Abr 24, 2019 | Artigo, espiritualidade, Migrantes, Recortes, Refugiados
Um médico ao encontro de Cristo
Lesbos, Tessalónica (Grécia) e Bangladesh são os três campos de refugiados onde António Lourenço, um jovem médico de Lisboa, trabalhou como voluntário. Partiu com o intuito de perceber como servir Deus através da sua profissão. Por lá, encontrou Cristo crucificado em cada história que ouviu, em cada rosto que o procurou. Voltou de coração agradecido e aberto ao reencontro.
De 23 a 29 de abril, o Ponto SJ e a Rede Mundial de Oração do Papa divulgam sete testemunhos deste jovem médico que lidou diretamente com pessoas vítimas da guerra. Uma iniciativa que surge no contexto da intenção do Papa para o mês de abril: os médicos e seus colaboradores em zonas de guerra.
António Lourenço é natural de Santarém, terminou o curso de Medicina em 2018, vive e trabalha em Lisboa. Integra, enquanto voluntário, o JRS – Serviço Jesuíta aos Refugiados, em Portugal, é membro da Comunidade de Vida Cristã e fez parte de vários projetos de ação social a nível nacional.
Os seus testemunhos mostram os efeitos da guerra, da perseguição, tortura e violência em milhares de pessoas que tiveram de fugir dos países de origem para salvaguardar a própria vida.
Nas linhas e entrelinhas dos textos, António Lourenço fala ainda da importância de se combater a indiferença perante os imigrantes e os refugiados e de se estar disponível para o encontro com Deus, através dos que mais sofrem.
As ilustrações são da designer Ana Miranda.
Abr 9, 2019 | Artigo, Dioceses, Migrantes, Notícias, Recortes, Refugiados
Conferência «Olhares sobre as Migrações»; Fotografia Ana Pinheiro em jornal Diário do Minho
Braga: Arcebispo assinala que «ninguém pode ficar indiferente» aos refugiados ou migrantes que pedem proteção
Braga, 06 abr 2019 (Ecclesia) – O arcebispo de Braga disse que só “uma verdadeira ação concertada dos Governos” responde à crise migratória, esta sexta-feira, na abertura da conferência ‘Olhares sobre as Migrações’, a última sessão do Ciclo Nova Ágora 2019, no Auditório Vita.
“Nenhum país resolverá o problema sozinho, só uma solução intergovernamental onde a solidariedade entre os Estados se torna efetiva e duradoura resolverá este terrível problema que envergonha os países desenvolvidos”, disse D. Jorge Ortiga.
O arcebispo de Braga, na abertura da conferência ‘Olhares sobre as Migrações’, assinalou que “só uma verdadeira ação concertada” dos Governos da Europa, referindo-se ao “Velho Continente”, vai ser capaz de responder à crise migratória e “poderá defender com humanismo os migrantes dos traficantes ou da morte do Mediterrâneo”.
“E criará como algo imprescindível e prioritário as condições para que possam permanecer nos seus países de origem terminando com os conflitos bélicos”, acrescentou.
Para D. Jorge Ortiga “ninguém pode ficar indiferente” aos milhões de refugiados ou migrantes forçados que pedem “proteção internacional” e às vítimas do tráfico e das novas formas de escravidão nas mãos de organizações criminosas.
Aos participantes da última sessão do Ciclo de Conferências ‘Nova Ágora’ 2019, lembrou que o Papa “desafia” as comunidades cristãs “a conjugarem quatro verbos – acolher, proteger, promover e integrar” – e cada um “encerra um programa” que diz que “não basta fazer de conta que problema não existe e solução diz respeito a outros”.
Para apresentarem os seus ‘Olhares sobre as Migrações’ a Arquidiocese de Braga convidou o diretor-geral da Organização Internacional para as Migrações, António Vitorino, o Alto-comissário para as Migrações, Pedro Calado, e José Luís Carneiro, secretário de Estado das Comunidades Portuguesas.
