(00 351) 218 855 470 ocpm@ecclesia.pt
Arcebispo de Barcelona: “Esquecemos os pobres porque incomodam”

Arcebispo de Barcelona: “Esquecemos os pobres porque incomodam”

Num estilo cativante, muito falador e sempre a pedir mais tempo à organização da conferência “Com os pobres”, que está a decorrer no Centro Cultural Franciscano, em Lisboa, o cardeal Juan José Omella, arcebispo de Barcelona, foi direto ao assunto: “A terra é de todos e é uma injustiça que se passe fome”.

Toda a intervenção do cardeal Omella andou à volta do conceito “opção preferencial pelos pobres”, uma expressão, que explicou, nasceu na América Latina em meados do século passado e que, para o arcebispo de Barcelona, “é o mesmo que o amor”, é “sair de si próprio e amar o outro”.

O cardeal Omella, perante vários elementos da hierarquia da Igreja Católica portuguesa presentes na sala, referiu que “no começo da Igreja estão os pobres, os doentes”, deixando como o exemplo aquilo que tem visto quando vai o Vaticano.

“Quantas vezes se vai ao Vaticano e agora, mais do que nunca, se veem os pobres a andar por ali pela colunata de Bernini e pela Praça de São Pedro e antes não se viam? São seres humanos, que estão esquecidos”, notou. Depois, alertou que “todos como sociedade” têm “de reagir” e que os pobres vão sendo esquecidos “porque incomodam”.

Dos avisos e recados não ficou de fora a própria Igreja. O cardeal Omella lembrou que “quando os bispos são ordenados uma das perguntas que fazem é ‘queres ser pai dos pobres?’, e todos dizem que sim, na catedral”. “Só que depois, na rua, quando encontram um pobre dizem ‘ai, rapaz, deixa-me'” – ou seja, “o pobre incomoda”, ficando esquecida “a promessa” feita de “amor preferencial aos pobres”.

A diferença entre a pregação e a prática ficou ainda patente noutra parte do discurso de Omella, que admitiu que se fazem “artigos óptimos” sobre pobreza, mas “na vida concreta custa mais”, desafiando a que se passe “da reflexão” para a “ação”.

O cardeal referiu que é necessário “atacar, denunciar, as causas e as raízes da pobreza”, dando como exemplos as existentes “falta de justiça e de solidariedade”, dizendo-se “indignado” pela maneira como a Europa está a tratar os migrantes que chegam todos os dias ao continente.

Durante a intervenção, o arcebispo de Barcelona referiu que se indigna com as pessoas que dizem que, perante a “avalanche de imigrantes”, não se pode acolhê-los, mas, admitindo que quem o diz “até tem razão”, coloca porém a questão: “O que foi feito, o que está a fazer-se para que não tenham de sair de onde estão?”.

Sempre num estilo peculiar, o cardeal Omella atirou ainda que uma “injustiça enorme é morrer de fome”, para concluir que injustiça também é “o dinheiro que se gasta para perder quilos”, ressalvando logo que lhe “perdoem os que estão gordos, não é porque comam, é porque é biológico”, provocando gargalhadas na plateia pelo humor usado.

De forma mais séria, o arcebispo de Barcelona terminou resumindo que há quem na sociedade vá a centros de emagrecimento “enquanto outros não têm o que comer”, o que é “uma injustiça”.

Na intervenção de mais de uma hora, o cardeal Omella disse ainda que “é preciso sensibilizar a sociedade para responder aos problemas, ajudar os pobres a sair daquela situação”, dando como soluções “a reinserção social, que os pobres sejam os protagonistas do seu próprio desenvolvimento”. E mais, “caminhar com eles”, concluiu o cardeal.

E foi ainda deixado outro desafio à plateia. Em vez de fazer-se a pergunta “onde está Deus?” quando se vê a pobreza no mundo, o cardeal Omella propõs que se coloque a questão “onde estamos nós? onde estás tu?”, promovendo no fundo uma responsabilização de cada um pela solução ou alívio do problema.

https://rr.sapo.pt/2019/11/09/religiao/arcebispo-de-barcelona-esquecemos-os-pobres-porque-incomodam/noticia/171133/

Angels Unawares: Não se trata apenas de migrantes

Angels Unawares: Não se trata apenas de migrantes

Por Ana Varela

Artigo publicado no ponto SJ

https://pontosj.pt/opiniao/angels-unawares-nao-se-trata-apenas-de-migrantes/

No passado dia 29 de setembro, celebrou-se na Praça de S. Pedro a Santa Missa para o 105.º dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Esta celebração foi realizada em união com os fiéis de todas as dioceses do mundo, para reafirmar a necessidade de que ninguém seja excluído da sociedade, seja um cidadão residente de longa duração ou alguém recém-chegado.

