Set 30, 2019 | Artigo, Dioceses, Migrantes, Santa Sé

105º Dia Mundial Do Migrante e do Refugiado
NÃO SE TRATA APENAS DE MIGRANTES
Trata-se de todos nós do presente e do futuro da família humana
O 105º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado – DMMR 2019, pela primeira vez celebrado a 29 de setembro, continua o seu firme propósito de sensibilizar para as potencialidades e necessidades do fenómeno migratório. O Santo Padre pede em primeiro lugar à Igreja, Povo de Deus, e também a todos os cidadãos de boa vontade, que se deixem interpelar pelo tema “Não se trata apenas de migrantes”.
Ao longo de sete meses a Secção Migrantes e Refugiados confiou às Conferências Episcopais do Mundo, uma campanha multimédia em diferentes línguas, a fim de que fosse amplamente difundida, a partir da palavra de Deus, do Magistério e de boas práticas, foi ilustrando que urge e é possível sonhar e construir um outro lugar, uma sociedade renovada.
A mensagem Pontifícia foi sendo apresentada gradualmente em subtemas, que vale a pena guardar e certamente nos acompanharão ao longo deste ano pastoral: trata-se dos nossos medos, da caridade, da nossa humanidade, de não excluir ninguém, de colocar os últimos em primeiro lugar, da pessoa toda e de todas as pessoas, no fim trata-se de um caminho que nos exorta à reflexão e conversão, a fim de que edifiquemos a cidade de Deus e do Homem, de forma consciente e comprometida.
Este itinerário que parte do pessoal, atravessa o comunitário até ao nível dos Estados-Nação, visa romper as diversas etapas dos conceitos de fronteira: nacionalismos populistas, leis restritivas e excludentes, xenofobia e racismo, medos, individualismos e indiferenças que atualmente se erguem e ameaçam o nosso futuro enquanto família humana.
Aceitando o desafio da Secção Migrantes e Refugiados – SMR, de colaborar com as Conferências Episcopais do Sul, a Comissão Episcopal da Pastoral Social Mobilidade Humana – CEPSMH, através das suas estruturas nacionais – Obra Católica Portuguesa de Migrações – OCPM e Cáritas Portuguesa, tomou a liberdade de convidar o Pe. Alfredo Gonçalves, sacerdote scalabriniano, e assessor para a mobilidade humana da Conferência Nacional de Bispos do Brasil, a proferir várias conferências para um público diversificado em várias Dioceses e a conceder entrevistas aos meios de comunicação social.
De 23 a 29 de Setembro, as dioceses de Setúbal, Bragança e Santarém com a colaboração de secretariados diocesanos de migrações e caritas diocesanas, puderam contar e beneficiar de uma grelha de leitura da mensagem do Papa, e um método para diagnosticar e tratar as migrações como uma oportunidade para o desenvolvimento pessoal, comunitário até à escala planetária.
No dia 24, em Setúbal na paróquia de Amora – salão da Igreja Scalabrini, o Pe. Alfredo Gonçalves apresentou aos paroquianos o seguinte itinerário: Trata-se da nossa identidade, trata-se de mudanças históricas, trata-se das desigualdades sociais, trata-se de uma legislação anti-migratória, trata-se da nossa casa comum.
No dia 27, em Bragança, no Instituto Politécnico: o itinerário proposto aos estudantes e professores de cursos profissionais foi o método dos 4 “R”. i) Rostos, ii) Rotas, iii) Raízes e iv) Respostas. Para cada ‘R’ existe uma pergunta que nos permite fazer o diagnóstico local e global: Quem são as pessoas? De onde vem para onde vão? Porquê se movem? Que respostas podem dar? E como fazê-lo?