“O que faz falta são vozes razoáveis, ponderadas a discutir este tema. O Papa Francisco tem sido das poucas vozes que se tem levantado a defender valores que são católicos mas não são exclusivos: Dignidade da pessoa humana, obrigação da proteção internacional, respeito pelos Direitos Humanos dos migrantes”, disse António Vitorino.
Segundo o diretor-geral da OIM, o número de pessoas que tentam atravessar o Mediterrâneo da Líbia para a Europa “diminuiu no último ano cerca de 80%” mas as políticas dirigidas às causas das migrações “são de longo prazo”, “exigem sustentabilidade no tempo”, e não se podem criar “expectativas infundadas”.
“Não há arame farpado que detenha o desespero humano; É preciso olhar para as migrações de uma maneira completamente diferente”, acrescentou, observando que “é uma agenda difícil”.
António Vitorino explicou que “às causas tradicionais” – pobreza, doença, fuga dos conflitos – a mobilidade humana é originada, cada vez mais, motivos “ligados aos desequilíbrios demográficos, as epidemias e as alterações climáticas”.
“O ritmo das migrações vai no sentido crescente e reside um paradoxo, vai crescendo a rejeição das migrações, em muitos países de destino; A realidade dos números mostram que as migrações sul-sul, entre países em via de desenvolvimento no sul global, superam em número as migrações sul-norte”, observou, dando como exemplo a que “apenas 20%” dosa africanos migra para fora do próprio continente.
Sobre o ciclo de conferências, o arcebispo de Braga explicou quando deram início “à experiência de Nova Ágora”, há cinco anos”, foi para “ouvir”, saindo dos espaços eclesiásticos, “o que o mundo sussurra com ténues gemidos ou através de gritos humanitários”.
“Caminhamos juntos para construir uma cidade dos homens mais aberta aos valores universais, aos direitos fundamentais e à dignidade de todos”, destacou D. Jorge Ortiga.
Para além das “Migrações”, ‘Poder e Corrupção’ e ‘Populismos’ foram outros temas em análise no ‘Nova Ágora’ 2019 que se descentralizou e as primeiras sessões foram em Guimarães, Vila Nova de Famalicão.
CB
Mar 20, 2019 | Artigo, Recortes, Refugiados
19 mar, 2019 – 07:00 • Joana Gonçalves – Rádio Renascença
Viu morrer, foi feito prisioneiro e acabou por ser salvo por uma criança-soldado. Enganado na hora de pedir o visto para a família na embaixada portuguesa, só se reencontrou com a mulher e os três filhos cinco anos depois. Ben chegou a Portugal em 2013, para escapar ao conflito armado no seu país. Ouça a história, na primeira pessoa, de um pai refugiado em Portugal.

Ben (nome fictício) prefere não ser identificado. O Estado português concedeu-lhe asilo em 2013, depois de ter escapado aos rebeldes na República Democrática do Congo. Escolheu Portugal pelos fortes laços que mantém com Angola, uma das nove nações que fazem fronteira com o seu país-natal.
Como ele, mais de 4.500 pessoas pediram ajuda ao nosso país nos últimos cinco anos. A maioria desses pedidos continua a acontecer de forma espontânea, geralmente logo à chegada a um aeroporto nacional.
I – “Se eles chegarem ao poder, quem é que vão governar?”
Os rebeldes entraram na nossa aldeia em novembro de 2012. Chama-se Rutshuru e fica a 70 quilómetros de Goma, uma capital provincial com um milhão de habitantes, na República Democrática do Congo.
M23 era o nome deste grupo, Movimento 23 de Março. Roubaram as nossas casas, as nossas lojas, mataram homens, violaram mulheres. Tínhamos medo de acordar um dia com toda a aldeia em chamas.