Tive a alegria de estar presente, com a minha família, junto de milhares de peregrinos de diferentes nacionalidades, que coloriram a Praça com a riqueza e o entusiasmo contagiante da diversidade. Senti-me também muito grata por esta oportunidade. Pois, sendo católica e tendo o privilégio de servir desde há vários anos migrantes e refugiados em Portugal, a participação nesta celebração teve ainda um significado mais profundo.

Estava uma manhã quente e clara, aguardámos sob um sol intenso, num clima de festa e recolhimento, próprios das grandes celebrações presididas pelo Papa Francisco. Em redor, logo escutámos o nosso idioma, peregrinos de Portugal e de países lusófonos, junto de peregrinos que viajaram de muitos outros países para participar nesta celebração e muitos imigrantes e refugiados residentes em Itália. Aguardávamos todos com grande expectativa, a homilia e a mensagem do Papa para este dia especial, que neste ano teve como tema: “Não se trata apenas de migrantes”. Sabíamos que iríamos, uma vez mais, ser interpelados pelas suas palavras e ações. Mas fomos surpreendidos também.

O Evangelho lido nesse dia foi a parábola do rico e de Lázaro (Lc 16, 19-31): Um homem rico, muito ocupado em comprar roupas elegantes e em organizar esplêndidos banquetes, não vê o pobre Lázaro coberto de chagas à sua porta, que bem desejava saciar-se com o que caía da sua mesa. Quando ambos faleceram, Lázaro foi consolado e o rico ficou em tormentos.

Esta parábola pode ser vista como uma metáfora do nosso tempo, que nos deveria convidar à conversão. O Papa referiu, com tristeza, que o mundo atual vai-se tornando, dia após dia, mais elitista e cruel para com os excluídos. Enquanto em alguns países se vive como o homem rico, numa cultura de descarte, com todas as comodidades e abundância de bens e de alimentos, que se desperdiçam e acabam, não raras vezes, no lixo, noutros países de baixo rendimento, continuam milhares a viver na miséria e a morrer à fome, como o pobre Lázaro da parábola. Neste mês de Outubro, em que se assinala no dia 17 o Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza, dá que pensar que desde há muito conhecemos esta situação de injustiça e sabemos que é possível erradicar a fome no mundo. Aliás, “Erradicar a pobreza” é o objetivo número um da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável (Agenda 2030) e “Erradicar a fome” é o segundo objetivo.

Enquanto isso, continuam a perecer milhares de homens, mulheres e crianças por falta de alimento e de subnutrição, em países mais pobres. Continuam ainda a abater-se guerras apenas sobre algumas regiões do mundo, enquanto as armas para as fazer são produzidas e vendidas noutras regiões, que depois erguem muros e pagam se preciso for para manter os refugiados bem longe da porta. Descartar ilustra ainda a ideia de exploração até ao limite de pessoas e de recursos naturais, para os colocar ao serviço de uns poucos mercados, somando a emergência climática à emergência humanitária. Não apenas o planeta está poluído pelos excessos e despojos do descarte, mas o próprio coração. E «quem sofre as consequências são sempre os pequenos, os pobres, os mais vulneráveis, a quem se impede de sentar-se à mesa deixando-lhe as “migalhas” do banquete» (homilia do Papa Francisco, 29 de setembro).

O Papa Francisco alertou uma vez mais para a “globalização da indiferença” e incapacidade de empatia, de compaixão, de verter lágrimas e chorar perante o sofrimento dos nossos irmãos mais pobres e excluídos. Os migrantes são uma oportunidade de conversão, ajudam-nos a ler os “sinais dos tempos” e estar atentos aos dramas de velhas e novas pobrezas. Ajudam-nos a libertar-nos do elitismo e da discriminação de quem não pertence ao “nosso grupo”, da indiferença e da cultura do descarte.

Esta parábola pode ser vista como uma metáfora do nosso tempo, que nos deveria convidar à conversão. O Papa referiu, com tristeza, que o mundo atual vai-se tornando, dia após dia, mais elitista e cruel para com os excluídos.