Ao procurar responder a cada uma das perguntas resulta um diagnóstico que se traduz: numa fotografia – Quem? Num mapa – De onde? E para onde? e numa radiografia – Porquê? Que nos permite pensar e desenhar respostas adequadas às necessidades locais e globais, e perceber como podemos envolver e interligar os diversos atores essenciais: Estados, Sociedade Civil, ONG, Cidadãos Migrantes, Instituições Religiosas, na construção de um mundo mais justo e fraterno
No dia 28, em Santarém na presença do seu bispo, D. José Traquina, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, na sala dos Atos da Casa Diocesana, a conferência, manteve como pano de fundo a mensagem pontifícia, apresentando os desafios pastorais dela resultante. Em presença estiveram vários responsáveis nacionais e diocesanos pela pastoral dos migrantes, social e educação cristã.
Importa frisar que após uma breve contextualização histórica, concluímos que a questão social e a questão migratória enquanto objeto da solicitude da Igreja nascem juntas, o que nos conduz a entender e atuar sobre a complexidade migratória de forma articulada e colaborativa.
As migrações, embora sempre tenham existido, são sinal dos tempos hodiernos, e apenas a ponta do iceberg, de algo muito maior, intenso e complexo que nos permite de uma forma interdisciplinar perceber as mudanças e encruzilhadas sociais desta globalização que exclui, descarta e mata os mais vulneráveis.
Como ultrapassar as dimensões de fronteira? Como construir pontes? Para que as pessoas tenham direito a uma vida digna e justa? Como salvar as vidas ameaçadas por leis e nacionalismos exacerbados, por culturas e religiões que alimentam a xenofobia e o racismo, por medos, egoísmos e indiferença? Como criar consciências mais maduras, pessoas mais capazes de se abrir aos outros, relacionar-se sem medo do confronto e do diálogo? Enfim pessoas capazes de se aventurar e arriscar criando espaços físicos e mentais que permitam o encontro e o convívio, possibilitando pessoas mais capazes de se abrir ao transcendente.
O migrante foi-nos apresentado como critério de salvação é ele quem nos pergunta onde está a caridade, onde está a humanidade? É na medida que eu me envolvo/comprometo que eu me salvo.
A celebração deste DMMR, agora no início do ano pastoral é um convite e uma oportunidade para colocar verdadeiramente os migrantes e refugiados no coração da Igreja, isto é na nossa agenda pastoral Diocesana e paroquial, como anseia e exemplifica o Papa Francisco. Serve este dia para nos recordar a transversalidade das migrações com outros sectores da pastoral, reconhecendo força e a responsabilidade do trabalho colaborativo e interligado. A complexidade e a intensidade das migrações assim o exigem, é urgente romper fronteiras e construir pontes, dentro das nossas estruturas eclesiais.

As pessoas em contexto de mobilidade humana contribuem para nosso amadurecimento na fé e compromisso de transformação eclesial e social. Com elas aprendemos o dom e a riqueza da diversidade, seja através da nossa Diáspora portuguesa, de modo particular os que celebram 25, 40, 50 anos de vida comunitária, os que regressaram ou estão a ponderar regressar, os imigrantes que escolheram o nosso país para recomeçar, cuidar da saúde, realizar-se pessoal e profissionalmente, os estudantes internacionais, os refugiados e requerentes de asilo que buscam um lugar seguro, as vítimas de tráfico, deslocados internos.
Como nos diz o Santo Padre na sua imensa ternura e sabedoria: “Queridos irmãos e irmãs, a resposta ao desafio colocado pelas migrações contemporâneas pode-se resumir em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Mas estes verbos não valem apenas para os migrantes e os refugiados; exprimem a missão da Igreja a favor de todos os habitantes das periferias existenciais, que devem ser acolhidos, protegidos, promovidos e integrados. Se pusermos em prática estes verbos, contribuímos para construir a cidade de Deus e do homem, promovemos o desenvolvimento humano integral de todas as pessoas e ajudamos também a comunidade mundial a ficar mais próxima de alcançar os objetivos de desenvolvimento sustentável que se propôs e que, caso contrário, dificilmente serão atingíveis.”