Decidimos pedir ajuda. Na altura já tínhamos soldados das Nações Unidas no nosso país. Eu pensava muitos vezes: “Se eles estão em guerra com o Governo, porque é que atacam o povo? Não compreendo. Se eles conseguirem o que querem, se eles chegarem ao poder, quem é que vão governar? Se matarem toda a gente não vai sobrar ninguém.”
Decidimos denunciar a situação a um grupo de soldados da ONU estacionado fora da aldeia. A pessoa com quem falámos disse-nos que o chefe estava fora, em Goma.
“Quando ele regressar vamos contar-lhe o que se passa”, disse-nos.
E foi isso que aconteceu. Quando o chefe voltou trouxe uma brigada das Nações Unidas que criou um perímetro de segurança à volta da nossa aldeia. Perguntaram-nos a todos, um a um, o que se tinha passado.
Alguns relataram roubos, outros violações. Contámos tudo.
O chefe ficou muito, muito chateado. Disse-nos: “A guerra tem regras, eles não estão a cumprir as regras. Mataram civis, isto não pode ser!”
Uma semana depois os rebeldes regressaram, com o dobro da violência. Mataram soldados da ONU e levaram-nos a todos.
II – Um amigo entre a tormenta e a chegada a Portugal
Levaram-nos para uma floresta. Lá encontrámos um grupo maior, estavam à nossa espera. O líder estava ao centro.
Pensávamos que eles iam fazer o habitual, estávamos à espera que nos roubassem e nos deixassem ir, mas desta vez foi diferente. Disseram-nos que sabiam da denúncia e que não iam deixar ninguém sair de lá, enquanto não acusássemos os denunciantes.
Isto era um enorme problema, nós fomos juntos. Ninguém ia falar. Levaram-nos para um edifício, uma prisão. Disseram-nos que se não falássemos até ao final da noite nos matavam a todos, que ninguém ia sair de lá com vida.
“Deus, porque me deixaste? Porque me deixaste?”, gritei em tetela, a minha língua materna.
Estava muito assustado, aterrorizado. Bateram-me com a coronha de uma arma. À noite, um soldado perguntou: “Ouvi alguém falar tetela há pouco. Quem é?”
Eu não respondi. Tive medo. Então ele falou na minha língua materna, só eu percebi, os restantes falavam francês. “Eu quero ajudar-te. Não te vou fazer mal.”
Perguntou-me se eu tinha família. “Sim, tenho uma mulher e três filhos”, respondi. “Ninguém vai sair daqui. Não quero que fiques aqui”, disse-me.
Lembro-me que ele não queria falar comigo junto ao grupo. Levou-me, explicou-me que tinha sido uma das crianças sequestradas, recrutadas para servir no grupo de rebeldes M23.
Fugimos. Entregou-me em mão a outra pessoa. Disse que tínhamos de andar muito, fugir até muito longe, que eles iam procurar por mim. Foi esta pessoa que me salvou.
Antes de partir, contou-me que também queria fugir, mas que não tinha ainda chegado o momento. A 5 de novembro de 2013, o líder do M23 anunciou o fim das operações militares e ordenou às tropas o desarmamento e a desmobilização. Renderam-se, finalmente. Espero que ele tenha conseguido escapar.
Durante três dias estive escondido, tinha medo de sair. Ao quarto dia fugi, pedi ajuda e apanhei um avião até Lisboa. Cheguei em 2013, consegui asilo. Um mês e meio depois enviaram-me para Portalegre. Eu não sabia falar português, não tinha ainda notícias da minha família.
III – Uma carta sem aviso de receção
Antes de partir escrevi uma carta e pedi à pessoa que me ajudou que a entregasse à minha esposa.
Eu sabia que ela ia fugir, porque eu disse-lhe para o fazer na carta que lhe escrevi. Os rebeldes podiam procurar-me na aldeia e fazer-lhe muito mal. “Aí não estão seguros. Sai, leva os nosso filhos e vende tudo o que conseguires.” Nós tínhamos uma loja. “Guarda o dinheiro e vai. Eles não têm um coração bom, compreendes?”, escrevi.