Assim, não se trata apenas de migrantes e refugiados, mas também de pessoas vulneráveis em geral. Trata-se de vencer os nossos medos, trata-se de caridade, trata-se da nossa humanidade, trata-se de não excluir ninguém, trata-se de colocar os últimos em primeiro lugar, trata-se da pessoa toda e de todas as pessoas, trata-se de arregaçar as mangas e empenhar-se seriamente na construção de um mundo mais justo, onde todos possam ter acesso aos bens da terra, todos possam realizar-se como pessoas e como famílias e onde a todos seja garantida a dignidade e os direitos fundamentais da pessoa humana.

Após a oração do Ângelus, o Papa Francisco confiou ao amor materno de Maria, Nossa Senhora da Estrada – Nossa Senhora das inúmeras estradas dolorosas –, os migrantes e os refugiados, juntamente com os habitantes das periferias do mundo e quantos se fazem seus companheiros de viagem. Depois, quis saudar a multidão reunida para esta celebração e percorreu no papamóvel a Praça de São Pedro. Era um momento muito aguardado por todos e sempre emocionante, ver o Papa de perto, saudar e ser abençoado/a por ele. Passou muito próximo de nós, com um sorriso no rosto. Seguidamente, desceu do papamóvel e avançou para um grande volume, coberto por um pano. Quando este foi retirado, revelou a escultura de uma barca, sobrelotada de pessoas migrantes e refugiadas em tamanho real, de diversas idades, contextos étnicos e culturais e diferentes tempos históricos. Nesta barca parece viajar a própria humanidade. Não há leme, mas existe esperança. De entre os migrantes, erguem-se duas asas – uma referência à Carta aos Hebreus: «Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns, sem o saberem, hospedaram anjos» (Heb 13,2).

Confesso que fiquei maravilhada desde o primeiro momento em que vi a obra “Angels Unawares” surgir à luz do dia. Soube depois que a escultura de bronze e argila, da autoria do escultor canadiano Timothy Schmalz, foi uma sugestão do recém Cardeal Michael Czerny – cujo brasão tem também o símbolo de uma barca com migrantes e refugiados. Este forte simbolismo faz todo o sentido, pois o Mar Mediterrâneo é atualmente a fronteira mais mortífera e perigosa do mundo. Nos últimos seis anos, mais de 14 mil pessoas, homens, mulheres e crianças (catorze mil!) perderam a vida no Mediterrâneo. Neste ano, entre janeiro e outubro, mais de mil pessoas já perderam a vida a tentar chegar à Europa, sendo que uma em cada 28 pessoas que tentou esta travessia morreu (dados da Organização Internacional das Migrações). As condições em que as travessias ocorrem estão a piorar aumentando o risco. De acordo com o porta-voz da OIM, Leonard Doyle, que classificou esta situação com “carnificina no mar”, as mortes «devem-se, em certa medida, ao endurecimento das atitudes, o aumento das hostilidades com os migrantes, que fogem da violência e da pobreza». O Papa explicou que foi seu desejo que a obra ficasse na Praça de São Pedro, para que recorde a todos o desafio evangélico da hospitalidade.

Desde o início do seu pontificado (2013), com a viagem a Lampedusa, passando pelo desafio lançado ao acolhimento de uma família de refugiados em cada comunidade cristã (2015), até ao presente, o Papa Francisco tem sido consistente e até mesmo insistente na necessidade de acolhimento de migrantes e refugiados. Não o faz decerto por teimosia, mas movido pela fé e compaixão de quem continua a ver o pobre Lázaro às portas da Europa. Se quisermos salvar-nos, não podemos esquecer a nossa humanidade e quem somos, não podemos não chorar perante a dor e a injustiça, não acolher e não amar os Lázaros deste mundo, tocando as suas feridas e saciando a sua fome. Somos chamados a restaurar a sua humanidade, junto com a nossa, sem excluir ninguém, sem deixar ninguém de fora.

 

Não se trata apenas de migrantes, Trata-se também de todos nós

Não se trata apenas de migrantes, Trata-se também de todos nós

Um apelo a não ficarmos indiferentes pois, como indica o tema do DMMR, não se trata apenas de migrantes, mas trata-se também de todos nós.

Como nos recordou o Santo Padre, o Senhor pede-nos que ponhamos em prática a caridade para com as pessoas descartadas e que restauremos a sua humanidade, juntamente com a nossa.