Santarém, 28 de setembro de 2019
Eugénia Costa Quaresma
Obra Católica Portuguesa de Migrações
Jul 9, 2019 | Artigo, espiritualidade, Migrantes, Notícias, Recortes, Refugiados, Santa Sé

Homilia 8.7.2019 – Tradução Portuguesa Mário Almeida, Secção Migrantes e Refugiados
Hoje, a Palavra de Deus fala-nos de salvação e libertação.
Salvação. Durante a sua viagem de Bersabé para Harã, Jacob decide parar e descansar num lugar solitário. Em sonho, vê uma escada cujo pé assenta na terra e o topo toca o céu (cf. Gn 28, 10-22a). A escada, pela qual sobem e descem os anjos de Deus, representa a ligação entre o divino e o humano, que se realiza historicamente na encarnação de Cristo (cf. Jo 1, 51), amorosa oferta de revelação e salvação por parte do Pai. A escada é alegoria da iniciativa divina que antecede todo e qualquer movimento humano. É a antítese da torre de Babel, construída pelos homens que queriam, com as suas forças, chegar ao céu para se tornarem deuses. Neste caso, ao contrário, é Deus que «desce», é o Senhor que Se revela, é Deus que salva. E o Emanuel, o Deus-connosco, realiza a promessa de pertença mútua entre o Senhor e a humanidade, no sinal dum amor encarnado e misericordioso que dá a vida em abundância.
À vista desta revelação, Jacob realiza um ato de entrega ao Senhor, que se traduz num compromisso de reconhecimento e adoração que marca um momento essencial na história da salvação. Pede ao Senhor que o proteja ao longo do caminho difícil que está a fazer e diz: «O Senhor será o meu Deus» (Gn 28, 21).
Dando eco às palavras do Patriarca, repetimos no Salmo: «Meu Deus, em Vós confio». Ele é o nosso refúgio e nossa fortaleza, escudo e couraça, âncora nos momentos de prova. O Senhor é abrigo para os fiéis que O invocam na tribulação. Aliás, é precisamente nestes momentos que a nossa oração se torna mais pura, isto é, quando nos damos conta de que as certezas oferecidas pelo mundo pouco valem, e nada mais nos resta senão Deus: só Deus abre de par em par o Céu a quem vive na terra; só Deus salva.
E esta entrega total e extrema é precisamente o elemento comum entre o chefe da sinagoga e a mulher hemorroíssa, no Evangelho (cf. Mt 9, 18-26). São episódios de libertação. Ambos se aproximam de Jesus para obter d’Ele o que mais ninguém lhes pode dar: libertação da doença e da morte. Dum lado, temos a filha duma das autoridades da cidade; do outro, uma mulher atribulada por uma doença que faz dela uma excluída, uma marginalizada, uma pessoa impura. Mas Jesus não faz distinções: a libertação é concedida generosamente em ambos os casos. A necessidade coloca a ambas – a mulher e a menina – entre os «últimos» que devemos amar e levantar.
Jesus revela aos seus discípulos a necessidade duma opção preferencial pelos últimos, que hão de ocupar o primeiro lugar no exercício da caridade. São tantas as pobrezas de hoje! Como escreveu São João Paulo II, «“pobres”, nas várias aceções da pobreza, são os oprimidos, os marginalizados, os idosos, os doentes, as crianças, todos aqueles que são considerados e tratados como “últimos” na sociedade» (Exort. ap. Vita consecrata, 82).

Neste sexto aniversário da visita a Lampedusa, penso nos «últimos» que diariamente clamam ao Senhor, pedindo para ser libertados dos males que os afligem. São os últimos enganados e abandonados a morrer no deserto; são os últimos torturados, abusados e violentados nos campos de detenção; são os últimos que desafiam as ondas dum mar impiedoso; são os últimos deixados em acampamentos de acolhimento (demasiado longo, para ser chamado de temporário). Estes são apenas alguns dos últimos que Jesus nos pede para amar e levantar. Infelizmente, as periferias existenciais das nossas cidades estão densamente povoadas de pessoas que foram descartadas, marginalizadas, oprimidas, discriminadas, abusadas, exploradas, abandonadas, de pessoas pobres e sofredoras. No espírito das Bem-aventuranças, somos chamados a acudir misericordiosamente às suas aflições; saciar a sua fome e sede de justiça; fazer-lhes sentir a solícita paternidade de Deus; mostrar-lhes o caminho para o Reino dos Céus. São pessoas; não se trata apenas de questões sociais ou migratórias! «Não se trata apenas de migrantes!», no duplo sentido de que os migrantes são, antes de mais nada, pessoas humanas e que, hoje, são o símbolo de todos os descartados da sociedade globalizada.