Tenho duas meninas e um menino. Durante vários meses não soube deles.
Em Portugal procurei na internet, mas não consegui encontrá-los. Só mais tarde, através de uma rádio local, é que cheguei até eles. Um amigo disse-me que conhecia um jornalista de uma agência, confesso que não sei que agência era, mas foi ele quem fez o contacto.
O anúncio de que eu estava vivo e à procura deles circulou nas rádios e jornais, juntamente com as outras notícias. Alguém que conhecia a minha mulher ouviu-o numa rádio local e avisou-a de que eu estava bem, em Portugal.
O meu amigo conseguiu o número dela e nunca mais perdemos o contacto. Ela já estava na capital, falámos sempre ao telefone. Eu enviei-lhe algumas fotografias para ela mostrar aos nossos filhos.
IV – Cinco anos depois, o reencontro
Depois de conseguir o visto de residência, em 2015, fiz o pedido de reagrupamento familiar no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Esperei muito.
Paguei a uma pessoa para me ajudar a recolher os documentos necessários à obtenção do visto para a minha família. Em 2016, todos os papéis foram entregues na embaixada de Portugal em Kinshasa. Disseram-lhes que nenhum deles era válido, que tínhamos sido enganados.
Em 2017 recomeçámos todo o processo. A minha família acabaria por chegar em maio de 2018.
Quando fui buscá-los ao aeroporto estava nervoso. Passaram cinco anos desde que fugi do meu país. Sei que a minha filha mais velha ainda me conhece, ela tinha 13 anos na altura. O meu filho também, tinha 11 quando parti, mas a mais nova era ainda um bebé, com apenas 3 anos.
O primeiro a abraçar-me foi o meu filho. Lembrei-me do que me disse uma vez ao telefone, quando lhe perguntei porque é que estava sempre doente. Ele esteve muitas vezes internado antes de cá chegar.
“Pai, quando eu estiver ao pé de ti, nunca mais vou estar doente.”
A promessa foi cumprida: desde que chegou a Portugal, nunca mais esteve doente.
Texto editado a partir de uma entrevista:
https://rr.sapo.pt/especial/144746/pai-quando-estiver-ao-pe-de-ti-nunca-mais-vou-estar-doente-a-historia-de-um-pai-refugiado
Set 14, 2018 | Dioceses, Recortes, Refugiados
Bragança, 14 set 2018 (Ecclesia) – O Serviço Diocesano das Migrações e Minorias Étnicas de Bragança-Miranda está a acompanhar migrantes venezuelanos que escolhem a capital nordestina para viver e destaca-se em especial uma jovem família, com um filho que já nasceu em Portugal.
“Foi acarinhado pela Cáritas Diocesana e pela Associação Entre-Famílias que conseguiram, a tempo, providenciar o essencial para o enxoval do bebé”, disse a diretora Serviço Diocesano das Migrações e Minorias Étnicas.
Na nota enviada hoje à Agência ECCLESIA, pelo Secretariado das Comunicações Sociais
da Diocese de Bragança-Miranda, Fátima Castanheira conta que Diego, filho do jovem casal, nasceu nos primeiros dias de setembro.
“A equipa deste serviço diocesano apoiou e organizou a casinha que foi preciso pintar, compor, recuperar mobílias, tudo de forma rápida porque o pequeno venezuelano estava para chegar”, explicou.
Fátima Castanheira contextualizou ainda que a pequena casa que a jovem família alugou “precisava de quase tudo, desde mobílias, loiças, roupas entre outros bens essenciais”.
Segundo a diocese transmontana têm chegado ao seu território “venezuelanos à procura de um futuro melhor” e esperam, “para breve”, que cheguem outros elementos desta família que também escolheram Bragança para recomeçar as suas vidas depois de saírem da Venezuela, país que acolhe a segunda maior comunidade estrangeira de portugueses e vive uma crise económica e política.