Para que se possam reviver os momentos mais belos deste Dia, enviamos um novo vídeo com as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco durante a celebração e recordamos que todo o material produzido pela Secção Migrantes e Refugiados durante a campanha comunicativa em preparação do DMMR está sempre à disposição no sítio internet da Secção e na pasta a isso dedicada a que se pode aceder clicando neste link.

«Migrações e Desenvolvimento» em reflexão no AEG

«Migrações e Desenvolvimento» em reflexão no AEG

 

A exposição itinerante  (patente na escola sede até ao dia 16 do corrente mês de outubro) foi disponibilizada pela Cáritas Portuguesa e a palestra foi feita pela Dr.ª Eugénia Quaresma, diretora da Obra Católica Portuguesa de Migrações, no passado dia 4 de outubro. A sessão de sensibilização e esclarecimento complementou e enquadrou a exposição itinerante “Migrações e Desenvolvimento”.

Estas iniciativas inserem-se no conjunto de atividades previstas no âmbito do projeto MIND (Migrações. Interligação. Desenvolvimento), promovidas no nosso país pela Cáritas Portuguesa, e têm como principais objetivos:
– Desafiar o público mais JOVEM a conhecer melhor e a refletir sobre a realidade do fenómeno das Migrações e a sua íntima relação com o Desenvolvimento Humano;
– E promover o debate sobre: Migrações e DesenvolvimentoFactos e mitos sobre migrações; Emigração e imigração em Portugal; Migrações forçadas; A Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; A contribuição dos migrantes para o Desenvolvimento; Os Pactos Globais sobre Migrações e Refugiados e os 20 Pontos de Ação.
Na sua apresentação, a Dr.ª Eugénia Quaresma centrou o trabalho das várias instituições de apoio a (e/i)migrantes e os serviços disponíveis em torno de quatro palavras-chave: ACOLHER, PROTEGER, PROMOVER e INCLUIR/INTEGRAR para assegurar o sucesso da integração dos migrantes e garantir histórias com um final feliz. Como disse numa entrevista à Rádio Renascença (e se pode ler no Roteiro de apoio à exploração da exposição a que os alunos têm tido acesso): “É muito importante trabalhar nas causas da emigração forçada e fazer cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável que passam pela erradicação da pobreza, por mais e melhores condições de saúde, pela educação e pela justiça. O combate à corrupção e ao tráfico humano, por exemplo, dependem da justiça funcionar efetivamente.”
Vivemos tempos em que urge a reflexão sobre o fenómeno migratório: as suas causas, as medidas de apoio a quem chega e parte e a aliança entre a razão e os afetos para minimizar os dramas pessoais e potenciar a partilha das experiências de vida e das heranças culturais que todos trazem consigo.
Embora estas iniciativas tenham como público-alvo privilegiado os jovens, é certamente do interesse de toda a comunidade compreender melhor este tema da atualidade.

https://aegondifelos.pt/index.php/9-yt-sample-data/category1/924-migracoes-e-desenvolvimento-em-reflexao-no-aeg

Trabalho digno é«necessário para recuperar a humanidade da sociedade» – MMTC

Trabalho digno é«necessário para recuperar a humanidade da sociedade» – MMTC

Liga Operária Católica/ MTC – Portugal associa-se a jornada mundial por esta causa

(Ecclesia) – O Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos (MMTC) assinala hoje a Jornada Mundial pelo Trabalho Digno, considerando que este é “necessário para recuperar a humanidade da sociedade”.

Numa mensagem enviada à Agência ECCLESIA, o MMTC “exige compromisso aos Estados e às instituições que governam” para construir sociedades verdadeiramente humanas, “onde os bens e riquezas geradas estejam ao serviço do bem comum”.

“Para superar a violação dos direitos associados ao trabalho, só há um caminho: Reconhecer a primazia das pessoas sobre as coisas, do trabalho sobre o capital”, sublinha a organização cristã.

Para o MMTC é precisa uma “nova racionalidade política”, que coloque os Estados a organizar a sociedade “em função de servir os trabalhadores mais empobrecidos, a justiça e todos os cidadãos”.

Esta “racionalidade política”, acrescenta a nota, tem necessidade de “cidadãos conscientes” que sejam capazes de “desprender-se dos valores neoliberais alimentados pelo capital, desenvolvendo a fraternidade”.

O Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos realça que associados ao trabalho digno existem “direitos pessoais, familiares e sociais” que são “irrenunciáveis” para construir sociedades humanas”, como os direitos “ao trabalho e a uma justa remuneração; as condições dignas e a ambientes que não atentem contra a vida do trabalhador; ao descanso; reunião e associação; as prestações sociais; à negociação coletiva e à greve”.

Em 2018, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), “a maioria” das 3300 milhões de pessoas empregadas no mundo “sofreram por falta de bem-estar material, de segurança económica e de igualdade de oportunidades” e não tiveram suficiente desenvolvimento humano.

O MMTC recorda que para a Doutrina Social da Igreja (DSI) o trabalho é “um direito fundamental de toda a pessoa, é um bem e todos têm direito a um trabalho digno”.

Como “um princípio fundamental”, a DSI defende “a primazia do trabalho sobre o capital”, os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras e das suas famílias “são o critério” a partir do qual se deveria organizar o trabalho, as condições em que se realiza e “toda a economia”.

A mensagem para a Jornada Mundial do Trabalho Digno 2019, desenvolvida pelo Movimento HOAC de Espanha, anima “todos os cidadãos e trabalhadores” a subscreverem em cada país a “exigência de um trabalho digno para todos e todas”.

No seu sítio online a Liga Operária Católica – Portugal também disponibiliza uma oração, para além da mensagem desta jornada.

CB/OC

Igreja/Sociedade: Trabalho digno é «necessário para recuperar a humanidade da sociedade» – Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos

 

Declaração  Final  – Assembleia Geral Talitha Kum, 27 setembro 2019

Declaração Final – Assembleia Geral Talitha Kum, 27 setembro 2019

27 SETEMBRO 2019

Nós, 86 delegadas de 48 países, representantes de 52 redes Talitha Kum comprometidas com o trabalho para acabar com o tráfico de pessoas em todos os continentes, reunidas/os de 21 a 27 de setembro, em Roma na Sede da União Internacional das Superioras Gerais, em discernimento orante e ação de graças, para:

  • Celebrar os 10 anos da Rede Talitha Kum;
  • Avaliar o trabalho realizado em conjunto de acordo com as prioridades estabelecidas em 2016; e
  • Definir as prioridades da Talitha Kum Internacional para apoiar os esforços de combate ao tráfico, no período de 2020 a 2025.

O tráfico de pessoas no mundo assume diversas formas. Como membros de uma rede internacional e seguidoras/es de Jesus Cristo, ouvimos o chamado para responder as causas profundas do tráfico humano que transcendem as fronteiras nacionais. Com o objetivo de viver nossa missão e visão identificamos três áreas prioritárias de injustiça estrutural a serem enfrentadas na luta para acabar com o tráfico de pessoas.

Primeira prioridade: A diferença de poder entre homens e mulheres em todos os setores: econômico, social, familiar, político, cultural e religioso. 

Denunciamos a coisificação e denigração das mulheres que contribuem para uma cultura global de exploração e violência contras mulheres, refletida no tráfico humano. De acordo com o escritório sobre Drogas e Crime da ONU, 72% das pessoas exploradas através do tráfico humano são mulheres e crianças. Existem muitas formas de tráfico humano incluindo exploração sexual, laboral e remoção ilegal de órgãos. Em se tratando de tráfico para exploração sexual as mulheres representam uma porcentagem ainda maior entre as vítimas.

Fazemos um apelo à Igreja, como Corpo de Cristo e um exemplo para a sociedade, a testemunhar o valor e a dignidade de mulheres e crianças, promovendo um papel adequado em todos os setores. Que esse compromisso seja refletido dentro da Igreja, envolvendo as mulheres nos processos de tomada de decisão, principalmente nos temas que as afetam diretamente. Fazemos um apelo às Conferências Episcopais, às congregações femininas e masculinas, ao clero diocesano e aos leigos para colaborar com as mulheres em nível de igualdade a fim de transformar a cultura de dominação e apoiar as redes da Talitha Kum em suas dioceses e comunidades. Apelamos aos governos em todo o mundo para garantir leis e políticas que promovam e protejam a dignidade de mulheres e crianças.

Comprometemo-nos a empoderarmos mutuamente como líderes na luta para acabar com o tráfico de pessoas; fortalecer o modelo inclusivo de trabalho conjunto das nossas redes; ser solidárias/os com todas/os oprimidas/os, especialmente mulheres e crianças e a promover a dignidade e a igualdade de todas as pessoas.