Retorna espontaneamente à mente a imagem da escada de Jacob. Em Jesus Cristo, está assegurada e é acessível a todos a ligação entre a terra e o Céu. Mas subir os degraus desta escada requer empenho, esforço e graça. Os mais frágeis e vulneráveis devem ser ajudados. Apraz-me pensar que poderíamos ser, nós, aqueles anjos que sobem e descem, pegando ao colo os pequenos, os coxos, os doentes, os excluídos: os últimos, que caso contrário ficariam para trás e veriam apenas as misérias da terra, sem vislumbrar já desde agora algum clarão do Céu.
Trata-se, irmãos e irmãs, duma grande responsabilidade, da qual ninguém se pode eximir, se quiser levar a cabo a missão de salvação e libertação na qual fomos chamados a colaborar pelo próprio Senhor. Sei que muitos de vós, chegados apenas há alguns meses, já estais a ajudar irmãos e irmãs que chegaram depois. Quero agradecer-vos por este estupendo sinal de humanidade, gratidão e solidariedade.
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Mário Almeida
Area Africa and Madagascar
Migrants & Refugees Section
Integral Human Development
Fev 13, 2019 | Artigo, Diálogo Inter-religioso, Recortes, Santa Sé
Quanto mais as margens estão separadas, maior tem que ser a ponte para as unir. Maior também precisa de ser a coragem e a arte para construir tal ponte.
As observações que vou fazer não pertencem ao campo da engenharia civil, mas sim à arquitetura humana, inspirada pela fé. Certamente que homens e mulheres não se medem aos palmos, como nos lembra o ditado popular. Somos grandes na medida em que conseguimos unir margens distantes; aproximar pessoas e grupos diferentes na sua história e cultura, na diversidade de credos e estilos de vida.
Construir pontes de acolhimento e compreensão, de diálogo e encontro é uma tarefa de todo o ser humano. A lei da selva vai em sentido oposto: para uma fera ser grande precisa de vencer, de aniquilar a concorrência. A família é a escola primordial da arquitetura de pontes de fraternidade. Mais velhos e mais novos, mulheres e homens, de feitios e aptidões diferentes, vamos aprendendo a conviver amistosamente, completando-nos na aceitação da diversidade. É o puzzle da fraternidade, em que todos somos precisos e importantes.
O Papa da Igreja Católica costuma apelidar-se de “Sumo Pontífice”. Poderá parecer um título solene e pomposo. Mas não: descreve uma missão de serviço. A palavra “pontífice”, indo à sua raiz latina, significa construtor de pontes. Neste caso significa construir pontes entre Deus e a humanidade, entre os fiéis da Igreja de Cristo e com todas as pessoas de boa vontade. Todos temos a missão de sermos “pontífices”, construtores de pontes de encontro e fraternidade, evitando divisionismos, afastamentos, separações. Aliás Cristo, no seu discurso da última ceia, como testamento pediu aos seus seguidores: “Que todos sejam um”. E o Papa é quem tem a máxima responsabilidade de uma Igreja apostada em construir pontes de unidade. É o Sumo Pontífice.
O Papa Francisco tem sentido a urgência desta missão de construir pontes especialmente com as margens mais distantes: com as “periferias geográficas e existenciais”, com os que não vivem segundo as normas da Igreja Católica, com os crentes de outras religiões, com o mundo dos agnósticos e ateus, sublinhando que ninguém deve ser excluído da solicitude pastoral da Igreja, que o cristão deve ter coração e braços abertos para acolher a todos.