Recentemente, na sua passagem por Portugal, a irmã Maria José Gonzalez, representante da Cáritas da Venezuela, alertou para o impacto da crise alimentar, da pobreza e da imigração, “um sofrimento de partir o coração”.
“Atinge os mais vulneráveis, os que vão sofrer danos irreversíveis, as crianças até aos 5 anos. Pedimos que a comunidade internacional torne esta crise visível”, destacou em declarações à Agência ECCLESIA e Rádio Renascença.
De assinalar que na Ilha da Madeira, de onde são provenientes muitos dos emigrantes portugueses atualmente radicados na Venezuela, a Paróquia da Sagrada Família também está a ajudar a integração de lusodescendentes.
CB
Migrações: Bragança-Miranda apoia família refugiada da Venezuela
Set 4, 2018 | Missões, Recortes, Refugiados
O Pe. Alexandre Mendonça, Capelão da Missão Católica Portuguesa em Caracas, presidiu à Novena dos Emigrantes na Igreja de Nossa Senhora do Monte na passada quinta-feira. Por essa ocasião o Jornal da Madeira dialogou com este padre nascido na Madeira radicado na Venezuela há mais de 50 anos.
Jornal da Madeira – Pe. Alexandre Mendonça, como carateriza a atual situação da nossa comunidade na Venezuela?
Pe. Alexandre Mendonça – Em primeiro lugar, queria agradecer o acolhimento, a vossa oração e acompanhamento, pelo que está a acontecer, agradeço esta oportunidade. Como padre da missão há 27 anos, agradeço todo o carinho e apoio; estou na Venezuela há 50 anos, emigrei para lá aos 12 anos de idade; e em vários momentos, vim aqui agradecer a Nossa Senhora do Monte, por exemplo, aquando da tragédia de Vargas, em que recebemos uma grande ajuda dos madeirenses, em especial a presença de D. Teodoro de Faria e o seu acompanhamento espiritual.
Neste momento, convivemos com uma realidade de grande sofrimento que os meus amigos conhecem bem, têm mais informação do que nós próprios, os meios de comunicação social não podem transmitir e, pessoalmente, sei mais através da RTP internacional, que aproveito para pedir que continuem a nos acompanhar com as notícias, as festas, o futebol, porque neste momento ninguém pode dizer que está bem ou tapar o sol com a dedo…
“…MAS HÁ FOME, NÃO HÁ MEDICAMENTOS, HÁ INSEGURANÇA, A VIOLÊNCIA É CADA DIA MAIOR E ESTAMOS A VIVER DIAS DIFÍCEIS”
Jornal da Madeira – Há fome, muitas necessidades ?
Pe. Alexandre Mendonça – Sim, sofremos como sofre toda a gente, há fome na Venezuela e também na saúde muitas necessidades. Quem tem melhores condições enfrenta de maneira diferente e a nossa comunidade busca ter no seu próprio meio instituições que ajudam, como o Lar Pe. Joaquim Ferreira, a Academia do Bacalhau, a Academia da Espetada, e pessoas de boa vontade que se aproximam da Missão Católica e do Centro Português de Caracas. Mas há fome, não há medicamentos, há insegurança, a violência é cada dia maior e estamos a viver dias difíceis
Jornal da Madeira – O que é que as pessoas procuram mais na Igreja?
Pe. Alexandre Mendonça – A nível da Igreja não há farinha para fazer pão, mas estes momentos de crise aproximam muito mais as pessoas de Deus e de Nossa Senhora. Neste momento, temos a visita da Imagem Peregrina de Fátima, está no interior do país, ainda não chegou a Caracas, onde a situação é mais difícil, mas as pessoas têm fome de tudo, também fome espiritual, pois ‘não só de pão vive o homem’. Sou um amigo, um irmão e partilho tudo, recebo muito mais e dou tudo pela minha querida comunidade.
“AS PESSOAS NÃO EMIGRARAM COM AS MALAS VAZIAS, PORQUE LEVAVAM NO SEU CORAÇÃO A NOSSA SENHORA”.