 

Segunda prioridade: O modelo dominante do desenvolvimento neoliberal e capitalismo irrestrito cria situações de vulnerabilidade, exploradas pelos recrutadores, traficantes, empregadores e compradores. 

 Denunciamos este modelo econômico injusto que prioriza o lucro acima dos direitos humanos, cria uma cultura de violência e mercantilização e reduz o financiamento para serviços sociais, colocando pessoas em maior risco de serem traficadas. Isto também afeta programas de prevenção, proteção, apoio, integração e reintegração de pessoas traficadas. Denunciamos a corrupção generalizada que contribui para a continuação desse mal.

Fazemos um apelo à Igreja para que continue usando a Doutrina Social Católica como base de crítica às estruturas sociais e promoção da justiça econômica e social; fazemos um apelo aos governos para que adotem alternativas justas ao modelo neoliberal de desenvolvimento; implementem leis de combate ao tráfico e destinem maior financiamento de apoio a programas de longo prazo para prevenção do tráfico humano e assistências às/aos sobreviventes em seus processos de cura e reintegração na sociedade. Esses programas deveriam ser criados com a contribuição direta das/os sobreviventes e daquelas/es que atuam nesta área, tais como as redes Talitha Kum.

Comprometemo-nos com práticas econômicas justas e sustentáveis em nossas redes, bem como, com a criação de espaços de reflexão interdisciplinar, colaboração e incidência política dentro das várias organizações eclesiais, inter-religiosas e organizações governamentais e internacionais de acordo com os valores do Evangelho e da Doutrina Social Católica.

 

Terceira Prioridade: Leis e políticas de imigração injustas e inadequadas aliadas à migração e deslocamento forçados colocam as pessoas em maior risco de serem traficadas.

Denunciamos as leis e políticas de imigração injustas enraizadas em uma cultura de racismo e xenofobia que negam os direitos humanos básico das pessoas em movimento. Denunciamos a retórica política desumanizante que alimenta o ódio, a divisão e a violência. Denunciamos a rígida política de imigração que coloca as vítimas do tráfico de pessoas às sombras, dificultando o trabalho de identificação das vítimas e a penalização dos criminosos.

Fazemos um apelo a todas/os os Católicas/os e pessoas de boa vontade a assumir ações proféticas e consistentes com o chamado do Papa Francisco para rezar, acolher, proteger, promover e integrar migrantes, refugiados e pessoas deslocadas internamente a fim de impedir que caiam nas mãos dos traficantes. Apelamos aos governos para que implementem políticas de migração e controle das fronteiras que impeçam o tráfico de pessoas e protejam a segurança, a dignidade, os direitos humanos e a liberdade fundamental de todas/os migrantes, independentemente de seu status migratório.

Comprometemo-nos a trabalhar além das fronteiras e confins através de nossas redes a fim de garantir uma migração segura e impedir o recrutamento dos migrantes pelos traficantes, durante sua viagem e acompanhá-los em seu retorno. Comprometemo-nos usar nossa voz coletiva e envolver funcionários do governo para promover e fazer cumprir as leis e as políticas de migração.

Sabemos que somente trabalhando em colaboração e solidariedade, tecendo uma rede de amor, poderemos enfrentar as questões estruturais que causam e perpetuam o tráfico de pessoas. Como membros da Igreja Católica global, afirmamos as orientações pastorais sobre tráfico de seres humanos e incorporamos suas orientações em nosso trabalho. Convidamos todas/os a se juntarem a nós em oração pela implementação bem-sucedida deste importante trabalho para acabar com o tráfico de pessoas. Juntos, criaremos um futuro cheio de esperança profética trabalhando juntas/os, formando uma rede de compaixão e de graça!

Prioridades Internas Talitha Kum para 2020-2025 

A Assembleia também estabeleceu prioridades para aumentar e fortalecer nossa Rede e aprofundar nossos impactos em acabar com o tráfico humano. No período de 2020 a 2025 Talitha Kum se concentrará em melhorar nossos recursos e oportunidades de trabalho em rede, comunicação e formação. Será priorizado o trabalho em educação e prevenção, atenção às/aos sobreviventes, incidência política e o crescimento da rede, priorizando a África e a Ásia.

https://www.talithakum.info/pt/noticias/final-declaration-talitha-kum-assembly-27-setembro-2019