Esta atitude fundamental tem-se verificado nos critérios com que organiza a agenda das suas viagens apostólicas, dando prioridade a países em que os católicos são uma minoria, onde não pode esperar banhos de multidão e vai encontrar “margens” distantes. Por isso, mais importante é construir “pontes”. Vou agora apenas referir-me à sua última visita que foi aos Emirados Árabes Unidos, de 3 a 5 de fevereiro.
O Papa Francisco sublinhou que esta viagem pertence às “surpresas de Deus”, imprevistos que têm o dedo divino. Oito séculos antes, em 1219, outro gesto percursor deste: Francisco de Assis ousou ir ao Egito encontrar-se com o Sultão Malik al-Kamil, em conversações de paz e bem. Como referiu o Santo Padre, escreveu-se uma original e importante “nova página na história do diálogo entre o cristianismo e o islamismo”. Contrariando a escalada de fundamentalismos e terrorismos, o Papa corajosamente visitou quem poderia ser considerado estranho, senão inimigo. Assim, afirmou: “Numa época em que a tentação de ver um choque entre civilizações cristãs e islâmicas é forte, queríamos dar um sinal mais claro e decisivo que, em vez disso, é possível encontrar, é possível respeitar e dialogar”. O beijo entre o Papa e o Grande Imã de Al-Azhar al-Sharif é muito mais que uma cortesia. É uma audaz profecia de que é perfeitamente possível viver como irmãos na diferença de tradições culturais e religiosas e de que os desentendimentos e confrontos violentos devem ser sepultados no passado. É dado um passo de gigante com o documento assinado por ambos sobre “a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum”.
Deste documento, rico de humanidade e de graça divina, cito apenas esta breve passagem: “Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif – com os muçulmanos do Oriente e do Ocidente – juntamente com a Igreja Católica – com os católicos do Oriente e do Ocidente – declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério. Nós – crentes em Deus, no encontro final com Ele e no seu Julgamento –, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através deste Documento, rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se comprometerem seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da paz; para intervirem, o mais breve possível, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que o mundo vive atualmente”.
Celebramos este exemplo magnífico de ponte construída entre margens tão distantes. Mesmo que o abismo da desconfiança e das feridas históricas seja grande, é sempre possível construir uma ponte de aproximação e diálogo. O gesto do Sumo Pontífice Francisco reclama que o imitemos na nossa família, comunidade e grupo de trabalho e convivência.
Manuel Morujão, sj
Rede Mundial de oração
Fev 11, 2019 | Diálogo Inter-religioso, Documentos, espiritualidade, Santa Sé
PREFÁCIO
A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela Sua Misericórdia –, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres.
Partindo deste valor transcendente, em vários encontros dominados por uma atmosfera de fraternidade e amizade, compartilhamos as alegrias, as tristezas e os problemas do mundo contemporâneo, a nível do progresso científico e técnico, das conquistas terapêuticas, da era digital, dos mass-media, das comunicações; a nível da pobreza, das guerras e das aflições de tantos irmãos e irmãs em diferentes partes do mundo, por causa da corrida às armas, das injustiças sociais, da corrupção, das desigualdades, da degradação moral, do terrorismo, da discriminação, do extremismo e de muitos outros motivos.
De tais fraternas e sinceras acareações que tivemos e do encontro cheio de esperança num futuro luminoso para todos os seres humanos, nasceu a ideia deste «Documento sobre a Fraternidade Humana». Um documento pensado com sinceridade e seriedade para ser uma declaração conjunta de boas e leais vontades, capaz de convidar todas as pessoas, que trazem no coração a fé em Deus e a fé na fraternidade humana, a unir-se e trabalhar em conjunto, de modo que tal documento se torne para as novas gerações um guia rumo à cultura do respeito mútuo, na compreensão da grande graça divina que torna irmãos todos os seres humanos.
DOCUMENTO
Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irmãos, a povoar a terra e a espalhar sobre ela os valores do bem, da caridade e da paz.
Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando que qualquer um que mate uma pessoa é como se tivesse morto toda a humanidade e quem quer que salve uma pessoa é como se tivesse salvo toda a humanidade.