Jornal da Madeira – Esta ligação com Fátima é especial, como vivem esta espiritualidade de Nossa Senhora?
Pe. Alexandre Mendonça – Onde está um português estão presentes a devoção e o amor a Nossa Senhora de Fátima. O amor é tão grande que Fátima já não é propriedade da comunidade portuguesa; bem dizia o Papa Paulo VI que Fátima é o Altar do Mundo; a devoção é tão querida e amada por tudo o mundo; e na Venezuela não há rincão que não tenha celebrado com muito amor, devoção e dignidade, este centenário (100 anos das aparições de Nossa Senhora em Fátima). Assim, no dia 12 (de maio), na sede da Missão Católica, o novo cardeal da Venezuela, Baltazar Porras, presidiu às cerimónias; no dia 13, foi o cardeal-arcebispo de Caracas, Jorge Urosa; e no domingo seguinte, um bispo auxiliar; também celebrei em distintas paróquias, para devotos de todas as nacionalidades, dado que já é uma celebração com várias línguas, em que toda a Venezuela vibra.
A propósito, tenho uma experiência muito linda, numa paróquia, onde estive 15 anos, uma paróquia em que tinha muitos afilhados, muitos deles pretinhos, e muitas chamadas Fátima, sem que tivessem familiares portugueses. Quer dizer, soubemos semear esse amor a Nossa Senhora, construindo capelas e pedindo que nos levassem uma imagem de cá; lográmos também, com a ajuda de todos, construir uma igreja consagrada a Nossa Senhora de Coromoto, a padroeira da Venezuela. As pessoas não emigraram com as malas vazias, porque levavam no seu coração a Nossa Senhora.

Jornal da Madeira – Em relação aos apelos do Papa Francisco, a sua preocupação e a sua imagem são bem acolhidos, têm relevância até ao nível político?
Pe. Alexandre Mendonça – No meio do povo, esses apelos e preocupações do Santo Padre provocam muita gratidão e fazem chegar às pessoas esperança, fé, para que a situação melhore. Agora, penso que no mundo político não produz muito efeito, está a vista de todos, não vale a pena explicar mais.
Jornal da Madeira – Padre Alexandre, acha necessário haver um “plano de emergência” para os emigrantes que queiram sair da Venezuela, caso a situação possa agravar-se?
Pe. Alexandre Mendonça – Sempre é melhor prevenir do que lamentar, diz um ditado venezuelano. Tudo o que se possa fazer para evitar maior sofrimento, é bem-vindo e, neste aspeto, tenho agradecido aos governos central e regional a sua presença, preocupação e empenho. Ainda há pouco estiveram lá os secretários de Estado e da Região, e graças a eles também participei no recente “Fórum Madeira Global”. Agradeço essa proximidade que a todos nos anima neste momento tão difícil que estamos a viver. Cada caso que se resolve lá é menos um problema que vem para cá, e aqui já há suficientes.
“NO MEIO DO POVO, ESSES APELOS E PREOCUPAÇÕES DO SANTO PADRE PROVOCAM MUITA GRATIDÃO E FAZEM CHEGAR ÀS PESSOAS ESPERANÇA, FÉ, PARA QUE A SITUAÇÃO MELHORE”.
Jornal da Madeira – A nível das pessoas que queiram regressar para cá, ou outro lugar, é fácil ou há obstáculos?
Pe. Alexandre Mendonça – Pelo aquilo que tenho ouvido ultimamente, parecer haver obstáculos para sair e entrar. Agora, honestamente, não conheço bem o assunto e quando não conheço prefiro não opinar.
Jornal da Madeira – Pessoalmente, como vive o seu ministério nesta situação, num país com estas dificuldades?
