhaddanta Kumarabhivamsa, Presidente da Comissão Estatal Sangha Maha Nayaka, as suas palavras de boas-vindas e os seus esforços na organização da minha visita aqui hoje. Ao saudar-vos a todos, permiti-me manifestar particular apreço pela presença de Sua Excelência Thura Aung Ko, Ministro dos Assuntos Religiosos e da Cultura.

O nosso encontro é uma ocasião importante para renovar e fortalecer os laços de amizade e respeito entre budistas e católicos. É também uma oportunidade para afirmar o nosso empenho pela paz, o respeito da dignidade humana e a justiça para todo o homem e mulher. E não é só no Myanmar, mas em todo o mundo, que as pessoas precisam deste testemunho comum dos líderes religiosos. Com efeito, quando falamos a uma só voz afirmando o valor perene da justiça, da paz e da dignidade fundamental de todo o ser humano, oferecemos uma palavra de esperança. Ajudamos os budistas, os católicos e todas as pessoas a lutarem por uma maior harmonia nas suas comunidades.

Em cada idade, a humanidade experimenta injustiças, momentos de conflito e desigualdade entre as pessoas. No nosso tempo, porém, estas dificuldades parecem ser particularmente graves. Embora a sociedade tenha conseguido um grande progresso tecnológico e, em todo o mundo, as pessoas estejam cada vez mais conscientes da sua humanidade e destino comuns, as feridas dos conflitos, da pobreza e da opressão persistem e criam novas divisões. A estes desafios, não devemos jamais resignar-nos. Pois sabemos, com base nas nossas respetivas tradições espirituais, que existe realmente um caminho para avançar, há um caminho que leva à cura, à mútua compreensão e respeito; um caminho baseado na compaixão e no amor.

Quero expressar a minha estima a todos aqueles que vivem, no Myanmar, segundo as tradições religiosas do Budismo. Através dos ensinamentos de Buda e do testemunho zeloso de tantos monges e monjas, o povo desta terra foi formado nos valores da paciência, tolerância e respeito pela vida, bem como numa espiritualidade solícita e profundamente respeitadora do meio ambiente. Como sabemos, estes valores são essenciais para um desenvolvimento integral da sociedade, a começar pela unidade mais pequena e mais essencial que é a família para depois se estender à rede de relações que nos põem em estreita conexão – relações essas radicadas na cultura, na pertença étnica e nacional, e, em última análise, na pertença à humanidade comum. Numa verdadeira cultura do encontro, estes valores podem fortalecer as nossas comunidades e ajudar o conjunto da sociedade a irradiar a tão necessária luz.

O grande desafio dos nossos dias é ajudar as pessoas a abrir-se ao transcendente; ser capazes de olhar-se dentro em profundidade, conhecendo-se de tal modo a si mesmas que sintam a sua interconexão com todas as pessoas; dar-se conta de que não podemos permanecer isolados uns dos outros. Se devemos estar unidos, como é nosso propósito, ocorre superar todas as formas de incompreensão, intolerância, preconceito e ódio. Como podemos consegui-lo? As palavras de Buda oferecem a cada um de nós uma guia: «Vence o rancor com o não-rancor, vence o malvado com a bondade, vence o avarento com a generosidade, vence o mentiroso com a verdade» (Dhammapada, XVII, 223). Sentimentos semelhantes se expressam nesta oração atribuída a São Francisco de Assis: «Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz. Onde houver ódio fazei que eu leve o amor, onde houver ofensa que eu leve o perdão, (…) onde houver trevas que eu leve a luz, e onde houver tristeza que eu leve a alegria».

Que esta Sabedoria continue a inspirar todos os esforços para promover a paciência e a compreensão e curar as feridas dos conflitos que, ao longo dos anos, dividiram pessoas de diferentes culturas, etnias e convicções religiosas. Tais esforços não são em caso algum prerrogativa apenas de líderes religiosos, nem são de competência exclusiva do Estado. Mas é a sociedade inteira, são todos aqueles que estão presentes na comunidade que devem partilhar o trabalho de superar o conflito e a injustiça. No entanto, é responsabilidade particular dos líderes civis e religiosos garantir que cada voz seja ouvida, de tal modo que os desafios e as necessidades deste momento possam ser claramente compreendidos e confrontados num espírito de imparcialidade e mútua solidariedade. A propósito, congratulo-me com o trabalho que a Panglong Peace Conference está a fazer, e rezo por aqueles que guiam este esforço para que possam promover uma participação cada vez maior de todos os que vivem no Myanmar. Isto contribuirá certamente para o compromisso de promover a paz, a segurança e uma prosperidade que seja inclusiva de todos.

Para que estes esforços produzam frutos duradouros, tornar-se-á necessária, sem dúvida, uma maior cooperação entre líderes religiosos. A este respeito, quero que saibais que a Igreja Católica é um parceiro disponível. As oportunidades de encontro e diálogo entre os líderes religiosos revelam-se um fator importante na promoção da justiça e da paz no Myanmar. Bem sei que, no passado mês de abril, a Conferência dos Bispos Católicos organizou um encontro de dois dias sobre a paz, em que participaram os chefes das diferentes comunidades religiosas, juntamente com embaixadores e representantes de agências não-governamentais. Devendo aprofundar o nosso conhecimento mútuo e afirmar a nossa interligação e destino comum, são essenciais tais encontros. A verdadeira justiça e a paz duradoura só podem ser alcançadas, quando forem garantidas a todos.

Queridos amigos, possam os budistas e os católicos caminhar juntos por esta senda de cura e trabalhar lado a lado pelo bem de cada habitante desta terra. Nas Escrituras cristãs, o apóstolo Paulo desafia os seus ouvintes a alegrar-se com os que estão alegres, a chorar com os que choram (cf. Rm 12, 15), carregando humildemente os pesos uns dos outros (cf. Gal 6, 2). Em nome dos meus irmãos e irmãs católicos, expresso a nossa disponibilidade para continuar a caminhar convosco e a espalhar sementes de paz e de cura, de compaixão e de esperança nesta terra.

De novo vos agradeço por me terdes convidado para estar hoje aqui convosco. Sobre todos vós, invoco a bênção divina da alegria e da paz.

Tradução Educris a partir do original em italiano

Imagem: ACI Stampa

http://www.educris.com/v3/noticias/7485-mianmar-ajudar-as-pessoas-a-abrirem-se-ao-transcendente