Em nome dos pobres, dos miseráveis, dos necessitados e dos marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a todos os homens e de modo particular às pessoas facultosas e abastadas.
Em nome dos órfãos, das viúvas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus países; de todas as vítimas das guerras, das perseguições e das injustiças; dos fracos, de quantos vivem no medo, dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do mundo, sem distinção alguma.
Em nome dos povos que perderam a segurança, a paz e a convivência comum, tornando-se vítimas das destruições, das ruínas e das guerras.
Em nome da «fraternidade humana», que abraça todos os homens, une-os e torna-os iguais.
Em nome desta fraternidade dilacerada pelas políticas de integralismo e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.
Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela.
Em nome da justiça e da misericórdia, fundamentos da prosperidade e pilares da fé.
Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os cantos da terra.
Em nome de Deus e de tudo isto, Al-Azhar al-Sharif – com os muçulmanos do Oriente e do Ocidente – juntamente com a Igreja Católica – com os católicos do Oriente e do Ocidente – declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério.
Nós – crentes em Deus, no encontro final com Ele e no Seu Julgamento –, a partir da nossa responsabilidade religiosa e moral e através deste Documento, rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial, para se comprometer seriamente na difusão da tolerância, da convivência e da paz; para intervir, o mais breve possível, a fim de se impedir o derramamento de sangue inocente e acabar com as guerras, os conflitos, a degradação ambiental e o declínio cultural e moral que o mundo vive atualmente.
Dirigimo-nos aos intelectuais, aos filósofos, aos homens de religião, aos artistas, aos operadores dos mass-media e aos homens de cultura em todo o mundo, para que redescubram os valores da paz, da justiça, do bem, da beleza, da fraternidade humana e da convivência comum, para confirmar a importância destes valores como âncora de salvação para todos e procurar difundi-los por toda a parte.
Partindo duma reflexão profunda sobre a nossa realidade contemporânea, apreciando os seus êxitos e vivendo as suas dores, os seus dramas e calamidades, esta Declaração acredita firmemente que, entre as causas mais importantes da crise do mundo moderno, se contam uma consciência humana anestesiada e o afastamento dos valores religiosos, bem como o predomínio do individualismo e das filosofias materialistas que divinizam o homem e colocam os valores mundanos e materiais no lugar dos princípios supremos e transcendentes.
Nós, embora reconhecendo os passos positivos que a nossa civilização moderna tem feito nos campos da ciência, da tecnologia, da medicina, da indústria e do bem-estar, particularmente nos países desenvolvidos, ressaltamos que, juntamente com tais progressos históricos, grandes e apreciados, se verifica uma deterioração da ética, que condiciona a atividade internacional, e um enfraquecimento dos valores espirituais e do sentido de responsabilidade. Tudo isto contribui para disseminar uma sensação geral de frustração, solidão e desespero, levando muitos a cair na voragem do extremismo ateu e agnóstico ou então no integralismo religioso, no extremismo e no fundamentalismo cego, arrastando assim outras pessoas a render-se a formas de dependência e autodestruição individual e coletiva.
A história afirma que o extremismo religioso e nacional e a intolerância geraram no mundo, quer no Ocidente quer no Oriente, aquilo que se poderia chamar os sinais duma «terceira guerra mundial aos pedaços»; sinais que, em várias partes do mundo e em diferentes condições trágicas, começaram a mostrar o seu rosto cruel; situações de que não se sabe exatamente quantas vítimas, viúvas e órfãos produziram. Além disso, existem outras áreas que se preparam a tornar-se palco de novos conflitos, onde nascem focos de tensão e se acumulam armas e munições, numa situação mundial dominada pela incerteza, pela deceção e pelo medo do futuro e controlada por míopes interesses económicos.