Pe. Alexandre Mendonça – Essa pergunta é curiosa porque as pessoas que souberam que vinha para cá perguntavam se ainda pensava voltar à Venezuela. Mas, moral e espiritualmente falando, uma pessoa que vive há 50 anos naquele país, com muitos anos de sacerdócio na comunidade tão querida, penso que deveria ser o último a abandonar o barco. Não tenho vocação de mártir, mas só quero uma Venezuela melhor, como grande nação que é e será, com fé em Deus e em Nossa Senhora.
Jornal da Madeira – A fé e o compromisso com o Evangelho de Cristo dão-lhe uma força especial para continuar…
Pe. Alexandre Mendonça – Se somos sacerdotes, temos a obrigação de ter esse sentimento, e ser os primeiros a transmitir com verdadeira confiança em Deus de que as coisas vão melhorar, porque o Senhor nunca nos abandona, somos nós que lamentavelmente nos distanciamos, como diz a Bíblia, tendo olhos que não veem, tendo ouvidos que não ouvem, mas o Senhor que tudo pode, cura a nossa cegueira e pode clarear melhor o que vemos e ouvimos.
“OXALÁ QUE OS QUE VENHAM PARA CÁ ENCONTREM UMA MÃO AMIGA E QUE NÃO SUCEDA QUE, COMO ACONTECE COM FREQUÊNCIA, AO CHEGAREM CÁ SEREM TRATADOS COMO VENEZUELANOS”
Jornal da Madeira – O que precisa neste momento com maior urgência, qual a ajuda que a nossa comunidade pode dar, o que podemos fazer?
Pe. Alexandre Mendonça – Aproveito para pedir a todos os leitores desta entrevista, que nos acompanhem com a sua oração, tenham muita fé em Deus, a Ele nada é impossível, quem a Deus tem nada lhe falta. Outra ajuda é para todos aqueles que venham para cá ou vão para outros países, porque não se pode tapar o sol com o dedo, há muito sofrimento na tomada de uma decisão… Oxalá que os que venham para cá encontrem uma mão amiga e que não suceda que, como acontece com frequência, ao chegarem cá serem tratados como venezuelanos. Como eu dizia no “Fórum Madeira Global”, lá somos tratados como portugueses, e isso muito nos honra, mas ao chegar à nossa terra não é agradável ser venezuelano. Oxalá encontrem na sua terra verdadeiro apoio e solidariedade, porque não se pode amar a Deus sem amar os irmãos mais necessitados.
Todos vivemos um momento propício para elevarmos a nossa fé e amor a Deus e a Nossa Senhora, na caridade que é a única que nos pode salvar e colocar em prática o que o Senhor nos pede, o amor uns pelos outros.
https://www.google.pt/search?q=Venzuela+-+Pe.+Alexandre+Mendon%C3%A7a&rlz=1C1PRFI_enPT730PT730&oq=Venzuela++-+Pe.+Alexandre+Mendon%C3%A7a&aqs=chrome..69i57.8287j1j8&sourceid=chrome&ie=UTF-8
Jul 10, 2018 | Documentos, PAR, Refugiados
A PAR emitiu um comunicado sobre a situação dos refugiados e migrantes forçados da Venezuela, convocando à solidariedade para com quem está a viver esta experiência:
Portugal deve ser solidário também com os refugiados e migrantes venezuelanos.
- Em Portugal, a atenção às questões referentes a refugiados e a migrantes forçados tem estado concentrada na crise do Mediterrâneo. Sem prejuízo de merecer uma intervenção prioritária e solidária no quadro europeu, da qual a PAR tem sido parte integrante, não é só a essa situação que devemos responder. Noutros contextos geográficos estão em curso crises muito graves que exigem também a nossa atenção.
- Nos últimos anos tem-se vindo a agravar a situação de êxodo de cidadãos venezuelanos que, por vários motivos, se veem obrigados a sair do seu país. Atualmente, segundo a Organização Internacional das Migrações, este número ascende a 1,6 milhões de pessoas que procuraram refúgio noutros países, nomeadamente nos países vizinhos ou em países com os quais exista algum vínculo especial (p.e. por via de fluxos migratórios). Esta dimensão migratória configura uma crise humanitária relevante a que o mundo não pode ser indiferente.
- Portugal tem para com o povo venezuelano uma dívida de gratidão. Durante décadas, a Venezuela foi terra de acolhimento para emigrantes portugueses que procuravam melhores condições de vida. Agora que as circunstâncias obrigam a que sejam os venezuelanos a terem de emigrar, Portugal deve estar na primeira linha da solidariedade para com eles, acolhendo-os e apoiando-os, na medida das suas possibilidades.
- De uma forma particularmente relevante, deve ser tido em conta que ainda se encontram na Venezuela mais de 50.000 emigrantes portugueses em situação particularmente precária. Nos últimos meses têm chegado a Portugal, nomeadamente à Região Autónoma da Madeira, vários milhares de emigrantes regressados da Venezuela, com todas as dificuldades próprias de um regresso forçado e, muitas vezes, com limitações significativas de recursos e de redes de apoio para recomeçar a sua vida, sem prejuízo do esforço que tem sido feito pelas autoridades regionais da Madeira, do governo central e de organizações da sociedade civil como a Cáritas.
- Não podemos, por isso, ignorar a responsabilidade muito particular para com estes nossos compatriotas residentes na Venezuela que possam ser obrigados a regressar a Portugal. Se essa for a sua opção, aqui devem ser recebidos com todos os direitos inerentes à cidadania portuguesa e com a solidariedade que lhes é devida nestas circunstâncias tão difíceis.
- Nos últimos anos, a PAR – Plataforma de Apoio aos Refugiados, como rede da sociedade civil portuguesa, mobilizou-se para acolher refugiados, através do programa de recolocação coordenada pela União Europeia. É tempo de alargar o campo de ação e colocar na agenda a questão do apoio e acolhimento dos emigrantes portugueses regressados e dos cidadãos venezuelanos, migrantes forçados que se veem obrigados a sair da Venezuela.
- A PAR associa-se ao esforço do Estado Português, que deve ser claramente reforçado sem hesitação, para que Portugal possa estar na primeira linha, quer do acolhimento e apoio aos emigrantes portugueses forçados a regressar da Venezuela, quer no acolhimento de cidadãos venezuelanos que foram obrigados a sair do seu país. Deve fazê-lo, naturalmente, através de abordagens distintas, decorrentes do estatuto específico de cada perfil.
- Nesse contexto, a PAR disponibiliza-se para cooperar com o governo português e com o governo regional da Madeira, bem como com as organizações internacionais da área das migrações e refugiados, na resposta de acolhimento e apoio, salientando que essa responsabilidade deve ser nacional e não exclusiva da Região Autónoma da Madeira.
- A experiência da sociedade civil na rede de acolhimento de refugiados da PAR pode ser colocada ao serviço do acolhimento e apoio à integração de compatriotas que necessitem de apoio no regresso e de cidadãos venezuelanos que solicitem acolhimento temporário em Portugal.
- A PAR defende que o governo português desenvolva, no que se refere aos cidadãos venezuelanos em busca de proteção humanitária, as diligências necessárias para que esta realidade de proteção humanitária de emergência seja considerada no âmbito europeu dos processos de reinstalação, com os apoios inerentes em situações congéneres. Defendemos que parte do contingente que Portugal se disponibilizou a acolher (cerca de 1010 pessoas) seja preenchido por refugiados venezuelanos que se encontram em países de trânsito como a Colômbia ou o Brasil, sob proteção do ACNUR, e que queriam beneficiar de acolhimento em Portugal.
- A PAR defende ainda que, complementarmente, no âmbito do incremento do acolhimento de migrantes que o atual Governo indicou como prioritário, se crie uma linha específica para atribuição de vistos a cidadãos venezuelanos que o venham a solicitar nos consulados portugueses dos países vizinhos da Venezuela, nomeadamente na Colômbia e no Brasil.
iComunicado PAR Venezuela