Afirmamos igualmente que as graves crises políticas, a injustiça e a falta duma distribuição equitativa dos recursos naturais – dos quais beneficia apenas uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos povos da terra – geraram, e continuam a fazê-lo, enormes quantidades de doentes, necessitados e mortos, causando crises letais de que são vítimas vários países, não obstante as riquezas naturais e os recursos das gerações jovens que os caraterizam. A respeito de tais crises que fazem morrer à fome milhões de crianças, já reduzidas a esqueletos humanos por causa da pobreza e da fome, reina um inaceitável silêncio internacional.
A propósito, é evidente quão essencial seja a família, como núcleo fundamental da sociedade e da humanidade, para dar à luz filhos, criá-los, educá-los, proporcionar-lhes uma moral sólida e a proteção familiar. Atacar a instituição familiar, desprezando-a ou duvidando da importância de seu papel, constitui um dos males mais perigosos do nosso tempo.
Atestamos também a importância do despertar do sentido religioso e da necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através duma educação sadia e da adesão aos valores morais e aos justos ensinamentos religiosos, para enfrentarem as tendências individualistas, egoístas, conflituais, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações.
O primeiro e mais importante objetivo das religiões é o de crer em Deus, honrá-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este universo depende de um Deus que o governa: é o Criador que nos moldou com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o guardarmos. Um dom que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou manipular a seu bel-prazer; pelo contrário, todos devem preservar este dom da vida desde o seu início até à sua morte natural. Por isso, condenamos todas as práticas que ameaçam a vida, como os genocídios, os atos terroristas, os deslocamentos forçados, o tráfico de órgãos humanos, o aborto e a eutanásia e as políticas que apoiam tudo isto.
De igual modo declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião, para alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes. Por isso, pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão. Pedimo-lo pela nossa fé comum em Deus, que não criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua existência. Com efeito Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas.
Este Documento, de acordo com os Documentos Internacionais anteriores que destacaram a importância do papel das religiões na construção da paz mundial, atesta quanto segue:
• A forte convicção de que os verdadeiros ensinamentos das religiões convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; apoiar os valores do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum; restabelecer a sabedoria, a justiça e a caridade e despertar o sentido da religiosidade entre os jovens, para defender as novas gerações a partir do domínio do pensamento materialista, do perigo das políticas da avidez do lucro desmesurado e da indiferença baseadas na lei da força e não na força da lei.
• A liberdade é um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o facto de forçar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam.
• A justiça baseada na misericórdia é o caminho a percorrer para se alcançar uma vida digna, a que tem direito todo o ser humano.
• O diálogo, a compreensão, a difusão da cultura da tolerância, da aceitação do outro e da convivência entre os seres humanos contribuiriam significativamente para a redução de muitos problemas económicos, sociais, políticos e ambientais que afligem grande parte do género humano.
• O diálogo entre crentes significa encontrar-se no espaço enorme dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propagação das mais altas virtudes morais que as religiões solicitam; significa também evitar as discussões inúteis.
• A proteção dos locais de culto – templos, igrejas e mesquitas – é um dever garantido pelas religiões, pelos valores humanos, pelas leis e pelas convenções internacionais. Qualquer tentativa de atacar locais de culto ou de os ameaçar através de atentados, explosões ou demolições é um desvio dos ensinamentos das religiões, bem como uma clara violação do direito internacional.
• O terrorismo execrável que ameaça a segurança das pessoas, tanto no Oriente como no Ocidente, tanto no Norte como no Sul, espalhando pânico, terror e pessimismo não se deve à religião – embora os terroristas a instrumentalizem – mas tem origem no cúmulo de interpretações erradas dos textos religiosos, nas políticas de fome, de pobreza, de injustiça, de opressão, de arrogância; por isso, é necessário interromper o apoio aos movimentos terroristas através do fornecimento de dinheiro, de armas, de planos ou justificações e também a cobertura mediática, e considerar tudo isto como crimes internacionais que ameaçam a segurança e a paz mundial. É preciso condenar tal terrorismo em todas as suas formas e manifestações.
• O conceito de cidadania baseia-se na igualdade dos direitos e dos deveres, sob cuja sombra todos gozam da justiça. Por isso, é necessário empenhar-se por estabelecer nas nossas sociedades o conceito de cidadania plena e renunciar ao uso discriminatório do termo minorias, que traz consigo as sementes de se sentir isolado e da inferioridade; isto prepara o terreno para as hostilidades e a discórdia e subtrai as conquistas e os direitos religiosos e civis de alguns cidadãos, discriminando-os.
• O relacionamento entre Ocidente e Oriente é uma necessidade mútua indiscutível, que não pode ser comutada nem transcurada, para que ambos se possam enriquecer mutuamente com a civilização do outro através da troca e do diálogo das culturas. O Ocidente poderia encontrar na civilização do Oriente remédios para algumas das suas doenças espirituais e religiosas causadas pelo domínio do materialismo. E o Oriente poderia encontrar na civilização do Ocidente tantos elementos que o podem ajudar a salvar-se da fragilidade, da divisão, do conflito e do declínio científico, técnico e cultural. É importante prestar atenção às diferenças religiosas, culturais e históricas que são uma componente essencial na formação da personalidade, da cultura e da civilização oriental; e é importante consolidar os direitos humanos gerais e comuns, para ajudar a garantir uma vida digna para todos os homens no Oriente e no Ocidente, evitando o uso da política de duas medidas.
• É uma necessidade indispensável reconhecer o direito da mulher à instrução, ao trabalho, ao exercício dos seus direitos políticos. Além disso, deve-se trabalhar para libertá-la das pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e da própria dignidade. Também é necessário protegê-la da exploração sexual e de a tratar como mercadoria ou meio de prazer ou de ganho económico. Por isso, devem-se interromper todas as práticas desumanas e os costumes triviais que humilham a dignidade da mulher e trabalhar para modificar as leis que impedem as mulheres de gozarem plenamente dos seus direitos.
• A tutela dos direitos fundamentais das crianças a crescer num ambiente familiar, à alimentação, à educação e à assistência é um dever da família e da sociedade. Tais direitos devem ser garantidos e tutelados para que não faltem e não sejam negados a nenhuma criança em nenhuma parte do mundo. É preciso condenar qualquer prática que viole a dignidade das crianças ou os seus direitos. Igualmente importante é velar contra os perigos a que estão expostas – especialmente no ambiente digital – e considerar como crime o tráfico da sua inocência e qualquer violação da sua infância.
• A proteção dos direitos dos idosos, dos vulneráveis, dos portadores de deficiência e dos oprimidos é uma exigência religiosa e social que deve ser garantida e protegida através de legislações rigorosas e da aplicação das convenções internacionais a este respeito.
Por fim, através da cooperação conjunta, a Igreja Católica e a al-Azhar anunciam e prometem levar este Documento às Autoridades, aos Líderes influentes, aos homens de religião do mundo inteiro, às organizações regionais e internacionais competentes, às organizações da sociedade civil, às instituições religiosas e aos líderes do pensamento; e empenhar-se na divulgação dos princípios desta Declaração em todos os níveis regionais e internacionais, solicitando que se traduzam em políticas, decisões, textos legislativos, programas de estudo e materiais de comunicação.
Al-Azhar e a Igreja Católica pedem que este Documento se torne objeto de pesquisa e reflexão em todas as escolas, nas universidades e nos institutos de educação e formação, a fim de contribuir para criar novas gerações que levem o bem e a paz e defendam por todo o lado o direito dos oprimidos e dos marginalizados.
Ao concluir, almejamos que esta Declaração:
seja um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os não-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade;
seja um apelo a toda a consciência viva, que repudia a violência aberrante e o extremismo cego; um apelo a quem ama os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e encorajados pelas religiões;
seja um testemunho da grandeza da fé em Deus, que une os corações divididos e eleva a alma humana;
seja um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se amam.
Isto é o que esperamos e tentaremos realizar a fim de alcançar uma paz universal de que gozem todos os homens nesta vida.
Abu Dabhi, 4 de fevereiro de 2019.
Sua Santidade Grande Imã de Al-Azhar
Papa Francisco Ahmad Al-Tayyib